Isaura Daniel
São Paulo – No Timor Leste, sudeste da Ásia, 8,5 mil crianças têm a sua saúde assistida de perto por um grupo de voluntários. As suas mães receberem orientação sobre o cuidado com os filhos, como a amamentação, a hidratação oral, as vacinas. Quando as crianças estão desnutridas, recebem um composto alimentar feito a partir de nutrientes naturais. As ações seguem o modelo da Pastoral da Criança, organização comunitária ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A Pastoral da Criança implementa junto a comunidades carentes um programa de educação para desenvolvimento das crianças, cuja metodologia já foi exportada para 16 países.
O trabalho é levado adiante por voluntários, em geral das próprias comunidades, que dão às gestantes e mães orientações sobre aleitamento materno, hidratação oral das crianças a partir de soro caseiro, nutrição e higiene. No Brasil, mais de 270 mil voluntários atendem dois milhões de crianças e 100 mil gestantes. No exterior, o programa já chegou em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, na África, nas Filipinas e Timor Leste, na Ásia, e em 11 países latino-americanos. Não há números de todos os países, mas no Paraguai, por exemplo, são 16 mil crianças assistidas, na Colômbia ao redor de 15 mil, segundo a coordenadora da Pastoral da Criança, a pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann.
Nos países nos quais a metodologia já chegou o trabalho está ligado à Igreja Católica, mas segundo Zilda, isso não é requisito para que ela seja implementada. "Mas sempre deve ter uma religião por trás porque é um trabalho voluntário inspirado na fraternidade", afirma. A coordenadora, que é também a criadora da Pastoral, conta que em Guiné-Bissau, por exemplo, onde esteve recentemente, ela visitou seis comunidades atendidas, nas quais 90% da população é muçulmana. No país, o trabalho foi implementado por uma religiosa do interior paulista que foi morar em Guiné-Bissau.
Em países árabes, a Pastoral da Criança não chegou, mas Zilda acredita que não haveria problema de ela ser levada adiante, por exemplo, por muçulmanos. "Respeitamos a cultura do local para preservar a criança", afirma a médica. Zilda afirma que há pontos em comum entre o Islã e o trabalho da Pastoral. Ela cita, por exemplo, o fato de a família ser sagrada e a valorização que há do aleitamento materno entre os muçulmanos e também na Pastoral. A caridade, segundo ela, é outro ponto em comum. A coordenadora conta que já houve sondagens, da embaixada a Palestina em Brasília, há cerca de dois anos, para levar a metodologia para o país árabe.
De acordo com Zilda, o trabalho da Pastoral é implementado em outros países quando há interesse local. Normalmente, equipes brasileiras vão ao país para dar treinamento ou recebem os estrangeiros no Brasil. A iniciativa de começar a levar o método da Pastoral para outros países foi do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O trabalho da Pastoral, na verdade, nasceu ligado à Unicef. Foi o diretor-executivo do organismo em 1982, James Grant, quem sugeriu ao Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, a criação de um projeto para combater as taxas de desnutrição e mortalidade infantil no Brasil. Dom Paulo apresentou a proposta a sua irmã, Zilda. Ela encarou o desafio e a CNBB aprovou o projeto apresentado pela sanitarista.
O começo
A Pastoral da Criança foi criada em 1982 a partir de uma experiência piloto implantada na Paróquia São João Batista, da cidade de Florestópolis, no Paraná. A cada mil crianças que nasciam na cidade, 127 morriam. Com um ano de trabalho da Pastoral, o índice baixou para 28 mortes. A experiência deu o aval para que a proposta fosse levada Brasil afora. Hoje, o trabalho é desenvolvido em 43 mil comunidades de 4,3 mil municípios brasileiros. Uma das vertentes mais famosas da Pastoral da Criança, na verdade, é a multimistura, um composto alimentar feito a partir de nutrientes que se encontram na própria comunidade. O composto, de alto valor nutritivo, foi criado pela equipe da Pastoral em 1987, e é usada para combater a desnutrição.
Zilda Arns é coordenadora da Pastoral da Criança nacional e internacional, mas vai em breve se dedicar apenas ao trabalho internacional. A Pastoral e a própria Zilda já receberam vários prêmios, nacionais e internacionais. A médica foi, inclusive indicada pelo governo brasileiro para o Prêmio Nobel da Paz de 2001 a 2004. Interessados em levar a metodologia da Pastoral da Criança para outros países, devem entrar em contato com a sede da organização, em Curitiba, no Paraná.
Contato
Pastoral da Criança
Telefone: +55 (41) 2105-0250
Email: pastcri@pastoraldacrianca.org.br

