Alexandre Rocha
São Paulo – O ministro da Indústria e Comércio do Marrocos, Salaheddine Mezouar, defendeu hoje (12) a formação de um “verdadeiro” bloco econômico entre os países árabes e sul-americanos. Também disse que os investidores das duas regiões precisam parar um pouco de olhar para os países ricos e passar a se interessar mais pelas oportunidades existentes nos países em desenvolvimento.
“O que nós já fazemos de uma maneira natural com os países do norte, podemos também fazer juntos (no sul)”, disse o ministro em entrevista exclusiva à Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA). Ele participou pela manhã do seminário de abertura do Encontro Empresarial Brasil-Países Árabes, evento organizado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), que ocorre em São Paulo.
Na sua avaliação, com a cúpula e a negociação de acordos, os governos estão fazendo a sua parte para incentivar o comércio e os investimentos entre as duas regiões. “Quando os governos orientam os investidores sobre uma região, isto acaba dando resultados”, declarou. O Marrocos, por exemplo, negocia atualmente um acordo comercial com o Mercosul.
No caso específico do Brasil e do Marrocos, o ministro acredita que existem oportunidades de investimentos recíprocos em setores como agronegócio, pesca, indústria automobilística, infra-estrutura, concessão de obras públicas e financeiro. “Mas isso depende do dinamismo e da capacidade do setor privado”, alertou. Leia a seguir a entrevista:
ANBA – Que avaliação o senhor faz destes eventos ocorridos no Brasil, a cúpula e o encontro empresarial em São Paulo?
Salaheddine Mezouar – A cúpula tem uma importância estratégica e histórica dentro das transformações que estão ocorrendo na fisionomia da economia mundial. A iniciativa brasileira é de grande importância para que estas duas grandes regiões do mundo, que têm um tremendo potencial econômico, comercial e de investimentos, se aproximem pela primeira vez dentro de um encontro como este. Isso significa que nossos países estão decididos a fazer com que as regras do jogo da economia mundial e da globalização não contrariem seus interesses. São regras que têm que levar em conta os interesses dos diferentes povos.
As regras da economia mundial têm que mudar?
Sim. Mas se nós queremos que as regras mudem, nossos países têm que se aproximar mais para formar realmente um bloco econômico, que facilite as transações econômicas e investimentos, para que a mentalidade e metas dos investidores de nossos países não sejam voltadas apenas aos países ricos, mas também aos países do sul.
O senhor acredita que isto é possível, que os investidores tirem um pouco os olhos do norte e olhem um pouco mais ao sul?
O que a globalização tem de bom é isso. É a primeira vez que estamos assistindo a encontros deste tamanho. Sempre houve encontros entre um país e outro, mas entre uma região e a outra eu acredito que é a primeira vez, pelo menos na área econômica. Trata-se de uma dinâmica que vai ter impacto. Em qualquer lugar do mundo, o investidor toma suas decisões com base nas oportunidades e segurança que vê. E, quando os governos orientam os investidores sobre uma região, isto acaba dando resultados.
O senhor acredita que os governos, que estão dando esse tipo de orientação, vão criar regras claras para os investimentos?
Eu creio que isso já começou. No caso do Marrocos, por exemplo, temos clareza que já iniciamos. Estamos assinando acordos de livre comércio, facilitando os trâmites de investimentos e comércio com outros países, com o Mercosul. E estamos fazendo isso por convicção estratégica. Alguns países vão andar mais rápido do que os outros, mas o processo já está em marcha.
Que possibilidades de investimentos o senhor vê entre o Brasil e o Marrocos?
Acredito que os dois países podem desenvolver tudo o que está relacionado com a agricultura, a agroindústria, a pesca, todos os produtos relacionados com estes setores. Também tudo o que está relacionado com o setor de automóveis, com grandes obras, concessão na área de portos e aeroportos e também negócios no setor financeiro, de bancos e de seguros. Há tantas oportunidades.
O que já fazemos de uma maneira natural com os países do norte podemos também fazer juntos. E há muito para fazer, tanto no seu país, como no nosso, levando em conta a posição geoestratégica dos dois. Mas creio que isso depende da capacidade e do dinamismo do setor privado. Os governos já têm isso claro, que têm que ajudar, têm que incentivar, têm que facilitar. Agora, o trabalho real, temos que delegar ao setor privado. Para que as coisas ocorram.

