São Paulo – Mesmo com a cotação do dólar acima de R$ 2, após uma série de altas sucessivas, o governo ainda não deve abrir mão das medidas anunciadas nos últimos meses para conter a valorização do real e, em tese, dar mais competitividade à indústria nacional, como a incidência de 6% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nos empréstimos estrangeiros com prazo inferior a cinco anos, a cobrança de 6,38% do mesmo tributo nas compras com cartão de crédito no exterior e o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos carros importados.
A avaliação de economistas ouvidos pela ANBA é que ainda é cedo para saber se a escalada da moeda norte-americana é passageira ou se veio para ficar. "Seria precipitado remover [as medidas]. Não creio que o governo fará isso, pois o cenário é de alta volatilidade", disse a professora de Macroeconomia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Cristina Helena de Mello. "A economia e a política econômica não são estáticas, o carro pode ser consertado conforme ele anda. Nesse sentido, a posição do governo deve ser de espera", acrescentou o professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, Samy Dana.
Na semana passada, o comportamento do câmbio foi fortemente influenciado pelo recrudescimento da crise europeia. Em momentos como este, os investidores tendem a buscar aplicações mais seguras e o dólar é a mais procurada. Além disso, o governo norte-americano pôs o pé no freio na política de desvalorização de sua própria moeda, segundo Mello.
O professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Manuel Enriquez Garcia, acredita que, passada a fase mais aguda da crise, o Brasil deverá voltar a atrair um grande fluxo de investimentos estrangeiros aos mercados de capitais e financeiro, pressionando o câmbio para baixo. Na mesma linha, Mello diz que a tendência, no futuro, é de estabilidade.
Garcia ressalta, no entanto, que a situação europeia pode piorar, inclusive com uma eventual saída da Grécia da Zona do Euro, o que, se ocorrer, deve jogar o valor da moeda norte-americana mais para cima antes de uma possível queda.
A valorização do dólar é considerada positiva pelos exportadores brasileiros pois pode tornar os produtos nacionais mais baratos lá fora; e pela indústria em geral, porque, em tese, faz com que os itens importados fiquem mais caros no mercado interno.
Inflação
Com isso, porém, a mudança do câmbio tende também a pressionar a inflação, pois encarece os insumos estrangeiros e reduz a competitividade da concorrência externa aqui. Além disso, cria problemas para empresas endividadas em moeda estrangeira. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), por exemplo, defende o fim das medidas cambiais.
"Se [o aumento do dólar] gerar inflação, aí sim o governo tem que agir", afirmou Dana. Como o Brasil sofreu muito com a hiperinflação no passado recente, a pressão sobre os preços é uma das principais preocupações dos economistas, embora exista uma corrente que defende que um pouco de inflação não faz mal contanto que o País cresça. Opinião esta partilhada por membros do governo.
Para os economistas, não há dúvida de que a valorização do dólar vai pressionar a inflação, a intensidade com que isso vai ocorrer, no entanto, é difícil de prever. Mello avalia que o impacto não deve ser grande, uma vez que a demanda interna dá sinais de desaquecimento. Na mesma linha, Dana destaca que a utilização da capacidade instalada da indústria está em 85%, em média, o que não indica problemas pelo lado da oferta.
Garcia lembra, porém, que alguns insumos muito utilizados na produção de bens de primeira necessidade, como as matérias-primas para fármacos e os fertilizantes, são majoritariamente importados, e é irreal pensar que o aumento do custo de importação não será repassado para o consumidor. Ele teme o descontrole inflacionário.
Nesse sentido, Dana acrescenta que os últimos dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 0,64% abril, já mostram uma inflação maior do que a desejada, sendo que os efeitos da atual valorização do dólar só serão sentidos mais para frente. O governo acredita que a inflação, no ano, ficará em 4,7%, projeção considerada otimista demais por Dana.
O governo pode, porém, lançar mão de outros instrumentos para tentar baixar a cotação do dólar, em caso de inflação preocupante, sem mexer nas medidas cambiais adotadas anteriormente. "O Brasil tem US$ 372 bilhões em reservas internacionais, o Banco Central tem muita bala na agulha para jogar a cotação para baixo, o que é mais eficaz do que voltar atrás nas medidas", declarou Garcia.

