Cartum – A Kenana Sugar Company é a ponta de lança do projeto sudanês de desenvolvimento agrícola. Enquanto governos e empresas árabes discutem estratégias para o setor, a companhia pretende investir US$ 2 bilhões nos próximos cinco anos em diversos projetos de expansão.
"A estratégia [sudanesa de desenvolvimento da agricultura] é substancial, precisamos embarcar em projetos de larga escala destinados à exportação", disse o diretor gerente da empresa, Mohamed El Mardi El Tergani, em entrevista à ANBA em Cartum, capital do país africano. "O maior setor e o mais fácil no Sudão é do açúcar", acrescentou.
Maior e mais fácil porque nos últimos 37 anos, desde a sua fundação, a empresa desenvolve um modelo que, em tese, pode ser replicado em outras áreas. Ela tem como acionistas os governos do Sudão, Arábia Saudita e Kuwait, instituições árabes de fomento, bancos comerciais e a japonesa Sojitz, e utiliza um sistema de produção integrado onde subprodutos, como melado e bagaço, são usados na fabricação de etanol, ração animal e energia.
Por meio de suas subsidiárias, a Kenana produz também lácteos, amendoim, sementes de girassol, milho e soja. A ideia é aumentar a produção e expandir para outros produtos, como sorgo, trigo, carnes, produtos hortícolas, óleos vegetais e biodiesel.
“Alimentos e combustíveis têm sido a preocupação do mundo todo”, afirmou Mardi. “Há falta de alimentos [no mercado mundial], há uma crise, não há disponibilidade. Mesmo quem tem dinheiro não vai conseguir comprar”, acrescentou.
Ainda este ano, a companhia espera o início da produção em uma nova planta, a White Nile, na qual tem participação, que vai fabricar 500 mil toneladas de açúcar anuais, volume igual ao produzido hoje pela empresa. Outro projeto previsto, o Redais, que tem acionistas chineses, pretende ampliar o total em mais 500 mil.
Na seara do etanol, a Kenana, que já produz o combustível em uma fábrica com maquinário e equipamentos fornecidos pela brasileira Dedini, quer ampliar a capacidade, que atualmente é de 65 milhões de litros. O Sudão vende o álcool para a União Europeia.
No Sudão, um dos principais problemas é conseguir financiamento. Segundo Mardi, projetos de menor porte até conseguem dinheiro local, mas para os maiores a solução é buscar em instituições de outros países, como os árabes do Golfo e a China. Há forte presença de chineses em Cartum.
Parceria verde e amarela
Para os projetos de expansão, os acionistas da Kenana devem arcar com US$ 500 milhões e o restante a empresa pretende conseguir por meio de financiamentos externos, inclusive crédito para exportação do Brasil.
“Queremos fazer parte do projeto de [financiamento] de exportações do Brasil”, declarou o executivo. Dessa maneira, a companhia espera conseguir comprar máquinas, equipamentos e até sementes brasileiras. Esse comércio já ocorre, até porque existem brasileiros atuando na agricultura sudanesa, mas em pequena escala.
Ainda no Brasil, a Kenana, segundo Mardi, está conversando com o grupo Odebrecht com vistas a construir um terminal marítimo em Port Sudan, no Mar Vermelho, e a produzir biodiesel de soja.
Paralelamente, a Kenana lançou, em parceria com a empresa egípcia Beltone, o fundo de investimentos agrícolas Mahaseel, que pretende captar US$ 1 bilhão para projetos no Sudão e no Egito. “É um fundo de participações, um novo mecanismo para financiar projetos”, disse Mardi. Um dos principais alvos de captação são os fundos soberanos.
Mas não é só da agricultura que o Sudão quer viver. O país é rico em recursos minerais, apesar da maior parte da produção petrolífera ter ficado para o Sudão do Sul após a separação dos dois países na metade deste ano.
De acordo com o presidente da Federação dos Empresários e Empregadores Sudaneses, Saud Al Breir, o país espera ampliar em breve suas exportações de ouro de 30 toneladas por ano para 74. Ele acrescentou que existem no Norte reservas de petróleo ainda não exploradas.
Outros itens que podem ser melhor aproveitados, em sua avaliação, são a goma arábica, tradicional no Sudão, e o hibisco, ou karkadê, flor com a qual se prepara um chá muito apreciado na região, especialmente no Egito. Dizem os egípcios que é bom para tratar vários tipos de doenças.
“O Sudão não é o Eldorado, mas é um país rico em recursos minerais, tem água em abundância e uma localização estratégica”, observou o embaixador brasileiro em Cartum, Antonio Carlos do Nascimento Pedro.

