São Paulo – O produtor brasileiro estará mais capitalizado nos próximos anos e com isso vai exigir mais também dos seus fornecedores de fertilizantes. A previsão é do sócio-diretor da Agroconsult Consultoria e Projetos, André Pessôa, que fez uma palestra nesta segunda-feira (27) durante o 2º Congresso Brasileiro de Fertilizantes, na capital paulista. Favorecido pelo cenário mundial, de bons preços e demanda para soja e milho, além de melhores perspectivas na produção de cana de açúcar, o agricultor deverá ficar mais exigente com os fabricantes de adubos. O encontro foi promovido pela Associação Nacional de Difusão de Adubos (Anda).
A produção de soja no Mato Grosso, por exemplo, deve dar uma rentabilidade de R$ 1.463 por hectare na safra 2012/2013, de R$ 1.296 na 2013/2013, de R$ 714 em 2014/2015, de R$ 622 na seguinte e de R$ 560 na outra, estes últimos anos já com ajustes entre oferta e demanda mundial. “Imagina como vai ser daqui a cinco anos se o produtor continuar ganhando assim. Crédito vai ser opção e não oxigênio”, disse Pessôa, afirmando que será um desafio para a indústria de fertilizantes como ganhar dinheiro com esse cliente.
“Tem que vender produto com qualidade e serviço”, disse, referindo-se a prazos de entrega e logística, entre outros. “O produtor vai andar de turbante. Cada fazenda vai ser um poço de petróleo”, brincou, fazendo uma comparação com os produtores árabes de petróleo. Previsões da Agroconsult mostram que, de uma demanda de 28,42 milhões de toneladas de fertilizantes em 2011, o País passará a consumir 34,8 milhões de toneladas em 2017. Cerca de 70% deste volume vem das lavouras de soja, milho, cana de açúcar e algodão. Estas culturas têm boas perspectivas de produção no Brasil e demanda mundial em crescimento.
De acordo com Magnus Berge, executivo sênior da CRU Fertilizer Week, empresa de eventos e publicações da área de fertilizantes, o Brasil responde atualmente por 6% do mercado mundial de fertilizantes, atrás da China, que responde por um quarto da demanda, da Índia, Estados Unidos e União Europeia. Diferente dos demais mercados, que usam mais fósforo e potássio, o Brasil faz maior aplicação de nitrogênio. Num panorama traçado para o fornecimento de ureia, fonte de nitrogênio, Berge afirma que haverá crescimento regular e constante de demanda para esta área nos próximos cinco anos e os preços devem ficar acima dos patamares de 2008.
Já para o fosfato, Berge acredita que a demanda no Brasil vai crescer 5% nos próximos cinco anos e que a produção mundial se manterá estável até 2017. Ele mencionou alguns novos projetos de produção, como na Arábia Saudita, pela Ma’aden, e no próprio Brasil, mas afirmou que apesar do aumento da produção interna, o País continuará sendo um importador importante de fosfato. “Pela qualidade. E talvez seja mais barato comprar lá fora do que aqui”, disse o executivo. Já na área de potássio, existe atualmente uma supercapacidade na indústria, além de novos projetos de produção, como na Rússia. Ele afirmou que, em função disto, os preços do produto devem ficar estáveis nos próximos cinco anos.
O Brasil e os EUA
No cenário de problemas de safras mundo afora, o Brasil se apresenta, nos próximos anos, como um bom destino para os fertilizantes mundiais. Pessôa afirmou que os produtores norte-americanos, por exemplo, podem rever o seu uso de adubos na próxima safra. Ele acredita que eles vão repor, na lavoura, apenas o que a última planta extraiu e poderão não fazer um nível normal de fertilização. “Eles terão um cuidado maior com o quanto foi extraído nesta safra e com a reposição”, disse o sócio-diretor da Agroconsult. Ele lembrou, porém, que só no final deste ano e início do próximo haverá certeza de quanto eles usarão de fertilizantes.
Pessôa lembra, no entanto, que este uso menor de fertilizantes não será feito por economia. “Mas por conta da extração menor deste ano”, disse ele. O especialista lembra que 80% das perdas dos produtores dos Estados Unidos com a safra são repostos pelo seguro.
A menor safra norte-americana, aliás, é um dos fatores para um bom momento da agricultura e pecuária brasileira. A baixa oferta de produto e a ausência dos norte-americanos no mercado mundial aumentam os preços e abre mercados em mais países para o Brasil. Somado a isso há crescimento de consumo em nações em desenvolvimento como Rússia, China, Índia e o próprio Brasil. “Como são países em desenvolvimento, alocam grande parte da renda em alimentação”, lembrou Pessôa. A demanda mundial por carne suína e de frango, por exemplo, deve crescer acima de 2% nos próximos cinco anos.

