Isaura Daniel
São Paulo – Há um pouco mais de um ano, os colares, brincos e pulseiras produzidos pela Camila Klein, marca paulista de bijuterias, deixaram de ser exclusividade das consumidoras brasileiras. As peças agora estão enfeitando também mulheres francesas, inglesas, mexicanas, espanholas e norte-americanas. A Camila Klein é uma empresa de pequeno porte, com apenas 40 funcionários, mas faz parte do grupo das indústrias que estão levando a bijuteria brasileira para o exterior.
Assim como a Camila Klein, outras dezenas de fábricas do país, quase todas de micro e pequeno porte, começaram a exportar bijuterias do ano passado para cá. O movimento já se reflete nos números da balança comercial do setor. Entre janeiro e maio de 2005, os fabricantes de bijuterias faturaram US$ 2,7 milhões com exportações, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM). O número ainda é pequeno, mas significa um aumento de 69% sobre o mesmo período do ano passado e representa 57% do total vendido em todo o ano de 2004: US$ 4,7 milhões.
"O mundo começou a olhar para o Brasil de outra maneira e o fortalecimento da imagem do Brasil ajudou a abrir caminho para as exportações de bijuterias", diz Vera Masi, diretora da Masi Associados, empresa que promove a Bijóias, feira de acessórios de moda, que teve uma edição finalizada na última quinta-feira (23) em São Paulo. De acordo com Vera, além de um design característico, com a cara do Brasil, as bijuterias fabricadas no país têm um preço competitivo. O fato de serem assinadas por designers, assim como as francesas, que são referência no mundo, é um dos diferenciais em relação às peças chinesas.
Se depender dos esforços do setor, os passos rumo aos clientes estrangeiros serão ainda mais largos deste ano em diante. As bijuterias nacionais terão suas exportações incentivadas por meio de um convênio entre a Agência de Promoção de Exportações Brasileiras (Apex) e o IBGM. Em fevereiro deste ano, elas foram incluídas em um convênio entre o instituto e a agência, que já contemplava as jóias e as gemas. Pelo acordo serão gastos R$ 15 milhões em 2005 para promover as peças brasileiras junto aos estrangeiros, com ações como a participação em feiras internacionais, promoção de rodadas de negócios e confecção de material promocional.
Já foi contratada uma consultoria para fazer uma análise do setor e verificar que aspectos precisam ser melhorados para a entrada no mercado externo. A primeira participação em mostras fora do país já está até agendada. Em torno de 20 empresas vão apresentar seus produtos no próximo mês de setembro na Bisutex, em Madri, na Espanha, e na Eclat de Mode, em Paris, na França.
By Nino
O designer Nino Bran, que possui uma marca paulistana de bijuterias que leva o seu nome, vai participar da feira na França. Será uma das primeiras grandes incursões da empresa no mercado internacional, já que até agora as exportações da marca eram apenas esporádicas. Nino, porém, já enviou suas bijuterias para Austrália, Estados Unidos, Itália, Portugal e Espanha.
A empresa também é de pequeno porte, já que tem 40 funcionários, mas produz 12 mil peças por mês. Um grupo de cerca de 400 pessoas trabalha de forma terceirizada para a fábrica. As bijuterias de Nino são feitas com cristais Swarovski, considerados os mais nobres do mundo. As peças do designer chegam ao atacado com preços entre R$ 21,9 e R$ 390. Nino afirma que vai investir no mercado externo neste ano. "Mas não vou à feira em Paris com a pretensão de vender, quero é mostrar o meu trabalho lá fora", afirma.
Nino é um autodidata, como boa parte dos profissionais que trabalham com o setor. Começou revendendo jóias de ouro, depois foi para a prata, até começar a produzir bijuterias por conta própria e montar sua marca. Hoje, o profissional faz entre oito a dez viagens internacionais por ano para se atualizar e pesquisar tendências. A coleção da marca é renovada a cada quinze dias.
Camila Klein
A designer Camila Klein, cuja marca de bijuterias leva o seu nome, também se especializou na área por conta própria. Com apenas 27 anos e graduada em Decoração, Arquitetura e Artes Plásticas, ela é hoje, assim como Nino e Andréa Mader, uma outra designer brasileira que exporta para América Latina, uma das grifes mais conhecidas no mercado profissional do setor. Camila começou a sua empresa há seis anos fabricando bijuterias para confecções. Há três anos, porém, iniciou a produção própria.
No ano passado, a marca já teve 30% do seu faturamento atrelado às exportações, de acordo com o sócio da empresa e marido de Camila, Luis Fernando La Selva. Neste ano, o comércio internacional deve responder por 35% da receita. A empresa criou, no ano passado, um departamento de exportações, para o qual contratou dois profissionais com conhecimento em inglês e espanhol.
La Selva conta que a entrada no mercado internacional ajudou a qualificar a empresa e seus produtos para as vendas domésticas. "Nos Estados Unidos e Europa, por exemplo, não é permitido usar níquel nas peças. Então também não usamos o níquel nos produtos vendidos no Brasil, apesar de não ser proibido", explica. A marca produz 50 mil peças ao ano.
Mudanças
"A exigência dos compradores internacionais é alta e isso está obrigando as empresas nacionais a se profissionalizarem", diz Vera Masi, confirmando que a tendência se verifica na maioria das indústrias que estão começando a exportar. "As empresas estão criando sites, contratando profissionais que falem outros idiomas", afirma. De acordo com Vera, das cerca de 4 a 5 mil fabricantes formais de bijuterias que existem no país, o número de exportadoras ainda não chega a 200.
Não há números precisos do faturamento global das empresas, já que ainda existe muita informalidade no setor. Apenas em cada uma das edições da Bijóias, de acordo com Vera, são fechados em torno de R$ 20 milhões em vendas. A Masi promove em São Paulo quatro Bijóias de grande porte e no Rio de Janeiro duas. Na última semana também ocorreu uma edição compacta da feira, em São Paulo.

