Marina Sarruf
São Paulo – A equipe brasileira Keep Flying, formada por 15 estudantes de engenharia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), venceu no ano passado a 8ª Competição de AeroDesign da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE-Brasil) com a criação de um avião cargueiro controlado por rádio capaz de transportar 12,135 quilos de carga útil. O primeiro lugar, na categoria Classe Regular, garantiu o direito da equipe de representar o Brasil no próximo concurso SAE AeroDesign East Competition, que será realizado entre os dias 04 e 06 de maio, na Flórida, Estados Unidos.
Entre os alunos da equipe está a estudante do quarto ano de engenharia naval, Sophia Marzouk, 22 anos, filha de engenheiro tunisiano e mãe brasileira. Sophia tem nacionalidade tunisiana e costuma ir uma vez por ano visitar seus parentes no país árabe. Atualmente, ela trabalha na área de projeto de gestão naval da Transpetro, subsidiária da Petrobras. "Essa foi a primeira vez que a Poli ficou em primeiro lugar. É um título inédito", disse Sophia.
A Classe Regular, categoria da qual a equipe da estudante está, participam somente alunos da graduação. Uma vez por ano a SAE Brasil e a SAE Internacional, com sede nos Estados Unidos, realiza o projeto AeroDesign, voltado para os alunos de engenharia. O objetivo da competição é promover o intercâmbio de técnicas e conhecimentos entre os alunos de graduação e pós-graduação em engenharia.
De acordo com o capitão do time, Rodrigo Sauri Lavieri, estudante do quinto ano de engenharia naval, a equipe Keep Flying surgiu em 2003 e já participou cinco vezes da disputa no Brasil. Este ano, porém, será a primeira vez que ela vai participar da competição nos Estados Unidos. A equipe é formada por alunos de todas as áreas da engenharia, pois o projeto requer conhecimentos específicos de cada uma, como elétrica, mecânica, mecatrônica, naval, aeronáutica, entre outras.
No ano passado, a Competição de AeroDesign no Brasil reuniu 65 equipes no total. Além dos grupos brasileiros também participaram equipes da Venezuela e Portugal. "A competição brasileira costuma ser bem forte. Muitas equipes que ganham aqui também ganham nos Estados Unidos", disse Sophia. Uma prova disso é que estudantes de outras faculdades brasileiras já são tricampeões na competição da SAE Internacional.
Segundo Lavieri, o fato do Brasil já ter ganhado três vezes a competição nos Estados Unidos traz uma grande responsabilidade para a equipe. "Sou bem conservador para arriscar um palpite, mas acho que a equipe está bem mais motivada este ano. Podemos fazer um projeto bem mais legal e mais sofisticado também", disse o estudante.
A equipe Keep Flying não será a única brasileira a competir com as mais de 60 equipes nos Estados Unidos. Além dela, dois outros grupos estarão na disputa, a equipe Uirá, que ficou em segundo lugar na Classe Regular, e a EESC-USP Charlie, da Escola de Engenharia de São Carlos, também da Universidade de São Paulo. Entre os países concorrentes das equipes brasileiras estão Estados Unidos, Colômbia, Venezuela, Marrocos e países europeus.
De acordo com Sophia, o avião que será apresentado na competição nos Estados Unidos não será o mesmo mostrado no Brasil. "O avião também é cargueiro, mas tivemos que desenvolver um novo projeto, porque os requisitos são outros", disse. Segundo a estudante, o material utilizado na fabricação dos aviões é madeira balsa, que é bem leve, e fibra de carbono. Um projeto desses leva em média seis meses para ficar pronto.
Custo e benefício
Segundo Lavieri, o custo dos aviões é alto. Cada um custa em média entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. O projeto todo do ano passado saiu por volta de R$ 13 mil, incluindo o avião reserva, um protótipo voador, equipamentos e material. A equipe no ano passado contou com o patrocínio da Petrobras e da empresa NSK do Brasil, fabricante de rolamentos. Também tiveram o apoio da Black & Decker, da Alltec do Brasil, fabricante de fibras de carbono, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), entre outras instituições.
Além dos alunos terem que correr atrás das despesas, eles também se esforçam para se manter acordados durante as madrugas. "Tem noites que passamos a madrugada toda escrevendo relatório e montando o projeto", disse Lavieri. Para a competição nos Estados Unidos, a equipe já teve que mandar um relatório técnico de 30 páginas sobre o projeto e ainda terá que fazer uma apresentação oral para uma banca de profissionais da área. Por último ocorrerá a apresentação do avião. "Sem dúvida vale a pena. É muito gratificante ver o resultado final", afirmou o capitão.
Surpreendente
De acordo com o orientador da equipe, Alexandre Kawano, professor de engenharia mecatrônica, os alunos realizaram um trabalho excepcional. "Do ponto de vista técnico fizeram um trabalho surpreendente", disse. Segundo ele, participar dessa competição é muito bom para o aprendizado. "Eles estudam mais do que a gente pede e aprendem mais do que a gente ensina por causa da competição. Além disso, tem todo um trabalho de equipe e de relacionamento, o que é um grande aprendizado", afirmou.
Kawano entrou na coordenação da equipe no ano passado. São os próprios alunos que escolhem o professor. "Já entrei dando sorte", disse o professor que também vai acompanhar a equipe nos Estados Unidos.
Oportunidades
A equipe Keep Flying também vai participar do Nasa Engineering Systems Award, prêmio da Agência Espacial Norte-Americana, que vai propiciar aos participantes do campeonato SAE Internacional uma oportunidade para aplicar as melhores práticas de engenharia em suas aeronaves. Segundo Lavieri, esse projeto é diferente da competição da SAE Internacional, porque consiste em mandar apenas um relatório sobre a metodologia utilizada para o projeto. "A equipe de engenheiros da NASA avalia o nosso projeto e nos mandam um feedback. O prêmio é, na verdade, mais uma oportunidade para os alunos do que uma competição", disse Lavieri.
SAE Brasil
Fundada em 1991 por executivos dos segmentos automotivo e aeroespacial, a SAE Brasil é hoje a mais importante sociedade de engenharia da mobilidade do país, com mais de quatro mil associados e 11 seções regionais distribuídas em todo Brasil. A SAE Brasil é filiada à SAE Internacional, fundada em 1905, nos Estados Unidos, por líderes da indústria, como Henry Ford, Thomas Edison e Orville Wright.

