São Paulo – A indústria naval brasileira, que chegou a ser a segunda do mundo nos anos 70, passou por cerca de duas décadas de vacas magras. Revitalizado nos últimos 10 anos, o setor vê o futuro com confiança e aposta que voltará a ser um dos grandes atores do mercado internacional.
Só para dar uma idéia da evolução recente da atividade, no ano 2000 ela empregava menos de duas mil pessoas, mas no ano passado o número de empregos diretos ultrapassou os 46 mil, segundo informações do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval).
Logo em seu primeiro mandato, iniciado em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva definiu a revitalização da indústria naval como prioridade. O governo tinha – e tem – peso para influenciar o destino do setor, já que as duas principais compradoras de navios do Brasil, a Petrobras e sua subsidiária Transpetro, são empresas estatais. A ordem foi que as companhias priorizassem os estaleiros nacionais nas suas novas encomendas.
Só a primeira fase do Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Promef), anunciado em 2004, resultou em 33 encomendas, sendo que os primeiros seis navios vão ser lançados ao mar este ano, segundo a empresa. O orçamento para esses projetos é de US$ 3,9 bilhões e índice de nacionalização exigido é de 65%.
“Quando [o governo] acionou, [a indústria] teve que responder”, disse o vice-presidente executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Syndarma), Roberto Galli. “Hoje se fala em novos estaleiros para cá, novos estaleiros para lá, etc.”, acrescentou.
De fato, na avaliação de executivos dos estaleiros Mauá e Ilha (Eisa), ambos do Rio de Janeiro, o setor passa pelo momento mais importante dos últimos 20 anos. Na mesma linha, o Sinaval avalia que o Brasil chega a um novo patamar industrial e tecnológico na área, pois retomou a construção de navios de grande porte.
De acordo com o Sinaval, a carteira de pedido dos estaleiros brasileiros conta com 156 encomendas, entre embarcações de diversos tipos em construção ou já finalizadas. Essa quantidade de pedidos, segundo o sindicato, indica que a frota brasileira está dobrando. Em 2007 e 2008 foram entregues 53 navios e, no ano passado, as empresas do setor tiveram faturamento de R$ 5 bilhões.
As perspectivas sobre encomendas futuras são ainda melhores. O Sinaval espera para este ano o resultado de licitações para construção de oito navios gaseiros para a Transpetro, 13 sondas de perfuração e oito cascos de plataformas de petróleo. A segunda fase do Promef, segundo a Transpetro, envolve a construção de 23 embarcações, sendo que o nível exigido de nacionalização será de 70%.
A retomada do setor começou antes das novas descobertas de petróleo feitas na camada pré-sal da costa brasileira, então boa parte dos pedidos feitos até agora não leva em consideração a demanda dessa nova fronteira petrolífera.
De acordo com o Sinaval, estima-se que serão necessárias 45 novas plataformas de petróleo, mais dois navios de apoio para cada uma, além de 70 petroleiros para a Petrobras. Isso sem contar a demanda das empresas de navegação que atuam no comércio exterior e na cabotagem, que deve ser impulsionada pelo crescimento da economia brasileira e pela retomada da economia mundial.
A Transpetro informou que, com a descoberta do petróleo no pré-sal, o Promef terá outras fases, embora os objetivos originais do programa já tenham sido atingidos, ou seja, revitalizar a indústria naval e torná-la competitiva no mercado internacional. Segundo a empresa, o Brasil tem hoje a quinta maior carteira de encomendas de petroleiros do mundo.
Em dezembro do ano passado, o Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (FMM), principal fonte de financiamentos da indústria, aprovou prioridade para 161 projetos avaliados em R$ 14,2 bilhões, que incluem a construção de quatro novos estaleiros no Nordeste.
Uma das novas instalações previstas é a unidade do Eisa em Alagoas. O estaleiro que, assim como o Mauá, pertence ao grupo Synergy, do empresário German Efromovich, tem uma planta na Ilha do Governador, no Rio, onde trabalham 4 mil pessoas em três turnos para atender as encomendas. A empresa não revela o valor do investimento necessário em Alagoas, mas estimativas do mercado apontam para algo em torno de US$ 750 milhões.
Apesar do peso da Petrobras e da Transpetro, não são só elas que movimentam o mercado. O Eisa, por exemplo, tem encomendas da venezuelana PDV Marina, subsidiária da petrolífera PDVSA, além de clientes norte-americanos, argentinos e outras empresas brasileiras.
O Mauá, por sua vez, pretende investir US$ 114,1 milhões em obras de expansão nos próximos dois anos, o que inclui a reabertura de uma unidade em São Gonçalo, também no Rio. “O Estaleiro Mauá continua mantendo o foco no crescimento. Além de modificações na sede administrativa, reabriremos uma unidade no Gradim, município de São Gonçalo”, informou o presidente da empresa, Domingos D’Arco.
Além do petróleo
Os estaleiros vêem boas oportunidades também em outras áreas que devem avançar no Brasil e garantem ter condições de atender encomendas de qualquer tipo, nacionais ou internacionais.
Segundo relatório do Sinaval, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) apontou o Brasil como país mais bem servido da América do Sul no transporte de contêineres. No entanto, não há nenhuma embarcação de bandeira brasileira operando em rotas de longo curso. Isso indica que mesmo os armadores brasileiros trabalham com afretamento de navios de terceiros.
De acordo com o sindicato, o afretamento de navios de bandeira estrangeira para rotas de longo curso custou US$ 7,7 bilhões nos últimos seis anos, o que daria para construir 50 embarcações. Para a instituição, uma frota própria daria ao país defesa contra preços de frete abusivos, segurança ao comércio exterior e geraria mais empregos.
Roberto Galli, do Syndarma, concorda que, apesar da avaliação da Unctad, o Brasil não está bem atendido no transporte internacional de mercadorias. “Estamos inseridos no comércio mundial e teríamos benefícios se pudéssemos usufruir de navios de bandeira nacional”, afirmou. Hoje, todos os armadores filiados ao Syndarma atuam somente em cabotagem ou operações de apoio marítimo. Para ele, o uso de navios nacionais em rotas comerciais de longo curso depende também uma política de incentivo do estado.
Na seara da cabotagem, o Sinaval informa que há perspectivas de renovação e ampliação da frota brasileira. Galli confirma que há pressão sobre o segmento para renovação da frota na medida em que a economia cresce.
Outra área que oferece oportunidades é a militar. O Eisa, por exemplo, pretende participar de uma licitação que a Marinha vai abrir este ano para construção de quatro navios-patrulha oceânicos de 1,8 mil toneladas. No ano passado, o estaleiro venceu uma concorrência para fabricar quatro navios patrulha de 500 toneladas no valor de R$ 174 milhões.
“Estamos muito empenhados em nos fortalecer nesse nicho de embarcações militares, pois há uma excelente perspectiva de ampliação da frota brasileira nos próximos anos, em função da necessidade de se redobrar a segurança em águas territoriais e em função das reservas petrolíferas no mar”, disse o presidente do Ilha, Manuel Ribeiro.

