Isaura Daniel
São Paulo – O crescimento das exportações do agronegócio brasileiro para o Oriente Médio e África, onde estão localizadas as nações árabes, atingiu em 2004 percentuais superiores à média geral das vendas agrícolas e pecuárias externas do país.
A África, continente no qual ficam os países árabes Argélia, Djibuti, Líbia, Egito, Ilhas Comores, Marrocos, Mauritânia, Sudão, Somália e Tunísia, foi a região que mais cresceu como destino das exportações agropecuárias brasileiras. Os produtores faturaram US$ 2,2 bilhões no ano passado com vendas para os africanos, com crescimento de 51% sobre o ano anterior.
As vendas para o Oriente Médio aumentaram 33% em faturamento. Saíram de US$ 2,08 bilhões em 2003 para US$ 2,7 bilhões em 2004. Nestes números, porém, estão também países que não são árabes, como Irã e Israel. O Oriente Médio respondeu por 7,1% das vendas do agronegócio do país no exterior e a África por 5,7%. No ano anterior, o Oriente Médio havia participado com 6,8% e a África com apenas 4,8%.
Na média as vendas internacionais de produtos agrícolas e pecuários brasileiras cresceram 27,3% no ano passado e alcançaram US$ 39 bilhões, um recorde histórico para o setor. O superávit da balança do segmento também foi recorde e ficou em US$ 34 bilhões. O agronegócio participou com 40,4% do total exportado pelo Brasil em 2004.
"Estamos vendo uma consolidação da posição exportadora do agronegócio nacional", diz o diretor do Departamento de Relações Internacionais da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Pedro Camargo.
Pelo menos sete países árabes aumentaram suas compras de produtos agrícolas e pecuários brasileiros em percentuais superiores a 100%. É o caso da Líbia, que gastou 385% a mais, passando de US$ 7,1 milhões para US$ 34,9 milhões. As vendas para a Síria cresceram 159%, para a Tunísia 114%, Iraque 110%, Argélia 109%, Mauritânia 106% e as da Somália 105%. Entre estes países, o maior comprador, em volume financeiro, foi a Argélia, com US$ 261 milhões. "O mercado árabe tem sido muito importante para o agronegócio brasileiro", diz Camargo.
Carne e açúcar para os árabes
Os produtos que mais colaboraram para o bom desempenho da balança do agronegócio nacional foram o complexo soja, que inclui grãos, farelo e óleo, as carnes, o açúcar e o álcool e as madeiras. Carne e açúcar foram justamente os produtos mais vendidos para os países da Liga Árabe no ano passado. O faturamento brasileiro com vendas internacionais de carnes ficou em US$ 6,1 bilhões, com aumento de 50% sobre as exportações de 2003, de US$ 4 bilhões. As vendas de açúcar e álcool renderam US$ 3,1 bilhões no ano passado contra US$ 2,2 bilhões do ano anterior.
De acordo com informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o aumento das vendas de carnes ocorreu em função dos problemas enfrentados por alguns concorrentes internacionais, como a vaca louca no Canadá e Estados Unidos, em 2003, e a gripe do frango na Tailândia, Vietnã, China, Estados Unidos e Canadá. As vendas da carne bovina aumentaram 70% em 2004 e as de frango 45,8%.
Reinado da soja
O produto que liderou a lista de exportações, porém, foi a soja. O Brasil teve uma receita de US$ 10 bilhões com vendas de grão, farelo e óleo de soja. O aumento alcançou 23,7% sobre 2003. As vendas de soja foram favorecidas principalmente pelo aumento dos preços da commodity no mercado mundial. Os Estados Unidos, outro grande produtor do grão, teve queda de safra por dois anos seguidos.
Para este ano, porém, o desempenho das exportações do agronegócio nacional ainda é incerto. "O preço das commodities agrícolas está bem abaixo do que estava há um ano", lembra o diretor analista da corretora Brasoja, Antônio Sartori. Tanto a soja quanto milho, arroz e trigo já começaram a enfrentar queda de preços. Os Estados Unidos, grandes produtores de soja, colheram bem na última safra, o que aumentou a disponibilidade do produto no mercado mundial e fez baixar os preços.
No seu último levantamento, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) previa uma colheita de soja 23% maior para a próxima safra. O Rio Grande do Sul, porém, um dos grandes produtores do grão no país, já começa a enfrentar falta de chuvas. A soja começou a ser plantada no final do ano passado e precisa de água para continuar se desenvolvendo. "Precisa chover já", afirma Sartori. A previsão de colheita da soja no estado é de seis milhões de toneladas.
Na safra 2003/04 o Brasil colheu 49,7 milhões de toneladas de soja. Para a próxima safra, a Conab esperada uma colheita de 61,4 milhões de toneladas. A queda de preços, porém, poderá puxar o faturamento para baixo.

