São Paulo – O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo a projeção de crescimento da economia mundial em 2015 e 2016. De acordo com atualização do relatório Perspectivas Econômicas Mundiais (WEO, na sigla em inglês), divulgada nesta terça-feira (20), o Produto Interno Bruto (PIB) global deverá avançar 3,5% este ano e 3,7% no próximo. A instituição reduziu as duas estimativas em 0,3% em relação à última edição do estudo, de outubro de 2014.
O documento avalia que a economia mundial vai receber um impulso positivo da queda do preço do petróleo, mas outros fatores deverão afetar negativamente a atividade econômica. Entre eles, o Fundo cita o baixo nível de investimentos esperado. “Os Estados Unidos são a única entre as maiores economias que teve as projeções de crescimento ampliadas”, diz o texto.
Outros riscos apontados são a incerteza sobre o mercado petrolífero, apesar das cotações estarem em baixa, a volatilidade do mercado financeiro internacional, especialmente nas nações emergentes, além da estagnação e a inflação abaixo do nível desejado na Zona do Euro e no Japão.
Segundo o FMI, as cotações do petróleo em dólar caíram 55% desde setembro de 2014. Isso ocorreu, na avaliação do Fundo, em razão da demanda pela commodity menor do que a esperada, mas principalmente pela decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de manter o nível de produção, apesar do aumento da extração em nações que não fazem parte da instituição, notadamente os Estados Unidos.
Em tese, o petróleo mais barato alivia os gastos dos países importadores da commodity, liberando recursos para serem aplicados em outras áreas. Esse efeito benéfico, no entanto, deverá ser sentido mais nas nações desenvolvidas, onde o repasse da baixa aos consumidores deverá ser maior. Nos países em desenvolvimento, o ganho deverá ser mais dos governos, que poderão reduzir subsídios aos combustíveis e usar o dinheiro para melhoras as finanças públicas.
O FMI aposta, porém, na recuperação dos preços do petróleo nos próximos anos, pois as cotações baixas deverão inibir os investimentos no setor e, consequentemente, sua capacidade de crescimento. Ou seja, a demanda passará a crescer mais do que a oferta.
Para justificar as estimativas mais pessimistas, o Fundo diz que, apesar de a economia mundial ter crescido conforme o esperado no terceiro trimestre do ano passado, em 3,75%, acima dos 3,25% do trimestre anterior, isso “mascarou” desempenhos bastante díspares entre as principais economias, sendo que a recuperação dos Estados Unidos foi maior do que a prevista e, portanto, influenciou o resultado.
Para ilustrar este quadro de crescimento desigual, o relatório lembra que o dólar norte-americano teve valorização real de 6% desde outubro, ao passo que o euro e o iene japonês desvalorizaram, respectivamente, 2% e 8%. O mesmo ocorreu em várias economias emergentes. No caso brasileiro, por exemplo, o dólar hoje está quase 6,6% mais caro do estava no dia 1º de outubro do ano passado.
De forma geral, e de acordo com o conselheiro econômico e diretor de Pesquisa do FMI, Olivier Blanchard, este quadro de diferenças nos desempenhos das economias, ou “correntes cruzadas”, como diz o título da publicação lançada nesta terça-feira, representa “boas notícias” para os importadores de petróleo e outras commodities e “más notícias” para os exportadores destes produtos. Representa também a continuidade das dificuldades para os países que ainda sofrem os efeitos das crises que eclodiram a partir de 2008, além de um cenário mais positivo para as nações “mais ligadas ao iene e ao euro” e mais negativo “para aquelas mais ligadas ao dólar”.
Mais um fator que deprime o crescimento, segundo a instituição, é o aumento das taxas de juros e dos spreads bancários, o que ocorreu em muitos países emergentes, inclusive no Brasil.
O FMI prevê que os países emergentes e em desenvolvimento deverão crescer 4,3% em 2015 e 4,7% em 2016. A estimativa para este ano foi reduzida em 0,6%, e a para o próximo, em 0,5%. O Fundo projeta crescimento menor para a China, a Rússia, o Brasil e outras economias emergentes. Nas nações desenvolvidas, as expectativas de crescimento são de 2,4% em ambos os anos. Ouve melhora de 0,1% no caso de 2015 e estabilidade em relação a 2016.
Brasil
No caso brasileiro, por exemplo, a projeção para o crescimento do PIB é de apenas 0,3% este ano e 1,5% no próximo. A previsão para 2015 foi reduzida em 1,1%, e para 2016, em 0,7%. Na seara do comércio exterior, o Brasil é um grande exportador de commodities – e não só o petróleo, mas vários produtos que se enquadram nesta categoria, como o minério de ferro e o açúcar, foram afetados pela fraca demanda mundial.
Entre os exportadores de petróleo, aqueles que têm grandes volumes de reservas e baixo custo de produção terão condições de evitar cortes radicais de investimentos em função da redução do preço, como é o caso dos países árabes do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), mas outras nações produtoras que têm menos espaço fiscal, principalmente na África, deverão ter problemas orçamentários e, consequentemente, crescimento mais tímido.


