Alexandre Rocha
São Paulo – A Feira Internacional de Argel nem começou e já apareceram oportunidades de negócios para empresas brasileiras na Argélia. Durante um seminário sobre as relações econômicas entre a América Latina e a Argélia, realizado na quinta-feira (27) em Argel, empresários argelinos procuraram os representantes da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), que participaram do evento, interessados em importar polpa de frutas e material elétrico.
Um das empresas é a Fruital, que atua no setor de bebidas e é uma das engarrafadoras da Coca-Cola no país árabe. A outra é uma companhia que atua no segmento de equipamentos elétricos e quer comprar matérias primas, como cabos e isolantes.
A Argélia é um país com o qual o Brasil tem um dos maiores déficits em sua balança comercial. De janeiro a abril deste ano o Brasil importou o equivalente a US$ 553,4 milhões do país do norte da África, principalmente em petróleo e nafta para a indústria petroquímica, e exportou US$ 88,6 milhões, sendo o trigo e o açúcar os primeiros itens da pauta.
Durante o seminário, o secretário-geral da CCAB, Michel Alaby, falou sobre os setores que podem contribuir para o aumento da corrente comercial entre os dois países. Ele acredita, por exemplo, que o Brasil pode aumentar bastante suas exportações de açúcar, embora a commodity já seja um dos principais produtos vendidos.
No ano passado foram embarcadas mais de 425 mil toneladas de açúcar de cana em bruto para a Argélia. No entanto, Alaby disse que os 32,8 milhões de argelinos consomem anualmente um milhão de toneladas de açúcar. "A França vende cerca de 300 mil toneladas anuais de açúcar de beterraba para a Argélia, só que subsidiado", disse o diretor da CCAB.
Com os subsídios que, segundo ele, variam entre US$ 70 e US$ 80, o produto francês chega no país africano a US$ 110 por tonelada, enquanto o açúcar de cana em bruto exportado pelo Brasil custa em média US$ 141,7 por tonelada.
Do lado argelino, Alaby disse que o país pode procurar a diversificação de sua pauta aumentando as exportações de gêneros alimentícios, como tâmaras e azeite de oliva, e de fosfato para a produção de fertilizantes. A Argélia já exporta fosfato para o Brasil. "Mas com a produção agrícola brasileira aumentando cada vez mais, cresce a demanda por matérias primas para fertilizantes", disse.
No total 10 empresas brasileiras vão participar da Feira Internacional de Argel, que será realizada entre os dias 2 e 10 de junho. Elas representam os setores de autopeças, utensílios de vidro, alimentos, calçados, ventiladores, máquinas agrícolas, plásticos e equipamentos para confeitarias. Haverá também a presença de uma trading.
Uma dessa empresas é a Klin, que fabrica calçados infantis na cidade de Birigui, no interior de São Paulo. Ela produz cerca de 45 mil pares de sapatos por dia e vende para mais de 60 países, inclusive para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Líbano, Jordânia, Catar, Bahrein e Egito.
Propostas para aumentar o comércio
No seminário, que contou com cerca de 80 pessoas, entre empresários e autoridades argelinas e diplomatas do Brasil, Argentina, México, Chile, Cuba e Venezuela, Alaby falou também sobre o perfil econômico da América Latina, principalmente do Brasil.
Falou, por exemplo, que o Brasil é o quinto maior país do mundo, que o seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2003 foi de US$ 550 bilhões (50% do PIB da América Latina), que exportou no ano passado o equivalente a US$ 73 bilhões e importou US$ 48,2 bilhões, que faz fronteira com nove dos 11 países da América do Sul, que concentra 40% dos usuários de internet da América Latina, que é o maior produtor e exportador mundial de suco de laranja, café, carne bovina e açúcar, e o quarto maior produtor mundial de aviões, entre outras informações.
Alaby falou também sobre a imigração árabe para o Brasil. Estima-se que hoje residam no país cerca de 10 milhões de descendentes de árabes, principalmente de origem sírio-libanesa. Acrescentou que os árabes contribuíram para o desenvolvimento do Brasil em todos os setores, inclusive na cultura, política, gastronomia e esportes.
Os representantes da CCAB no seminário apresentaram uma série de propostas para aumentar o intercâmbio comercial do Brasil com a Argélia, como a realização de mais missões bilaterais, um acordo para evitar a bitributação de produtos e a assinatura de um acordo entre o país africano e o Mercosul. As idéias foram referendadas pelo embaixador do Brasil em Argel, Isnard Penha Brasil Júnior.
"A recepção a estas propostas foi ótima", garantiu Alaby.
Unctad
Em entrevista recente à ANBA, o embaixador da Argélia em Brasília, Lahcène Moussaoui, disse que este será "o ano da América Latina" na Argélia. Na sexta-feira (28) ele confirmou que uma delegação do país vai participar da 11ª Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), que será realizada entre os dias 13 e 18 de junho em São Paulo.
De acordo com Moussaoui, a comitiva será formada por três diplomatas, um deputado, um senador e possivelmente um ministro de estado, que poderá ser o do Comércio.

