São Paulo – As empresas brasileiras que atuavam na Líbia antes do levante que pôs fim ao regime de Muamar Kadafi querem retomar seus negócios no país, e há oportunidades para mais companhias. As informações são do embaixador Afonso Carbonar, que em breve vai assumir a representação diplomática do Brasil em Trípoli.
"Eles (os líbios) querem a volta do Brasil", afirmou o diplomata à ANBA, durante visita à Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo, onde foi recebido pelo CEO Michel Alaby. Grandes companhias, como as construtoras Odebrecht, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez, além da Petrobras, tinham contratos no país, mas os negócios foram suspensos durante o conflito em 2011.
A retomada dos trabalhos foi colocada em dúvida quando integrantes do movimento que derrubou Kadafi chegaram a dizer que seria dada preferência a empresas de outras nacionalidades nos contratos, pois o Brasil se absteve da votação no Conselho de Segurança da ONU que autorizou a ação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na nação do Norte da África.
Carbonar ressaltou que o interesse no retorno das companhias foi manifestado pelo vice-primeiro-ministro líbio, Omar Abdelkarim, em visita realizada ao Brasil em abril. "Ele disse que [os líbios] gostariam que as empresas voltassem e que elas podem se sentir seguras", afirmou. "Não temos razões para duvidar disso", acrescentou.
O embaixador destacou que Abdelkarim compreendeu a posição do Brasil. Segundo ele, o País se absteve porque a resolução autorizava o uso de "todos os meios possíveis" para defender a população civil, expressão muito genérica e que abria espaço para virtualmente qualquer ação militar, na opinião da diplomacia brasileira.
Além disso, segundo Carbonar, os líbios querem que mais companhias do Brasil busquem contratos no país árabe. Na visita do vice-primeiro-ministro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, ficou até de organizar uma missão empresarial a Trípoli.
O diplomata contou também que há interesse dos dois países na ampliação do comércio, fortemente afetado pelo conflito. "E podemos, num futuro não muito distante, pensar na retomada dos investimentos, com geração de empregos", afirmou.
Diálogo
Carbonar destacou que duas vertentes importantes do seu trabalho vão ser o diálogo político e a viabilização de cooperação bilateral em áreas de interesse líbio. O Brasil já colabora com o trabalho de retirada de minas terrestres instaladas durante o conflito, na identificação de armamentos existente no país e com a doação de remédios. O embaixador informou que estima-se que há cerca de 300 mil pessoas armadas na Líbia e isso é um permanente foco de tensão.
Apesar disso, o diplomata ressaltou que o Conselho Nacional de Transição (CNT), que assumiu o governo após a queda de Kadafi, vem conseguindo implementar o cronograma de reformas e que o país vive um momento de "rearrumação das forças políticas".
Eleições parlamentares estão marcadas para ocorrer sábado (07) e o Congresso Nacional do Brasil ofereceu auxílio no processo. Carbonar lembrou que o País tem experiência nessa seara pois fez a transição da ditadura militar para o regime democrático na década de 1980.
Além disso, ele disse que o Brasil pode colaborar na formulação de políticas públicas, como em programas de transferência de renda, a exemplo do Bolsa Família; na área agrícola, por meio da Embrapa; industrial, com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), entre outras iniciativas. "Espera-se uma transformação importante da sociedade [líbia]", declarou o diplomata.
Carbonar ingressou na carreira diplomática em 1980 e já atuou em Washington, Boston, Moscou, Roma e Damasco. Dentro do Itamaraty, ele foi negociador comercial do Mercosul e integrou os departamentos de Investimentos, de Ciência e Tecnologia e de Defesa e Segurança.

