Isaura Daniel
São Paulo – Eles cresceram ouvindo os pais e avós falarem em árabe. Na mesa das suas casas, esfihas, charutinhos de folhas de uva e tabule eram pratos que não faltavam. E nas festas de família a dança era a dabka, típica da cultura árabe. São filhos e netos de árabes que nasceram, cresceram no Brasil e galgaram até o topo do ranking da alta costura nacional.
Entre eles estão nomes como o do estilista Fause Haten, do empresário Alberto Hiar, dono da grife Cavalera, e do consultor de moda Fernando Aidar. Os três têm descendência libanesa. Também Amir Slama, que assina a marca Rosa Chá, é filho de um iraquiano.
Fause Haten, aliás, assim como grande parte dos árabes que trabalham com confecção em São Paulo, começou sua história na rua 25 de Março. O pai tinha uma fábrica de jeans e roupas esportivas na região e cedeu três máquinas para Fause começar seu negócio. O estilista tinha apenas 17 anos na época e não se limitou ao comércio local. Conseguiu espaço em butiques da cidade e logo abriu sua loja de vestidos finos em Moema. Assim que começou a mostrar suas coleções em desfiles de moda, no início da década de 1990, Fause virou nome nacional. Ele também foi o primeiro estilista brasileiro convidado a participar da Semana de Moda de Nova York.
Fause é filho de libaneses. O pai, Edmond Naim, chegou no Brasil com 18 anos e trabalhou como mascate até montar a sua confecção. A mãe do estilista, Latif Haten Naim, nasceu no Brasil, mas também é descendente de libaneses. Fause afirma que elementos da cultura e a culinária árabe, como pão árabe, café sírio e a própria rua 25 de Março, são até hoje parte do seu cotidiano. "Gosto muito de tabule", diz o estilista. Fause conta que sempre foi fã de comidas como tabule, kibes e esfihas, fatuche e coalhada seca. Os kibes e esfihas, porém, ele eliminou do seu cardápio há dez anos, quando deixou de comer carne vermelha.
Fause não fala árabe, apenas entende algumas palavras. "Meus pais falavam árabe com os filhos em casa, mas tiveram que parar porque meu irmão estava tendo dificuldade de aprender o português", conta. Fause ainda não conhece o Líbano, mas exporta suas coleções para lojas da rede More & More na nação árabe. Fause também tem clientes nos Estados Unidos, América Central, Europa e agora está começando a exportar para o Japão.
Aidar
Fernando Aidar, estilista de origem sírio-libanesa, iniciou sua carreira de maneira bem parecida a como os árabes costumavam começar os seus negócios no Brasil, vendendo de porta em porta. Aidar era ainda adolescente, tinha entre 13 e 14 anos, quando resolveu fazer roupas para vendê-las na escola. "Eu criava os modelos, mandava costurar e vendia na escola, depois na faculdade", conta. Dessa maneira Aidar iniciou uma carreira que depois acabou lhe rendendo cargos importantes no mundo têxtil. Foi gerente de produto das lojas Riachuelo por três anos e gerente de compras da rede Marisa por um ano. As duas estão entre as redes de varejo de roupas mais populares do Brasil.
Hoje Aidar tem a sua própria grife, a Funny Girls, e dá consultoria a indústrias de moda. "Trabalho muito com confecções de árabes do Brás", afirma. O estilista viaja para o exterior oito vezes por ano atrás das últimas tendências de moda e desenvolve coleções e produtos para fábricas de tecidos, confecção e acessórios. Aidar também dá palestras sobre moda no Brasil e outros países da América Latina.
Os pais de Aidar, Maria Helena e José Aidar Filho, nasceram no Brasil. Foram os bisavós do estilista que vieram do mundo árabe para a América. O bisavô paterno trabalhava com exportação de linho no Brasil e o materno adquiriu fazendas. O pai de Aidar faleceu há cerca de sete anos, mas a mãe, que mora próximo ao estilista, continua paparicando o filho com a culinária árabe. "Gosto do kibe assado e charuto de folha de uva", afirma.
Rosa Chá
Amir Slama, estilista e dono da Rosa Chá, a mais famosa grife de moda praia do Brasil, também tem parte da sua história ligada ao mundo árabe. O pai, iraquiano, mas de origem judaica, veio para o Brasil ainda com um pouco mais de 20 anos para trabalhar com o ramo têxtil. "Ele trabalhou como representante comercial na rua 25 de Março, no Bom Retiro e depois montou uma confecção", explica. Antes de vir para o Brasil, porém, o pai morou alguns anos em Israel, onde conheceu a esposa. Amir lembra que os pais falavam em hebraico entre eles, mas que a família paterna falava em árabe. "Lembro do meu pai falando em árabe com o círculo de amigos dele", diz.
Alberto Hiar, outro descendente de libaneses, comanda a marca Cavalera. Hiar foi feirante e começou a sua carreira no mundo têxtil bem cedo, ainda adolescente. Ele transformou a Cavalera em uma das mais populares grifes de moda jovem do Brasil. Hoje, além de empresário, Hiar é deputado estadual em São Paulo.
Em Dubai
A partir da próxima semana, entre os dias 12 e 15 de setembro, estilistas e empresas brasileiras participam, juntamente com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), da Motexha, feira de moda em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

