São Paulo – Bem longe do Brasil, no continente africano, um pequeno Abdel e uma pequena Samira vêem seus familiares envolvidos em uma briga de tribos. Ali é Darfur, Sudão. Ao lado, no país vizinho, pequenas Ayanas e Dawits da Etiópia perderam tios e pais em uma disputa por território com a Eritréia. No Rio de Janeiro, Anas e Pedros menores de idade têm os pais envolvidos no tráfico de drogas e a perda de pessoas próximas por assassinato é comum. Todas essas crianças, na África ou no Brasil, têm algo mais em comum, além da convivência diária com a violência: a dificuldade de aprender.
Uma brasileira, carioca, chamada Yvonne Bezerra de Mello, esteve no Sudão, na Etiópia, em Angola, nos viadutos do Rio de Janeiro, e criou uma maneira de fazer com que crianças, expostas a situações de violência, aprendam tanto quanto aquelas que têm família estruturada, amor, carinho e dinheiro. O método pedagógico, chamado Uerê-Mello, começou a ser criado durante as andanças de Yvonne pela África nos anos setenta. Na época ela morava na França e viajava à África para trabalhar como intérprete. “Comecei a me interessar pelos problemas de aprendizado das crianças de países pobres”, diz Yvonne.
Sem fazer parte dos estudos da graduação em Letras que levava adiante na Universidade Sorbonne, em Paris, a carioca fez uma profunda pesquisa sobre o tema. Voltou ao Rio de Janeiro, no começo dos anos 80, e ali continuou a inventar a sua maneira diferente de ensinar, desta vez, porém, convivendo com as crianças nas ruas do Rio de Janeiro. Da criação da primeira sala de aula, embaixo do Viaduto Leopoldina, no Rio, até hoje, quando o projeto é desenvolvido em uma escola para 430 crianças, foram-se dezesseis anos.
O método de Yvonne não tem grandes segredos. O foco é trabalhar com a dificuldade de memorização das crianças em função de bloqueios causados pela convivência com a violência. São usadas técnicas simples, como o tempo menor, de quinze minutos, para dar cada conteúdo. A variação dos temas torna o cérebro do aluno mais ágil. Também são aplicados exercícios orais, antes dos escritos, o que auxilia na retenção do conhecimento. A interatividade, nas aulas, é prioridade. Não existe mesa para o professor e as crianças não copiam do quadro-negro, só respondem as questões em seus cadernos.
"No começo da aula temos uma conversa. Perguntamos como foi o dia da criança, o que aconteceu de legal, o que ela comeu, como foi feita a comida, o que ocorreu com o pai e a mãe. É uma mesa-redonda, fazemos com que criança ponha seus medos para fora", diz Airton Ribeiro, um dos professores do projeto. De acordo com Ribeiro, a diferença observada no desenvolvimento das crianças em relação aos alunos das escolas públicas é visível. A escola fica na comunidade Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, um conjunto de favelas na zona norte da cidade do Rio de Janeiro.
"Aqui no (projeto) Uerê eu aprendo mais rápido e mais coisas", diz Maria, de 10 anos. A menina entrou na escola em 2006, depois de ter passado pela escola pública. Ela afirma que prefere o Uerê e acredita que aprendia menos na escola pública por dois motivos: “no colégio público eu não prestava tanta atenção (na aula) como aqui, tinha muita gente falando”, explica. Segundo Maria, a maneira com que os professores ensinam, na sua atual escola, também é muito mais interessante.
Igualdade de intelecto
Os alunos do projeto Uerê são, em maioria, crianças de áreas de risco. São menores que estão próximos ao tráfico de drogas, em áreas de conflitos de facções, como Comando Vermelho e Terceiro Comando, que vêem pessoas sendo assassinadas, ações violentas da polícia, atuação de bandidos, quando não têm pais alcoólatras, drogados, ou passaram por abusos e agressões domésticas. Yvonne abraçou a causa destes pequenos querendo dar a eles a chance de serem “grandes”. “Todo mundo fala da pobreza, mas não fala das diferenças de classes via intelecto”, explica a carioca.
O professor Ribeiro, que acompanha Yvonne há cerca de dez anos, desde que ela trabalhava nas ruas, conta casos de alunos que entraram no projeto desestruturados e hoje são adolescentes bem resolvidos. Ele lembra de uma das meninas, que chegou na escola aos seis anos, com pai e mãe drogados, e deu muito trabalho. “Ela não tinha limites”, diz. Hoje adolescente, a menina é uma estagiária exemplar em uma grande rede de hotéis no Rio. “Muitos já estão fazendo faculdade”, fala o mestre. A escola recebe crianças de quatro a 18 anos, desde a Pré-Escola até o Ensino Médio. Elas aprendem sete línguas.
A metodologia Uerê-Mello vai começar a ser implantada, neste ano, em 150 escolas públicas do Rio de Janeiro que ficam em zonas de risco. Yvonne vai começar a qualificar os profissionais dos colégios no mês de maio. Ela também vai lançar, pela editora Senac, um livro sobre a sua metodologia. O método Uerê-Mello ainda não foi levado a outros países, mas a sua autora gostaria de que fosse. “A minha idéia é ajudar o maior número de crianças possível”, diz. O projeto Uerê vive com doações, a maior parte do exterior.

