Isaura Daniel
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São Paulo – As relações entre os países árabes e sul-americanos avançaram bastante nos últimos anos, mas ainda têm espaço para crescer mais. Esse foi um dos pensamentos que norteou o primeiro dia de encontros entre chanceleres e representantes das duas regiões, ontem (20) em Buenos Aires, capital da Argentina. "O comércio e o investimento entre as nossas regiões cresceu nestes anos, dando impulso às economias árabes e sul-americanas. No entanto, ainda não alcançou o potencial que pode ter", disse o ministro de Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, na abertura do encontro, no Palácio San Martin.
O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Mussa, que participa da reunião, também destacou em seu discurso o crescimento do intercâmbio comercial ocorrido nos últimos anos e lembrou que o maior volume de comércio do mundo árabe, na América do Sul, é com o Brasil. O Brasil e os países árabes tiveram, no ano passado, corrente comercial de US$ 13,5 bilhões, um aumento de 12%, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Mussa disse, segundo a agência de notícias oficial argentina Telam, que a América do Sul exportou para os árabes principalmente commodities e manufaturas de origem agropecuária e importou da região combustíveis, fertilizantes e enxofre.
O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, assinalou, segundo a Telam, que este encontro de Buenos Aires já marca a consolidação definitiva da aproximação que ocorreu entre árabes e sul-americanos. O chanceler argentino lembrou, porém, que ainda há pendências em barreiras comerciais a serem resolvidas para uma maior integração comercial e econômica. Taiana afirmou que um diálogo bi-regional para a cooperação na área de energia, por exemplo, deve ser uma prioridade para as duas regiões. "Na América do Sul essa é uma questão da mais alta prioridade, a qual estamos dispensando um esforço particular. E os países árabes são atores centrais da equação energética internacional", afirmou o argentino.
Outro tema presente na maioria dos discursos dos diplomatas e autoridades presentes foi a cooperação em estâncias multilaterais. Foi o que defendeu o chanceler e príncipe saudita Saud Al-Faisal. Ele falou da necessidade de ativar o multilateralismo e de que seja reformada a Organização das Nações Unidas para superar os entraves que hoje emperram as relações internacionais. O argentino Taiana falou que as duas regiões devem unir esforços pela Rodada de Doha, para que não haja mais concessões aos países desenvolvidos. Amorim disse que as barreiras entre as duas regiões devem ser rompidas para que as relações internacionais não se dêem apenas desde a ótica dos mais ricos.
Pela paz
Uma das discussões centrais do encontro, porém, foi o processo de paz no Oriente Médio, principalmente na Palestina. Os ministros árabes e sul-americanos defenderam o estabelecimento de uma solução definitiva para o conflito Palestina-Israel. "Saibam vocês que na América do Sul contam com uma comunidade de países amigos dispostos a cooperar para alcançar esta paz", disse o chanceler argentino. O príncipe saudita afirmou que não é mais possível tolerar a ampliação das colônias de Israel e a humilhação de castigos coletivos aos quais o povo palestino tem sido exposto.
Amorim também afirmou que a paz é o objetivo principal e que é preciso uma solução definitiva para o conflito Israel-Palestina. Todos os diplomatas afirmaram que repudiam o terrorismo e Amr Mussa afirmou ainda que o aprofundamento dos laços entre as duas regiões é benéfica justamente para evitar um choque de civilizações entre o Oriente e o Ocidente. Ele citou e elogiou também o papel que desempenham hoje países como Espanha, Portugal e Turquia como combatentes do extremismo.
Hoje (21) os chanceleres e representantes dos 34 países – 12 sul-americanos e 22 árabes – continuam reunidos. Eles vão apresentar, no final do dia, a Declaração de Buenos Aires, um documento contendo os avanços que já foram obtidos nas relações das duas regiões desde a Cúpula Países Sul-Americanos e Árabes, que ocorreu em maio de 2005 no Brasil, e também os planos para o futuro destas relações.

