Dubai – Salões lotados de estandes e corredores abarrotados de visitantes. Esse é o cenário do primeiro dia da Gulfood, principal feira da indústria alimentícia do Oriente Médio, que começou neste domingo (19) e vai até quinta-feira, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O movimento reflete o cenário atual do mercado da região.
“O evento está crescendo, a economia local acelerando e os exportadores encontraram aqui a oportunidade de vender mais do que em outros mercados”, disse à ANBA o diretor de Feiras e Eventos do Dubai World Trade Centre, que organiza a mostra, Mark Napier.
Segundo ele, de um lado o mercado local depende da importação de alimentos e bebidas. Os Emirados, por exemplo, compram do exterior 90% dos produtos do setor. A região do Golfo é desértica e não produz o suficiente sequer para abastecer sua população.
De outro, como o país é um centro de comércio exterior, 80% do que é adquirido acaba exportado para outras nações. Entre os destinos, de acordo com Napier, estão países do Oriente Médio, África e Ásia.
Esse cenário aquecido pode ser observado na participação europeia na feira, que é recorde. “Os expositores [europeus] estão vendo este mercado de forma mais agressiva. Eles procuram mais clientes, olham para os mercados que mais crescem, e o oriente Médio é um dos que mais crescem”, destacou o executivo.
Em sua avaliação, as empresas europeias buscam alternativas aos seus mercados domésticos, que estão em baixa por causa da crise no continente. “Eles não estão vendendo [o suficiente] em casa, então têm que exportar, e aqui podem atingir um grande mercado”, ressaltou. “Não é surpresa que eles (os europeus) estejam tentando se acomodar [aqui]”, acrescentou.
Brasileiros
A análise sobre o bom cenário para o setor na região é compartilhada por empresas brasileiras que estão na mostra. “Nós nos preparamos para este mercado desde 2008 e a cada ano buscamos mais clientes e também melhorar o que já temos”, disse o gerente de comércio exterior da indústria de biscoitos Marilan, César Reis. “Esta feira é espetacular. Em termos de movimento é a melhor do mundo por causa de sua diversidade [de visitantes]”, ressaltou.
Napier disse que de 2008 para cá a mostra deve ter dobrado de tamanho. São 3,8 mil expositores de 88 nações. A expectativa de visitantes é de 65 mil, representando 150 países.
Para Solange Isidoro, da fábrica de balas e caramelos Embaré, a feira fica cada vez maior e o mercado mais promissor para o ramo de alimentos. “É excelente para nós”, afirmou. Ela contou que, por causa da Primavera Árabe, as vendas para países como Egito e Iêmen foram afetadas, mas não houve redução nas exportações para o Golfo.
Marilan e Embaré já são veteranas na mostra, mas algumas empresas participam pela primeira vez. É o caso da Mavalério, de Itatiba, no interior de São Paulo, que produz confeitos utilizados em bolos e outros doces. “O Oriente Médio é um mercado ainda pouco explorado por nós, assim como o Leste Europeu e a Ásia”, disse. Ele gostou do movimento no primeiro dia da mostra e está otimista em relação às oportunidades.
Napier informou que as áreas de panificação e doceria estão entre as mais fortes da Gulfood e que é intensa a busca por matérias-primas para as indústrias da área.
Natural
Há também, segundo ele, uma presença cada vez maior de produtos orgânicos, frescos e considerados benéficos para a saúde. “Houve um aumento da preocupação com o que se come”, declarou.
Nessa linha, dois expositores do Brasil estão oferecendo açaí, frutinha que batida vira um dos alimentos preferidos dos esportistas brasileiros. João Batista Ribeiro, da Brasphil Trading, afirmou que há boa aceitação do produto. Ele contou que fez contato com uma empresa de Abu Dhabi interessada em importar açaí para vender para praticantes de jiu-jítsu. Ribeiro oferece também polpas de frutas como caju, graviola, cupuaçu e acerola.
Marcelo Gurgel Oliveira, por sua vez, tem uma trading em sociedade com um amigo do Kuwait e criou a marca Açaí M.E.N.A., sigla para Oriente Médio e Norte da África em inglês. O produto é fabricado pela Amazônia Energy, de Belém do Pará, em embalagens a granel e para o consumidor final, em pequenos potes, que parecem os de sorvete Häagen Dazs. Os recipientes menores foram feitos sob encomenda de uma rede de supermercados do Kuwait.
Oliveira, que participou também de missão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior aos Emirados e Arábia Saudita, encerrada neste sábado, disse ainda que fez bons contatos com importadores dos dois países e da Jordânia.
Para a gente do projeto de exportação do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), Stela Del Nery, há muita procura por sucos e frutas processadas na região, mas as empresas brasileiras ainda não estão muito atentas para as oportunidades. “O mercado tem crescido e há um potencial fantástico. O Brasil ainda está engatinhando, mas é questão de tempo”, afirmou.
Carne em alta
Na seara da carne bovina, Fernando Sampaio, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), afirmou que o ano começou bem após um 2011 de vacas não tão gordas. O preço do produto brasileiro está mais competitivo e há otimismo no setor.
“Estamos otimistas para este ano, e o mercado [árabe] continua muito importante”, destacou. Segundo ele, Norte da África e Oriente Médio, incluindo o Irã, que não é árabe, é o maior destino da carne brasileira, acima até da Rússia.
Napier disse que a Gulfood movimenta “centenas de milhões de dólares” em negócios e há uma lista de espera de 900 empresas querendo expor. Por isso, a organização tem três outras feiras, espalhadas ao longo do ano, específicas para frutos do mar, comidas finas e doces e guloseimas.

