São Paulo – As exportações brasileiras de manufaturados cresceram mais do que as dos outros grupos de produtos nos cinco primeiros meses de 2012. A média diária dos embarques avançou 3,2% sobre o mesmo período de 2011, frente a um aumento de apenas 0,8% nas vendas de itens básicos e de uma retração de 2,5% na comercialização de semimanufaturados, segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
Os dados mostram que a participação das mercadorias acabadas nas vendas externas brasileiras passou de 36,4% nos cinco primeiros meses do ano passado para 37% no mesmo período deste, na contramão da perda de espaço ocorrida ano a ano desde 2007. No entanto, ainda não dá para dizer se isso significa uma retomada.
“É cedo para tirar uma conclusão”, disse Joseph Tutundjian, dono da Winner, consultoria em comércio exterior e investimentos internacionais. “Tomara que seja [uma retomada]”, acrescentou.
Ele acredita, porém, que o desempenho é mais resultado de fatores pontuais, como transações entre unidades de uma mesma multinacional e a entrega de encomendas feitas com bastante antecedência, como as de aviões e máquinas pesadas.
De acordo com o MDIC, avançaram nos cinco primeiros meses do ano as vendas de óleos combustíveis, aviões, máquinas e aparelhos para terraplanagem, polímeros plásticos, bombas e compressores.
Na mesma linha, o presidente em exercício da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirma que o desempenho de janeiro a maio é “localizado”, concentrado em alguns poucos produtos.
No caso dos combustíveis, por exemplo, o coordenador do curso de negócios internacionais e comércio exterior do Programa de Educação Continuada da Fundação Getulio Vargas (PEC-FGV), Evaldo Alves, ressalta que sempre há um esforço da Petrobras em zerar sua balança comercial. As importações do setor também aumentaram no período.
Segundo Castro, ainda não deu tempo da valorização do dólar influenciar as exportações de forma significativa. A cotação da moeda norte-americana ultrapassou os R$ 2,00 em maio e se manteve acima desse patamar desde então. “Ocorre uma defasagem de quatro a seis meses [até que a valorização surta efeito]”, declarou. O efeito por enquanto “é marginal”.
Castro acrescenta que a situação internacional, com a crise na Europa e a economia da Argentina em baixa, não permite fazer previsões otimistas. Vale lembrar que a Argentina é o terceiro maior mercado do Brasil, atrás da China e dos Estados Unidos. “Não deve se manter [o desempenho de janeiro a maio]”, destacou. “Em junho, provavelmente, passaremos a ter uma queda”, ressaltou.
Destinos
Nesse cenário, Alves e o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Celso Grisi, destacam que outros mercados emergentes, principalmente da Ásia e da África, ajudaram a impulsionar as vendas de itens industrializados brasileiros. Ambos têm uma visão um pouco mais positiva sobre o desempenho futuro do comércio exterior.
“No início do ano houve uma retração muito forte da indústria brasileira, um desempenho sofrível. A reação foi sair para exportar”, disse Grisi. “Nossos parceiros emergentes continuam a crescer, pelo menos em relação ao nosso patamar”, acrescentou Alves. A economia brasileira avançou apenas 0,2% no primeiro trimestre, em comparação com os últimos três meses de 2011, abaixo do desempenho de outros grandes países emergentes da América latina, Ásia e África.
Sob esta ótica, os Estados Unidos foram a grande exceção. As vendas de manufaturados brasileiros para a maior economia do mundo aumentaram 21% de janeiro a maio e somaram mais de US$ 5 bilhões. O país ampliou consideravelmente as importações de derivados de petróleo, máquinas e equipamentos, produtos químicos orgânicos, aeronaves, material elétrico, veículos e autopeças.
Nesse sentido, Alves destacou que a indústria brasileira é competitiva em algumas áreas como as de autopeças, de componentes eletroeletrônicos e de bens de consumo duráveis. O País é, por exemplo, tradicional exportador de motores e caixas de câmbio, produtos utilizados por montadoras mundo afora.
Ao contrário de Castro, Grisi acredita que a valorização do dólar pode ter tido algum efeito já em maio, pelo menos no que diz respeito aos contratos de financiamento de exportação, e que se a cotação subir mais até o final do ano haverá um impacto bem maior. Segundo ele, a indústria exportadora tem condições de responder rapidamente a uma taxa de câmbio favorável.

