Isaura Daniel
São Paulo – O crédito rural do governo deixou de ser visto pelo agronegócio nacional como única fonte de financiamento da produção e da comercialização. As empresas agrícolas brasileiras estão descobrindo novas fontes de recursos no mercado, como as bolsas de valores e os títulos de créditos agropecuários.
Daqui a cerca de trinta dias, uma produtora e exportadora catarinense de maçãs, a Renar, deve estrear no mercado de ações, onde pretende captar R$ 16 milhões com a venda de 10 milhões de ações ordinárias. A empresa aguarda apenas a liberação de emissão dos papéis para começar a negociar. O registro da companhia no mercado de capitais foi concedido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no final de dezembro.
A Renar pretende utilizar metade do recurso captado como capital de giro para aumentar as exportações e a outra metade para investimento em máquinas, instalações e logística. O diretor de Relações com os Investidores da Renar, Elvito Coldebella, está confiante no sucesso da emissão e acredita que outras empresas ligadas ao agronegócio podem ingressar no mercado de capitais depois do lançamento.
"Tenho certeza que com essa abertura muitas outras empresas vão entrar. É mais viável e mais barato abrir o capital do que pegar dinheiro nos bancos", diz Coldebella.
As bolsas de valores, de acordo com especialistas, podem ser uma boa fonte de financiamento para as empresas agrícolas do país. "O mercado de capitais sempre foi um excelente canal para captações primárias", diz o analista de investimentos da corretora Souza Barros, Ricardo Tadeu Martins.
As captações primárias são aquelas nas quais a empresa vende parte do seu capital ao mercado e utiliza o dinheiro para investimentos, como a construção de novas unidades ou capital de giro. Nas captações secundárias, o recurso vai para os acionistas que estão vendendo sua participação.
"Indo para a bolsa, a empresa está democratizando seu capital, gerando empregos e levando a sua imagem para o mercado. É uma propaganda a custo zero", diz Martins. Hoje, entre as quase 400 empresas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), 20 são ligadas de alguma forma ao setor agropecuário. Entre elas estão a Café Cacique, Iguaçu Café, a Granoleo, de grãos e derivados, a Perdigão, a Sadia e a Seara, de carnes, a Vigor, de laticínios. De acordo com Martins, a Sadia e Perdigão são as que têm maior representatividade junto aos investidores. A Iguaçu, segundo Martins, é procurada em função da boa taxa de dividendos que oferece.
Para pagar na safra
Além das bolsas de valores, também os títulos de créditos agropecuários estão despontando como uma opção de financiamento para as empresas agrícolas e os produtores rurais. Entre eles está o Certificado de Depósito Agropecuário (CDA), pelo qual o produtor vende o papel e levanta recursos com a promessa de entrega futura do produto. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento estima que nos próximos dois anos os títulos agropecuários devem movimentar R$ 25 bilhões.
Esses papéis são, na verdade, um complemento ao crédito rural e uma tentativa do governo de levar os produtores a buscar recursos no mercado. O tamanho do crédito rural, de acordo com analistas da área agrícola, é hoje pequeno para o agronegócio brasileiro. "É insuficiente", diz o diretor analista da corretora Brasoja, Antônio Sartori. O governo vem aumentando o volume disponível, mas a safra também vem crescendo a percentuais altos.
Para a colheita 2004/05, por exemplo, serão disponibilizados R$ 28 bilhões para custeio e comercialização e R$ 10,7 bilhões para investimentos, um total de R$ 39,4 bilhões. Na última safra, foram ofertados R$ 27,15 bilhões. A safra de grãos, porém, saiu de 38 milhões de toneladas em 1980 para 120 milhões de toneladas no ano passado. Neste ano devem ser colhidas 130 milhões de toneladas, 10 milhões a mais do que em 2004.
Sartori lembra que as grandes empresas de comercialização de grãos têm a opção de buscar recursos no mercado internacional a custos baixos. Essa não é, porém, a realidade de todos os produtores. "Hoje para investir o agricultor precisa se capitalizar e usar recursos próprios ou buscar recursos no mercado, trocar fertilizantes e sementes pelos produtos (safra). Os produtores fazem cada vez mais isso", explica o analista.
Hedge
A presença da agropecuária brasileira é cada vez mais notável no mercado financeiro nacional. Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) foram negociados em 2004 um volume recorde de contratos agrícolas. Esse tipo de operação, porém, não é utilizada para financiamento de produção ou investimento, mas apenas para que o produtor garanta, por meio de um contrato, um preço mínimo para o seu produto na época da safra.
A BM&F movimentou no ano passado 1,05 milhão de contratos agrícolas, crescimento de 34,9% sobre 2003. As operações geraram US$ 7,85 bilhões. O aumento da movimentação financeira dos contratos agropecuários sobre o ano anterior foi de 67,6%.

