São Paulo – O fluxo mundial de investimentos estrangeiros diretos (IED) deu um salto de 36% em 2015, em comparação com 2014, e chegou a US$ 1,7 trilhão, de acordo com o boletim Monitor de Tendências Globais de Investimentos, publicado nesta quarta-feira (20) pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Segundo a organização, é o maior valor desde a crise financeira internacional de 2008 e 2009. O maior fluxo registrado até hoje foi o de 2007, quando o mundo movimentou cerca de US$ 2 trilhões em IED.
A Unctad alerta, porém, que o crescimento em 2015 foi provocado principalmente por operações internacionais de fusões e aquisições, sendo que os investimentos em novos projetos deram apenas uma “contribuição limitada”. Isso quer dizer que o volume de recursos movimentados, embora alto, teve na prática pouco impacto produtivo.
A organização acrescenta que parte do fluxo representou operações de reestruturações de empresas multinacionais, que “envolvem altos valores na conta financeira do balanço de pagamentos, mas um movimento pequeno de recursos de fato”.
A entrada de investimentos em países desenvolvidos, que aumentou 90% de 2014 para 2015, foi destaque. Com isso, as nações mais ricas passaram novamente a atrair a maior parte dos recursos, 55% do total. A Unctad ressalta o desempenho do fluxo para a União Europeia e Estados Unidos.
Os EUA voltaram a ser o país que mais recebe IED, após ter caído para a terceira posição em 2014, quando o volume de recursos que recebeu bateu recorde negativo. Hong Kong e a China ficaram, respectivamente, na segunda e na terceira posições em 2015.
Os investimentos em países em desenvolvimento também avançaram no ano passado, porém, em ritmo menor, 5%. Este crescimento foi garantido por nações em desenvolvimento da Ásia, pois outras regiões viram diminuir a entrada de recursos, casos da América Latina e da África.
O recuo de 11% observado na América Latina foi influenciado em parte pelo desempenho do Brasil, maior destino de investimentos da região, que viu o fluxo cair 23% para US$ 56 bilhões. O País ficou na oitava posição no ranking global. O arrefecimento do consumo doméstico e a queda dos preços das commodities reduziram o interesse dos investidores na região.
No caso específico do Brasil, de acordo com a Unctad, o fluxo foi afetado pela venda da empresa de telecomunicações GVT da francesa Vivendi para a Vivo, subsidiária brasileira da espanhola Telefônica, o que representou um “desinvestimento” de uma companhia estrangeira no País.
Árabes
Na Ásia Ocidental, que inclui os países árabes do Oriente Médio, o fluxo de IED cresceu 5% e chegou a US$ 45 bilhões em 2015, depois de seis anos consecutivos de quedas. O aumento, porém, foi influenciado majoritariamente pela Turquia, que não é um país árabe.
No Norte da África o fluxo também cresceu, embora no continente como um todo tenha caído. O Egito foi o responsável pelo resultado positivo ao receber US$ 6,7 bilhões em IED no ano passado, contra US$ 4,3 bilhões em 2014.
Para 2016, a Unctad avalia que deverá haver nova queda no volume mundial de IED, “refletindo a fragilidade da economia mundial, a volatilidade dos mercados financeiros, a baixa demanda internacional e uma desaceleração significativa em algumas das grandes economias emergentes”. A situação pode se agravada ainda mais por “riscos geopolíticos” e por “tensões regionais”.
“A estagnação dos investimentos em novos projetos em escala global e o franco declínio numa série de regiões em desenvolvimento sugerem que o atual salto no fluxo de IED é potencialmente frágil e está exposto aos caprichos do mercado de fusões e aquisições”, diz o documento da Unctad.
Por outro lado, a instituição afirma que a melhora da economia internacional – o crescimento global previsto para 2016 é de 2,9%, contra 2,4% em 2015 –, em função do retomada em países desenvolvidos, pode fazer com que as empresas realizem investimentos produtivos para garantir seus planos de negócios em prazo mais longo. A continuidade da desvalorização das moedas de nações emergentes, como o Brasil, e a necessidade de vendas de ativos por empresas endividadas também podem estimular o fluxo para cima este ano.


