Alexandre Rocha
São Paulo – As exportações brasileiras para os países árabes aumentaram 60,37% nos primeiros quatro meses do ano, em comparação com o mesmo período de 2003. No total, os embarques para a região geraram receitas de US$ 1,136 bilhão, contra os US$ 708,4 milhões registrados no primeiro quadrimestre do ano passado. Em abril somente, as vendas para os árabes renderam US$ 243,8 milhões, ante US$ 137,4 milhões no mesmo mês de 2003, o que significa um crescimento de 77%. Os dados são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), órgão do Ministério do Desenvolvimento.
De acordo com informações da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB) as exportações, nos primeiros quatro meses do ano, aumentaram para todos os países da região, mas com especial destaque para o Egito (US$ 205,3 milhões, mais 103%), Marrocos (US$ 122,4 milhões, mais 110%), Argélia (US$ 88,6 milhões, mais 165%), Síria (US$ 56,6 milhões, mais 735%, Tunísia (US$ 37,3 milhões, mais 302%) e Líbia (US$ 20,4 milhões, mais 110%).
Destaque também para as exportações para o Iraque, que atingiram US$ 20,6 milhões em abril, o melhor nível mensal desde novembro de 2003.
Os principais produtos embarcados para a região como um todo foram açúcar, frango, trigo, carne bovina, minério de ferro, petróleo e café.
Fatores
As vendas para os árabes vêm crescendo este ano a patamares bastante superiores aos observados nos anos anteriores. "O pessoal (de comércio exterior) diz que o mercado por lá está bastante aquecido", disse o secretário-geral da CCAB, Michel Alaby.
Em sua avaliação, uma série de fatores vêm contribuindo para o bom desempenho dos exportadores brasileiros. Em primeiro lugar, a boa imagem que os produtos brasileiros têm na região, especialmente após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a cinco países árabes em dezembro passado, aliada aos esforços de promoção comercial desenvolvidos pela CCAB e pela Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex).
De todas as missões internacionais que o presidente Lula liderou, neste um ano e quatro meses de seu governo, a viagem para o Oriente Médio e norte da África foi a que mais rendeu frutos até o momento, em termos de crescimento das exportações.
Para José Augusto de Castro, diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), missões governamentais têm efeito mais rápido e eficaz em países de economia centralizada, como é o caso da Líbia, que foi visitada por Lula.
Segundo avaliação da equipe técnica da CCAB, houve grande diversificação na pauta de exportações do Brasil para o país do norte da África (que cresceram 110%). No primeiro quadrimestre de 2003, 26 produtos faziam parte desse rol, agora o número saltou para 54.
Alaby acrescentou que a união do G-20, grupo de países em desenvolvimento que luta contra os subsídios agrícolas das nações mais ricas, também contribui para aumentar o comércio entre o Brasil e os árabes, já que um dos objetivos do grupo é justamente fomentar a chamada cooperação "sul-sul".
Além disso, o secretário-geral da Câmara Árabe disse que, por causa da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos, começaram a surgir restrições aos produtos norte-americanos entre os consumidores da região, o que abriu espaço para as mercadorias do Brasil. Além disso, ele afirmou que a valorização do euro frente ao dólar tornou os produtos europeus mais caros, aumentando a competitividade de outros países exportadores.
"Em certas áreas o Brasil ganha mercados a passos largos, com possibilidades de continuar crescendo", disse Alaby. Em sua avaliação, o Brasil conseguirá sustentar e expandir sua presença nesses mercados.
O presidente da CCAB, Paulo Sérgio Atallah, já disse que as receitas das exportações para os árabes podem chegar a US$ 3,6 bilhões até o final do ano, se forem mantidos os atuais patamares de crescimento. A previsão inicial da entidade era de que o valor ficaria em US$ 3,3 bilhões.
"Condições de manter esses patamares o Brasil tem, pois seus produtos têm qualidade e preços competitivos", acrescentou Castro.
Vendas do agronegócio
O setor que mais contribuiu para aumento dos embarques para a região foi o agronegócio. Isso foi resultado, entre outros fatores, da abertura de mercados como os da Argélia e Egito para a carne bovina brasileira, no ano passado, e a decisão dos produtores brasileiros de trigo de começar a exportar o cereal, que teve grande aceitação nos países do norte da África.
De acordo com dados divulgados esta semana pelo Ministério da Agricultura, as exportações brasileiras do agronegócio para a África aumentaram 74,16% em abril, em comparação com o mesmo mês de 2003. Essas vendas foram puxadas pelo Egito, Marrocos e Argélia, países árabes que aumentaram suas compras do setor, respectivamente, em 132%, 179% e 200%. Para o Oriente Médio as exportações do segmento agropecuário aumentaram 22% em abril.
No acumulado do ano, a África aumentou em 76,8% suas importações do agronegócio brasileiro. Resultado, principalmente, das compra feitas pelo Marrocos e pelo Egito. Para o Oriente Médio, as exportações do setor aumentaram 27,5% no primeiro quadrimestre, em comparação com o mesmo período de 2003.
Além da abertura de novos mercados e a inclusão de novos produtos na pauta de exportações, Castro disse que o setor agropecuário foi beneficiado também por uma série de fatores internacionais, como a ocorrência de um caso do mal da vaca louca nos Estados Unidos, a seca na Austrália, a ocorrência da febre aftosa na Argentina, a epidemia de gripe aviária nas criações frango do sudeste asiático, além da valorização das commodities agrícolas no mercado internacional e a quebra da safra de soja norte-americana ocorrida no ano passado.
Isso, de acordo com Castro, "deixou o Brasil praticamente sozinho" como grande exportador de produtos como carne bovina e frango.
No total o setor agropecuário do Brasil já exportou o equivalente a US$ 10,685 bilhões no primeiro quadrimestre do ano, com um crescimento de 30% sobre o valor registrado no mesmo período do ano passado. Até agora, o agronegócio foi responsável por 41% do total das vendas externas brasileiras em 2004.
Para Castro, a base de tudo isso é o desenvolvimento tecnológico que o setor vem acumulando nos últimos anos. "O conhecimento tecnológico está muito avançado nessa área, o que resulta em maior produtividade e na diminuição de custos. Além disso, as empresas do segmento passaram a ter uma cultura exportadora", afirmou. "Eu costumo brincar que hoje há mais cultura exportadora na agropecuária do que na indústria", acrescentou.
Na opinião de Castro e Alaby, o sucesso do Brasil na produção rural poderá auxiliar o país na conquista de novos mercados para outros produtos de maior valor agregado. "O desenvolvimento da agroindústria, com a competitividade e a qualidade dos produtos, pode alavancar a venda de mercadorias manufaturadas", disse o secretário-geral da CCAB. Trata-se de um bom instrumento de marketing, em sua avaliação.
Importações
Mas não foram só as exportações para os árabes que aumentaram, as importações de produtos da região também cresceram, 13,31% nos primeiros quatro meses de 2004. Nesse mesmo período, no ano passado, as compras brasileiras somaram US$ 925,9 milhões e agora chegaram a US$ 1,049 bilhão.
As principais mercadorias importadas pelo Brasil dos países árabes continuam a ser o petróleo e seus derivados. No entanto, na avaliação dos técnicos da CCAB, é possível observar uma "leve diversificação" da pauta com o aumento das compras de produtos alimentícios e têxteis.
A Câmara Árabe quer incentivar o aumento da corrente comercial como um todo, tanto exportações, como importações. "Temos a preocupação também de diversificar a pauta deles", disse Alaby. De acordo com ele, o Brasil pode representar um bom mercado para produtos do setor alimentício árabe, como azeite de oliva, vinhos, tâmaras e vegetais liofilizados e congelados. Há espaço para outros segmentos também, como o de medicamentos genéricos produzidos no Egito.
"Acho que o mercado brasileiro é viável para estes produtos, desde que haja qualidade e preço competitivo", acrescentou Castro.
Neste sentido, a CCAB vai promover a participação de empresas árabes na Feira Internacional de Produtos, Serviços, Equipamentos e Tecnologia para Supermercados, que será organizada pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), em setembro, no Rio de Janeiro.
"No Brasil tem-se a idéia de que os países árabes só exportam petróleo, petróleo e petróleo. Um evento como este é bom para divulgar o que mais há por lá. A divulgação é indispensável", concluiu Castro.

