Isaura Daniel, enviada especial*
Doha – Os países em desenvolvimento devem formar uma posição comum sobre a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) para apresentar na próxima assembléia geral da entidade, que vai acontecer no mês de setembro, em Nova York (EUA). O tema foi discutido ontem (12) durante uma reunião de diplomatas, que ocorreu no hotel Sheraton, em Doha, no Catar, durante o primeiro dia do encontro de representantes do G-77 e da China. Eles estão participando da Segunda Cúpula do Sul.
No centro da discussão, que terá continuidade hoje (13) durante o encontro de chanceleres das 132 nações que formam o G-77, estão as mudanças no Conselho de Segurança da ONU. O secretário executivo do grupo, o argelino Mourad Ahmala, afirmou ontem à imprensa que "é importante que os países aproveitem a reunião para tomar uma posição".
Ele disse que a discussão da reforma das Nações Unidas em uma assembléia geral será histórica. A posição deve constar na declaração política e no plano de ação que serão formulados na cúpula.
Além dos encontros de diplomatas e ministros, nos dois últimos dias de reunião – 15 e 16 – ocorrerá um encontro de chefes de estado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participará. Ele será representado pelo ministro Celso Amorim, de Relações Exteriores. O Brasil é um dos maiores defensores da reforma do Conselho de Segurança da ONU. O país defende que, em vez dos atuais 15 membros, cinco permanentes e 10 não permanentes, a organização passe a ter 24 integrantes, dos quais 10 permanentes e 14 não permanentes.
O Brasil, ao lado da Alemanha, Japão e Índia, grupo que forma o G-4, está pleiteando assento permanente no Conselho. Atualmente, os membros fixos são Franca, Inglaterra, Estados Unidos, Rússia e China. No texto discutido ontem pelos diplomatas já existe uma referência à necessidade de mudança na ONU para que ela seja mais transparente e tenha maior legitimidade. Apesar de não ser este o único tema discutido na reunião de portas fechadas das delegações diplomáticas, o assunto era um dos mais discutido nos corredores ontem, inclusive pela imprensa local.
O Catar, país que sedia o encontro, está pleiteando, inclusive, uma cadeira não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas a partir de 2009. Os assentos não permanentes são rotativos.
De Lula
De acordo com informações do Itamaraty, já está confirmado que no plano de ação da cúpula estará a sugestão do presidente Lula sobre a criação de mecanismos financeiros "inovadores" para combater a fome nas nações em desenvolvimento. O tema foi lançado por Lula em setembro do ano passado, durante a assembléia geral da ONU, e recebeu apoio dos líderes de diversos países, entre eles o chileno Ricardo Lagos e o francês Jacques Chirac.
Uma das bases do plano de ação que está sendo formulado é a declaração feita pelos integrantes do G-77 em Havana (Cuba), no ano 2000, quando os chefes de estado do grupo se reuniram pela primeira vez. O texto já mencionava a necessidade do aumento da cooperação entre os chamados países do sul, que são as nações em desenvolvimento.
O G-77 foi criado em 1964 e apesar de ser formado hoje por um maior número de países -132 -, o nome original foi mantido.
Entre os integrantes do grupo estão países árabes como Argélia, Ilhas Comores, Djibuti, Bahrein, Egito, Iraque, Jordânia, Mauritânia, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Síria, Tunísia, Sudão, Iêmen, Arábia Saudita, Catar, Líbia, Palestina, Omã e Somália. Pela América Latina há nações como Argentina, Brasil, Chile e Bolívia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Venezuela e Peru.
O encontro
A organização do G-77 espera presença de cerca de cinco mil pessoas em Doha até quinta-feira (16). Neste número estão desde os integrantes das delegações oficiais até jornalistas e seguranças. Os hotéis da cidade estão tomados pelos estrangeiros, que começaram a desembarcar na cidade no sábado (11).
O Catar tem uma população pequena, com cerca de 800 mil habitantes. Uma das principais atividades econômicas locais é a exploração do petróleo e gás. O país tem uma das maiores rendas per capita do mundo. São US$ 32 mil.
*A jornalista viajou a convite da Qatar News Agency

