São Paulo – A 443 dias do jogo de abertura, a Copa de 2014 tem projetos atrasados e com irregularidades para ser solucionadas. Obras de mobilidade urbana já foram canceladas ou simplificadas, orçamentos de estádios estouraram e o principal argumento para sediar a Copa fica ameaçado: o legado. Por outro lado, os estádios e obras viárias já começam a induzir o crescimento do seu entorno em algumas das 12 cidades-sede.
O secretário-geral da organização não-governamental Contas Abertas, Gil Castello Branco, diz que já é certo que a Copa de 2014 deixará como legado “uma manada de elefantes brancos”, ou seja, os estádios. Como legado positivo e “indireto” ele cita as concessões dos aeroportos. Há ainda a oportunidade de deixar bons resultados nos projetos do segundo e do terceiro ciclos de planejamento da Matriz de Responsabilidades, documento estabelece compromissos de estados e municípios com ações referentes à competição. Estes ciclos preveem investimentos em telecomunicações, infraestrutura turística e saúde, entre outros.
“Estamos produzindo uma manada de elefantes brancos encabeçada pelo estádio de Brasília, uma cidade que não tem a cultura do futebol. Brasília também não é parte dos grandes shows que são realizados no Brasil. É improvável que este estádio seja ocupado por eles. Será um estádio com 75 mil lugares e um custo de quase R$ 1,5 bilhão”, diz. “Tivemos alguns poucos avanços, como as concessões dos aeroportos, que é um legado indireto”, diz Castello Branco.
Coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, Paulo Resende torce para “queimar a língua”, mas acredita que o Brasil terá um legado restrito da Copa do Mundo. Segundo Resende, projetos que deveriam realmente levar o desenvolvimento ao país foram simplificados para ficar prontos até o evento.
É o caso, por exemplo, dos terceiros terminais dos aeroportos de Guarulhos, em São Paulo, Galeão, no Rio de Janeiro, e Confins, em Minas Gerais, que serão apenas provisórios. Em outros casos, obras de linhas de metrô foram canceladas ou substituídas por corredores de ônibus. Trajetos que ligariam aeroportos a cidades foram postergados para outra ocasião.
“Em 2010, a euforia pela realização da Copa diminuiu, os recursos e o tempo ficaram escassos e os projetos sofreram um downgrade (rebaixamento)”, diz Resende. Mesmo com os problemas que se apresentam, ele acredita que o Brasil terá ao menos um grande legado. O País vai mostrar ao mundo as oportunidades de investimento que oferece. “Será a região mais promissora do mundo para investimentos. É um legado estratégico”, diz.
Razões para otimismo
O último relatório sobre o cumprimento das metas feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) foi divulgado em dezembro de 2012 e identificou irregularidades nos projetos contratados e estádios com custo acima do previsto.
O Estádio Nacional de Brasília terá capacidade para 70 mil pessoas e orçamento inicial de R$ 745,3 milhões. A última previsão orçamentária indica que ele não ficará pronto por menos de R$ 1,3 bilhão e, segundo o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), foram encontrados R$ 72 milhões em irregularidades na compra dos materiais para a cobertura do estádio.
Entre as obras de mobilidade, apenas o primeiro trecho do monotrilho de São Paulo continua na Matriz de Responsabilidades. Ele irá integrar a linha 17-ouro do metrô e nesta etapa, que ficará pronta em maio de 2014, irá ligar o aeroporto de Congonhas até estação Morumbi do sistema de trens. Outras duas etapas foram adiadas para 2015.
O Maracanã, no Rio de Janeiro, está sendo reformado e é o estádio que mais preocupa a Federação Internacional de Futebol (Fifa). As obras têm três turnos de operários e a entrega dele já foi adiada diversas vezes. A última delas, no começo de março, prevê que o primeiro jogo-teste, sem torcida, será em 28 de abril. Com torcida, só em maio.
O relatório do TCU detalha a situação de cada projeto. No levantamento divulgado em dezembro, a previsão é que a organização da Copa custará R$ 29,320 bilhões. Segundo a instituição, suas fiscalizações já resultaram em uma economia de R$ 600 milhões.
Ministro relator do levantamento “O TCU e a Copa do Mundo de 2014”, Valmir Campello afirmou à ANBA que a organização da Copa está deixando diversos legados ao Brasil. Ele cita os investimentos em portos, aeroportos, mobilidade urbana, segurança, infraestrutura turística e estádios. Observa que o país está comprando equipamentos para telecomunicações, investindo em treinamento de pessoal, em armamento não letal e helicópteros. Equipamentos que deixarão um “espólio positivo”.
“O evento deixará, além de todo investimento palpável, um ganho incomensurável de aprendizado, em uma cultura de resultados. Um país emergente como o nosso, afinal, requer massivos investimentos; e rápidos. Nesse sentido, houve um despertar de uma ‘fome’ de aplicações vultosas para ampliar nossa capacidade de crescimento”, afirma o ministro.
Campello também afirma que as irregularidades encontradas até o momento não correspondem necessariamente à corrupção, mas na dificuldade do gestor público em administrar grandes quantias e projetos. “Os responsáveis governamentais, ao reconhecer a justeza dos apontamentos do Tribunal, imediatamente acolheram as recomendações e corrigiram esses eventuais desacertos”, afirma.
Mesmo assim, o ministro reconhece que há riscos de que algumas obras deem dor de cabeça até depois da Copa, pois o Senado Federal abriu exceção para estados e municípios aumentarem seu teto de endividamento com bancos e credores para executar obras relacionadas à Copa.
“Se as obras não ficarem prontas a tempo, elas não serão mais, óbvio, para a Copa. Portanto, um novo enquadramento bancário será necessário, com a possibilidade de interrupção do fluxo financeiro que irriga os empreendimentos. Neste caso, apesar de baixo, pelo menos em tese, existe algum risco de obras paralisarem”, afirma. Ele ressalta que, pelas análises do TCU, isso não deverá acontecer com os estádios. Já as obras de mobilidade urbana merecem um acompanhamento detalhado. “E estamos atentos”, avisa.
Indutores do crescimento
Diretor de Marketing do Portal 2014, do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco), Rodrigo Prada também afirma que o governo brasileiro perdeu a oportunidade de se preparar melhor para o evento e deixar à população um legado ainda mais positivo do que aquele que se espera agora. Mas Prada afirma que em algumas cidades do Brasil as obras públicas para a Copa estão gerando oportunidades e podem transformar uma cidade. É o que ocorre, por exemplo, em Recife.
“De forma geral, alguns setores estão melhorando. O Nordeste, por exemplo, terá cinco sedes e o PIB da região está crescendo porque a Copa traz investimentos. Se não fosse a Copa, talvez demorasse 15, 20 anos para que a região crescesse o que está crescendo agora. No Recife, por exemplo, há a Cidade da Copa, que é para onde a cidade cresce. É onde está o estádio e para onde estão indo escolas, shopping, empreendimentos imobiliários. O projeto vai fazer a cidade crescer”, afirma Prada.
Resende também reconhece que a construção de estádios, que a atração de turistas para as cidades-sede serão indutores do crescimento, mas afirma que seus administradores terão que se esforçar para atrair o crescimento. “É preciso induzir o crescimento. Os estádios, por exemplo, poderão ser arenas multiuso, que poderão atrair jogos de futebol, shows musicais ou eventos religiosos, que se expandem muito pelo Brasil. Isso diversifica a cadeia produtiva.”
Prada lembra que Barcelona, cidade espanhola que recebeu os Jogos Olímpicos de 1992, aproveitou o evento para se reinventar e que anos após a competição continuou a se beneficiar de investimentos. Ele acredita que com o Brasil poderá ocorrer o mesmo. “Em Barcelona muitos projetos apareceram cinco anos depois. Se em 2016 olharmos para 2007 teremos visto uma transformação impressionante proporcionada não apenas pela Copa.”


