Isaura Daniel
São Paulo – Na Serra Gaúcha, descendentes de imigrantes italianos repetem diariamente uma atividade praticada por seus avôs, bisavôs e tataravôs ainda na Itália: a fabricação de móveis. Quando povoaram a região, por volta do século 19, eles abriram suas marcenarias no quintal das próprias casas. Hoje são responsáveis por um dos mais importantes pólos de pequenas empresas exportadoras do país.
Das cerca de 4,6 mil fabricantes de móveis do Rio Grande do Sul, 98% são de micro e pequeno portes. No primeiro semestre deste ano, elas foram responsáveis por vender mais de US$ 45 milhões para fora do país.
As moveleiras fazem parte do grupo de empreendedoras que dá ao Rio Grande do Sul o título de segundo estado do país com maior número de micro e pequenas empresas exportadoras. No ano passado, 1.384 pequenas e microempresas gaúchas exportaram. O estado ficou atrás apenas de São Paulo.
Entre as 20 cidades brasileiras que mais possuem microempresas exportadoras, quatro são gaúchas: Novo Hamburgo, Porto Alegre, Caxias do Sul e Soledade. Novo Hamburgo é a terceira cidade do país com maior número de microempresas com presença no comércio internacional.
Enquanto no Brasil as companhias de micro e pequeno porte representam 47% das empresas exportadoras, no Rio Grande do Sul esse percentual sobe para 52%. "A imigração trouxe uma dinâmica internacional ao estado", diz a diretora de operações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RS), Susana Kakuta.
De fato, a atividade das pequenas empresas gaúchas está diretamente relacionada à imigração. No Vale dos Sinos, por exemplo, a principal indústria é a calçadista, herança dos imigrantes alemães que colonizaram a região. Na Serra, além dos móveis, há também a produção de uvas e vinhos, tradicional atividade dos italianos, cujos descendentes povoaram a região. Em Pelotas, no sul do estado, a descendência portuguesa fomentou a fabricação de doces e conservas de frutas.
De acordo com Susana, com o processo de descentralização das exportações gaúchas, que começou por volta de 1998, as famílias que começaram produzindo em pequena escala tiveram chance de se inserir no comércio internacional. "O Rio Grande do Sul era conhecido pelo pólo calçadista e pela indústria metalmecânica, mas hoje outros setores estão despertando", diz.
Esse fomento à diversificação da economia ,que está ocorrendo no estado, vem facilitando o crescimento das vendas externas das pequenas empresas, segundo a diretora. No ano passado, as micro e pequenas empresas gaúchas faturaram US$ 197 milhões com exportações. O crescimento foi de 32% sobre os US$ 142 milhões registrados no ano anterior.
SebraExport
As microempresas gaúchas têm o segundo maior faturamento com exportações do segmento no país. Apenas o Sebrae mantém 237 micro e pequenos empreendimentos engajados num projeto de exportações chamado SebraExport. Esse grupo de empresas faturou US$ 136 milhões com exportações nos seis primeiros meses deste ano. O volume é 89,3% do valor registrado em todo o ano passado.
As vendas são dos setores de autopeças, carnes, moda, frutas, implementos agrícolas, móveis, acessórios e componentes e utilidades em aço inox. A entidade está começando agora também um trabalho de inserção de fabricantes de jóias, calçados, cachaça e artesanato no mercado internacional.
O estado também mantém o terceiro maior canal de exportação de micro e pequenas empresas do país: o porto fluvial de Uruguaiana, na divisa do estado com a Argentina. Por ali, 1.268 pequenas empresas enviaram suas mercadorias ao exterior no ano passado.
O porto só perdeu, como via de embarque deste tipo de companhia, para os aeroportos de São Paulo, e para o Porto de Santos. O porto de Rio Grande, na região Sul do estado, ficou em quinto lugar no registro de exportações de micro e pequenas empresas.
Árabes
Não há registro da porcentagem das exportações das indústrias gaúchas de pequeno porte para que vai para os países árabes. Várias empresas inseridas no projeto SebraExport, porém, estão enviando catálogos e amostras para o Oriente Médio e norte da África. A Metalúrgica Forma, da Serra Gaúcha, é uma das empresas que deve começar a vender para os Emirados Árabes Unidos nos próximos dias.
Apesar da predominância da imigração européia, o Rio Grande do Sul mantém várias colônias árabes. Uma delas está no extremo sul do estado, no município de Chuí, na fronteira com o Uruguai. Dos cerca de 3,8 mil moradores, quase 10% são descendentes de árabes.
A cidade de Canoas, na região metropolitana da capital Porto Alegre, também tem forte presença de imigrantes palestinos. Tanto em Chuí, quanto em Canoas, a maioria dos árabes trabalha com comércio e confecção.

