Da Agência Brasil
Mumbai (Índia) – "Para os brasileiros que vieram a Mumbai, está sendo um choque cultural muito grande", afirmou hoje o representante brasileiro no comitê organizador do Fórum Social Mundial (FSM) Francisco Whithaker. Na véspera da abertura do maior evento internacional da sociedade civil
organizada, a pobreza nas ruas da cidade que sedia a 4º FSM é assunto dominante nas conversas de brasileiros que chegam para o encontro.
"Nunca vi tanta gente dormindo nas ruas", disse Luiz Carlos Seixas, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, sobre as centenas de pessoas que viu deitadas ao relento no trajeto do aeroporto até o hotel.
Confrontar os ocidentais com a dura realidade asiática foi um dos objetivos do deslocamento do FSM, este ano, da tranqüila capital gaúcha para a caótica ex-Bombaim, com seus quase 20 milhões de habitantes e ruas apinhadas de
pessoas, carros e motocicletas.
Para os organizadores, a grande diferença entre o 4º FSM e os três encontros anteriores em Porto Alegre é o evento
estar sendo realizado em 2004 em uma cidade que é o retrato de toda a miséria produzida pelo capitalismo. Segundo os organismos internacionais, apesar de a Índia ter um dos mais altos Produtos Internos Brutos do mundo
(13º maior, em 2000), 600 milhões de seus mais de 1 bilhão de habitantes vivem na miséria.
"Eu acho que isso (o choque dos brasileiros com a pobreza) faz parte do aprendizado de que somos uma só humanidade e de que somos co-responsáveis pela humanidade toda", disse Whithaker. "Por que isso acontece na Índia? Quem já analisou, sabe que é todo um sistema econômico e político que determina isso", disse o brasileiro.
Na avaliação dele, a miséria, tanto na Índia como no Brasil, só acabará a partir de uma união da sociedade internacional. "Há toda uma descoberta de uma solidariedade planetária, que é um pouco o que está acontecendo no processo desse fórum", explicou.
Preparativos
As conferências, exposições e debates do 4º FSM estão sendo realizados em pavilhões simples e empoeirados, em uma antiga fábrica que virou centro de exposições, na periferia de Mumbai. Hoje, dezenas de voluntários e operários ainda pregavam painéis, pintavam e varriam os pavilhões para que o local possa abrigar, com algum conforto, as cerca de 100 mil pessoas aguardadas
pelo comitê organizador do FSM.
Apesar do atraso na preparação, o clima era de entusiasmo entre os membros do comitê e os brasileiros que chegavam para dar uma olhada no local. Havia temores de que o evento não chegasse a acontecer, porque os cerca de 100
grupos indianos responsáveis pela realização do FSM não receberam ajuda nem recursos financeiros da administração municipal de Mumbai, considerada políticamente de direita.
"O fórum está mais bem organizado do que em Porto Alegre", comemorou Whithaker, lembrando que, no ano passado, o evento começou sem que houvesse nem sequer um programa para ser distribuído aos participantes. "É a
consolidação da possibilidade de podermos fazer fóruns como esse no mundo todo".

