São Paulo – Se os investimentos estrangeiros diretos (IED) nos países do Oriente Médio estão em queda este ano em razão da crise, por outro lado os fundos soberanos da região devem crescer em importância como investidores internacionais. A informação consta do World Investment Report, publicação anual divulgada ontem (17) pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
“A queda no mercado mundial de participações oferece novas oportunidades de investimentos para os fundos soberanos e outras entidades estatais. De fato, alguns fundos, como o controlado pelo governo de Abu Dhabi, já começaram a fazer aquisições internacionais para apoiar seus projetos de desenvolvimento econômico nacional. Isso pode contribuir para um aumento do fluxo de IED com origem na região”, diz a Unctad.
Confirmada essa previsão, haverá uma inversão do quadro registrado em 2008, quando os investimentos originados em países do Oriente Médio caíram 30%, em comparação com o ano anterior, e somaram US$ 34 bilhões. De acordo com o relatório, o desempenho foi resultado de uma redução significativa das aquisições internacionais feitas por empresas da região. A crise deixou os investidores locais mais “avessos ao risco”.
Na mão contrária, houve crescimento de 16% nos investimentos recebidos em 2008 ante 2007. O valor chegou a US$ 90 bilhões. Segundo a Unctad, o fluxo teve forte influência dos recursos atraídos pela Arábia Saudita, que recebeu US$ 38 bilhões, um aumento de 57% em relação ao ano anterior. Isso, de acordo com o relatório, consolidou o país como maior destino de investimentos da região, posição que vinha disputando com a Turquia nos anos anteriores.
Outras nações do Oriente Médio que tiveram aumentos consideráveis na atração de recursos foram o Catar, com 43% de aumento e com a maior parte dos investimentos destinada aos ramos de gás natural liquefeito, energia e água; Líbano (32%), com aportes especialmente na área imobiliária; e Síria (70%), resultado da abertura econômica e da melhora da situação do país na seara das relações internacionais.
Ainda em 2008, ocorreu crescimento pequeno do fluxo de investimentos para o Bahrein, Iraque e os territórios palestinos. No caso da Jordânia a entrada de recursos se manteve estável em relação a 2007, e houve queda nos aportes realizados na Turquia, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iêmen e Omã.
Este ano, por causa da crise, de acordo com a Unctad, houve cancelamento ou adiamento de projetos nas áreas de petróleo, gás, indústria e infraestrutura por conta da escassez de crédito ocasionada pela crise. A queda prevista dos investimentos estrangeiros na região em 2009 põe fim a uma série de seis anos consecutivos de crescimento. O relatório ressalta, porém, que há no Oriente Médio uma tendência de adoção de políticas para facilitação dos investimentos externos.
Mudança de cenário
Com a crise, que atingiu mais rapidamente as economias centrais, houve em 2008 uma mudança no quadro mundial de investimentos. Os países em desenvolvimento contribuíram com 43% dos investimentos no ano passado, contra apenas 27% em 2007.
O Brasil, por sua vez, foi, em 2008, o maior recebedor e emissor de investimentos diretos da América Latina e Caribe, segundo o levantamento. O país atraiu cerca de US$ 45 bilhões e foi origem de US$ 20,5 bilhões. Em comparação com 2007, houve aumento de mais de 30% na entrada de recursos e de quase três vezes no total aplicado no exterior.
Com o subtítulo de “Corporações Transnacionais, Produção Agrícola e Desenvolvimento”, o relatório dá ênfase especial aos investimentos estrangeiros destinados ao ramo agropecuário. A Unctad constatou que a presença desse tipo de recurso na atividade está crescendo e pode desempenhar um papel importante no desenvolvimento agrícola dos países em desenvolvimento.
O levantamento ressalta também que “existem indícios” de que está aumentando o volume de investimentos entre países em desenvolvimento nessa área. Países com alto nível de recursos financeiros, mas baixa disponibilidade de terras férteis, têm investido em projetos agrícolas em outras nações para garantir seu suprimento de alimentos. É o caso, por exemplo, da Arábia Saudita, Emirados, Líbia, Catar, Kuwait e Bahrein, que vêm aplicando dinheiro principalmente em países africanos.
Recuperação
No geral, o relatório informa que o fluxo mundial de IED deverá recuar de US$ 1,7 trilhão em 2008 para US$ 1,2 trilhão este ano, com recuperação para US$ 1,4 trilhão em 2010 e aumento real apenas em 2011, quando deve chegar a US$ 1,8 trilhão. O maior resultado anual ocorreu em 2007, quando o fluxo foi de quase US$ 2 trilhões.
Pesquisa feita pela Unctad junto a empresas multinacionais mostra que essas companhias acreditam que a recuperação do fluxo de IED será puxada especialmente por Estados Unidos, China, Índia, Brasil e Rússia.

