Isaura Daniel
São Paulo – O aumento de renda que os investidores árabes terão neste ano em função dos preços elevados do petróleo vai influenciar o mercado internacional do ouro. O ouro esteve cotado a cerca de US$ 440 a onça-troy na Bolsa de Nova Iorque no final do ano passado e deve ter uma valorização de cerca de 30% em 2006. “Aumentou a receita dos árabes com petróleo e eles são tradicionais investidores em ouro”, diz o presidente da Associação Nacional do Ouro (Anoro) e diretor da Marsam Metais, José Inácio Cortelazzi Franco.
A maior demanda nos países árabes, porém, é apenas um dos fatores que influenciará na elevação dos preços. O principal deles é a desvalorização da moeda norte-americana, que vem levando os investidores a optar por outros tipos de investimentos, como é o caso dos contratos futuros baseados em ouro, em vez de alocar seus recursos em dólar norte-americano. Os Estados Unidos tiveram déficit na balança comercial e no orçamento no ano passado e há entre analistas financeiros dúvidas sobre a possibilidade de recuperação dos indicadores.
“Será que os EUA vão conseguir deixar de gerar déficits, vão adotar uma política de moeda forte? Não, não é a característica do governo Republicano”, diz o diretor da corretora Fitta DTVM, André Luiz Nunes Silva. Em função disso, não só o ouro, mas também outros tipos de ativos, como os contratos futuros de commodities, estão recebendo um maior volume de investimentos. “É um momento de diversificação de portfolios por parte dos investidores”, explica Silva. Segundo ele, além de investidores convencionais, também os bancos centrais estão aplicando em ouro.
O mercado da commodity ainda terá um aumento de demanda em função da elevação de renda na Ásia. “A China e a Índia estão crescendo de forma significativa, está aumentando o poder aquisitivo da população”, afirma o presidente da Anoro. De acordo com Franco, os dois países são grandes consumidores e não poupadores, mas geralmente o que as pessoas juntam de dinheiro, investem em ouro. “Hoje há uma demanda muito forte por ouro, principalmente entre os asiáticos, mas acredito que há espaço para o preço subir mais ainda”, complementa o diretor da Fitta.
Riqueza árabe
De acordo com Silva, no mundo árabe a tradição de investir em ouro tem como origem as características políticas da região. “Nos locais de geopolítica instável as pessoas têm o hábito de ter os ativos em seu próprio poder”, diz Silva. A instabilidade supostamente pode forçar a população a se mudar e levar os bens consigo. “A riqueza é o que ele pode carregar”, explica.
Para investir no ouro, se pode tanto comprar contratos futuros baseados na commodity quanto comprar o próprio metal em barras para guardar em casa ou deixá-lo em custódia em uma instituição financeira. Os árabes também costumam comprar jóias e guardá-las como patrimônio.
O aumento da demanda pelo metal no mundo árabe pode ser visto pelos números do comércio do setor em Dubai, um dos principais centros de negócios da região. O emirado importou 522 toneladas de ouro no ano passado, 20 toneladas a mais do que no ano anterior, de acordo com informações da Emirates News Agency. No mundo todo foram comercializadas quatro mil toneladas de ouro.
Os preços da commodity já vêm se valorizando há pelos menos cinco anos. Em fevereiro de 2001, por exemplo, a commodity estava cotada a US$ 260 a onça-troy. O valor passou para US$ 300 no começo de 2002, US$ 340 em 2003, US$ 420 em 2004 e US$ 440 no ano passado. Neste ano, a aposta dos economistas vai de US$ 520 a US$ 640.

