Ramallah – Ao lado do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje (17), durante entrevista coletiva em Ramallah, na Cisjordânia, que a desavença entre os governos dos Estados Unidos e Israel, sobre a decisão israelense de construir 1,6 mil novas casas em Jerusalém Oriental, que os palestinos consideram território ocupado, pode até ajudar na negociação da paz na região.
“O que parecia impossível acabou acontecendo, os Estados Unidos tiveram uma divergência com Israel”, disse Lula. “Talvez seja a coisa mágica que faltava para chegar a um acordo, uma desavença entre dois aliados pode ser a chance do sucesso que precisa ser construído”, acrescentou.
O anúncio da construção das moradias ocorreu justamente quando o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, visitava Israel. O fato irritou o governo dos EUA e gerou críticas da administração do presidente Barack Obama, já que o congelamento de novos assentamentos israelenses era tido como necessário à retomada das negociações de paz.
Poucos dias antes a Liga Árabe e a ANP haviam concordado em retomar as negociações de forma indireta, por meio de um intermediário, o enviado especial norte-americano ao Oriente Médio, George Mitchel, que acabou cancelando uma visita que faria esta semana à região.
Abbas declarou que a ANP continua a concordar com as negociações indiretas sem pré-condições, mas quer que sejam respeitadas regras que tinham sido acordadas anteriormente, no caso a suspensão dos assentamentos. “Israel tem que cumprir os compromissos, só pedimos que seja cumprido o que foi assumido”, afirmou.
“A ampliação dos assentamentos deve parar, sob pena de apagar a chama da esperança”, concordou Lula, que no início da semana esteve em Israel. “O Brasil aposta na capacidade do Oriente Médio alcançar um futuro em harmonia”, disse.
Abbas afirmou que o Brasil tem grande importância no mundo e pode “empenhar essa força” na busca da paz. Ele lembrou, porém, de temas urgentes para os palestinos, como o fim do cerco à Faixa de Gaza pelo exército israelense. Lula concordou que o bloqueio a Gaza tem que terminar e declarou que o “muro da separação tem que vir abaixo", referindo-se ao muro de concreto que separa a Cisjordânia de Israel.
O presidente brasileiro acrescentou que levou para Israel também uma mensagem da “urgência da paz” e que a maioria do povo israelense quer a volta das negociações. “O Brasil está convencido de que pode contribuir para acelerar o processo”, destacou.
União
Lula afirmou que quer ver no curto prazo a formação de um Estado Palestino “seguro e viável, sobretudo pela integração de seu território”. Ele ressaltou, porém, que é preciso haver consenso entre os palestinos sobre a solução de dois estados – Israel e Palestina -, pilar das negociações.
A ANP é favorável às negociações e aos dois estados, mas o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, é contra. “O povo palestino espera ser representado por uma só voz nas negociações”, disse Lula, acrescentando que essa voz deve ser moderada.
O presidente disse que o Brasil está pronto para sediar encontros de grupos que apóiam a paz e que o país está à disposição “para conversar com quem quer que tenha qualquer importância no processo de negociação e que possa influir na construção” da paz. “Não há força política, de esquerda ou de direita, que o país se negue a conversar”, afirmou, deixando implícita a possibilidade de diálogo com o Hamas se for desejo dos envolvidos. “Estamos dispostos a ter todas as conversas necessárias”, acrescentou.
Na mesma Linha, Abbas disse que “a união dos palestinos é muito importante” e que a ANP continua disposta a assinar um acordo com o Hamas proposto pelo governo do Egito. Para ele, o Brasil pode usar seus “bons ofícios” para ajudar no convencimento das partes.
Apesar do momento delicado, Lula afirmou que é um otimista. “Não acredito que exista no mundo um ser humano mais otimista do que eu”, declarou. “Por isso eu acredito na paz entre os povos palestino e israelense. Todos com quem converso querem a paz”, ressaltou. “Existem coisas que precisam ser consertadas e vai caber aos líderes políticos [da região] se acertarem. O Brasil vai fazer tudo ao seu alcance para a paz”, concluiu.
Jordânia
Após o encontro com Abbas, Lula seguiu para a Jordânia, última etapa de sua viagem ao Oriente Médio. Ele e a primeira dama, Marisa Letícia, foram recebidos no Palácio Al-Humman, no Parque Rei Hussein, em Amã, pelo rei Abdullah II e a rainha Rania.
Amanhã o presidente terá uma série de encontros com autoridades jordanianas e fará o encerramento de um seminário empresarial organizado pelos governos da Jordânia e do Brasil com apoio da Câmara de Comércio Árabe Brasileira.

