São Paulo – O Brasil vai bater este ano um recorde nas exportações de produtos lácteos. Segundo avaliação da analista da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Maria Helena Fagundes, feita com base em projeções de entidades do setor, deve ser embarcado o equivalente a 1 bilhão de litros de leite, resultando em uma receita de até US$ 750 milhões.
No primeiro semestre as vendas externas renderam US$ 226,8 milhões, sendo que no ano passado inteiro as exportações somaram US$ 263 milhões. “A tendência é de que no segundo semestre as exportações aumentem ainda mais. Isso ocorre com o comércio exterior em geral, há um aumento da demanda por causa das festas de fim de ano e do frio no Hemisfério Norte”, disse Maria Helena à ANBA.
Os números incluem itens como leite em pó integral, leite condensado, creme de leite, leite evaporado, manteiga, queijos, entre outros. O leite em pó e o condensado, segundo a analista, respondem por 75% das exportações. As importações de produtos do ramo, de acordo com ela, devem somar cerca de US$ 200 milhões no ano, o que vai resultar em um superávit de US$ 550 milhões ao Brasil.
A participação do país no comércio mundial do setor ainda é pequena, não chega a 2%, segundo Maria Helena. Mas é preciso lembrar que durante muito tempo a balança de lácteos foi deficitária para o Brasil. Com a abertura da economia nacional no início dos anos 90 grandes multinacionais passaram a operar no mercado local e, até 2002, não havia regras para impedir a entrada de produtos importados subsidiados na origem.
“Os lácteos são os produtos mais subsidiados do mundo. Nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) grande parte dos US$ 1 bilhão gastos por dia em subsídios vai para esse setor”, afirmou Maria Helena. Foi após o Brasil adotar medidas antidumping e firmar compromisso de preços com seus parceiros do Mercosul que a indústria nacional passou a reagir.
A balança começou a ser superavitária a partir de 2003, com exceção de 2006, quando houve novamente um déficit por conta do baixo preço pago aos produtores, que inibiu um crescimento mais forte da produção.
Hoje, de acordo com a analista, a cenário internacional é favorável ao Brasil, uma vez que grandes fornecedores mundiais, como Austrália e Nova Zelândia, têm pouco excedente exportável, em parte por causa da seca. A União Européia, outro produtor de peso, tem direcionado seus produtos ao mercado interno, especialmente aos novos membros do Leste que passam por um momento de rápida expansão econômica.
Além disso, afirma Maria Helena, o aumento dos preços dos insumos, principalmente matérias-primas para ração animal, encarece o custo de produção em países da Europa. No Brasil, boa parte do rebanho é criada a pasto, embora haja pressão de custos também com a elevação do valor de adubos para o pasto, dos sais minerais para complementar a alimentação do gado e dos combustíveis para o transporte dos produtos.
Ela acrescentou que países como Nova Zelândia e Austrália têm investido mais na exportação de produtos acabados e menos na de mercadorias básicas, o que permite ao Brasil e a outros fornecedores “emergentes”, como Argentina e Uruguai, ampliar e manter seus espaços no mercado internacional. “Não creio que esse seja somente um movimento acidental”, declarou Maria Helena.
Hoje o Brasil produz cerca de 30 bilhões de litros de leite por ano, sendo que as exportações representam somente 3% desse total. Para a analista, o Brasil tem condições de suprir a demanda crescente, mas o comportamento do mercado no longo prazo vai depender de variáveis como a quantidade produzida em outras nações exportadoras, os custos dos insumos e os preços pagos aos produtores.
Ela diz, no entanto, que dificilmente a balança comercial do setor vai recuar dos patamares atuais. “Creio que essa situação veio para ficar, como ocorreu com outros produtos agropecuários”, declarou. “O Brasil está se firmando para ser um grande exportador de lácteos”, acrescentou.
Mercados
O Brasil exporta leite e derivados para mais de 100 países, sendo que entre os principais destinos estão na América Latina, África e Oriente Médio. Os árabes são um mercado importante. “Desde que as exportações começaram a ganhar força os árabes demandam produtos brasileiros e permanecem como clientes importantes”, afirmou Maria Helena.
Os países da região importaram o equivalente a US$ 48,5 milhões em produtos lácteos do Brasil no primeiro semestre, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
No caso do leite em pó integral, por exemplo, Sudão, Argélia, Mauritânia e Arábia Saudita aparecem, respectivamente, na 3ª, 5ª, 6ª e 8ª posições no ranking dos maiores compradores do Brasil. A Tunísia é o 4° maior mercado do creme de leite. O Egito, Iêmen e Kuwait são, nessa ordem, os três principais importadores de manteiga, e a Arábia Saudita é a 2ª maior compradora de mussarela.

