Isaura Daniel
São Paulo – Governos europeus estão interessados em financiar a produção do etanol com tecnologia brasileira em países africanos. A informação foi dada ontem (28) pelo ex-ministro da Agricultura do Brasil, Roberto Rodrigues, logo após ele assumir a coordenação do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Rodrigues disse à ANBA que os governos da Holanda e da Inglaterra manifestaram a vontade de executar projetos de etanol em parceria com o Brasil em países pobres do continente africano. O Sudão é uma das nações africanas que tem organizado missões ao Brasil em busca de tecnologias para produção de álcool.
O Centro de Agronegócio, que promoverá estudos e pesquisas na área, terá como um dos focos justamente a agroenergia, as energias produzidas a partir de produtos agrícolas, como é o caso do etanol que, no Brasil, é feito com cana-de-açúcar. A idéia, segundo o ex-ministro, é que o centro funcione como uma inteligência maior na área. A FGV já tinha atuação em agronegócio, mas em diferentes departamentos espalhados pela instituição. Os trabalhos agora serão congregados no novo centro, que terá a liderança do ex-ministro.
O Centro deve oferecer, inclusive, uma especialização em agroenergia. Segundo Rodrigues, ela deve ser levada adiante pela FGV juntamente com Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). As instituições querem também o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). "Temos 310 usinas de álcool no Brasil e mais 160 projetadas. Vai haver demanda para profissionais qualificados", disse o ex-ministro. As ações do Centro incluirão também, de acordo com ele, reuniões e debates com outros países.
Para o Brasil, segundo Rodrigues, é interessante que o etanol seja uma commodity. "Não existe comércio mundial em grande volume de um produto se ele é produzido por um país só. É fundamental que outros países venham a produzi-lo também, de tal forma que o consumo se dê nos países produtores, com excedentes para os países não produtores", afirmou. Há países, segundo o ex-ministro, que não têm condições de ter grandes programas de biomassa, em função da quantidade de terras. É o caso, segundo ele, da Índia e da China, que devem ser grandes demandantes de etanol.
Hoje, Brasil e Estados Unidos são os grandes produtores de etanol. Os norte-americanos fazem o produto a partir do milho. Em função da sua própria demanda interna, porém, o país não deve ser um grande exportador do etanol. Mas também já há projetos e produção de etanol em países como República Dominicana, Jamaica e Colômbia. Na África e na Ásia, de acordo com ele, há interesse também. Os governo da Holanda e da Inglaterra, segundo Rodrigues, manifestaram a ele e também ao atual ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, em conversas, o seu interesse em fazer os projetos conjuntos de etanol na África. Guedes participou ontem da posse de Rodrigues no Centro de Agronegócio.
De acordo com Rodrigues, o Brasil tem condições de duplicar a sua produção de etanol em dez anos usando a mesma área plantada de cana-de-açúcar, atualmente em três milhões de hectares. Há outros três milhões de hectares com cana usados para produção de açúcar. Segundo o ministro Guedes é possível até triplicar a produção de etanol "sem derrubar uma árvore".
O atual ministro fez questão de falar sobre o tema do desmatamento para contestar matérias publicadas na imprensa internacional que afirmam que o Brasil tem promovido desmatamento para expandir sua agricultura. Segundo o ministro, um estudo da Embrapa, que será divulgado em breve, mostra que o Brasil tem hoje 69,5% das florestas naturais que tinha há oito mil anos, enquanto que a Europa tem apenas 0,3%. "O território que mais conservou seu bioma, no planeta, foi o Brasil", afirmou Guedes.
O Centro de Agronegócio integra a Escola de Economia de São Paulo da FGV. As ações do Centro serão a pesquisa e o estudo de temas relacionados ao agronegócio, a promoção de cursos, a divulgação de informações relevantes ao setor por meio do site AgroAnalysis, vinculado à já existente revista com o mesmo nome, e também o desenvolvimento de projetos e a prestação de consultoria na área.

