Isaura Daniel, enviada especial
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Petrolina – Dos 26 estados brasileiros, dez possuem áreas de semi-árido, região de caatinga onde as chuvas são raras e irregulares. Mesmo assim estes estados produzem uma diversidade de alimentos que vai desde as frutas, o milho, o feijão e o sorgo até a carne e o leite de ovinos, caprinos, bovinos. Os anos de seca que enfrentaram essas regiões, alguns nos quais a chuva não incidiu mais do que cinco dias, fez o Brasil se tornar um especialista em produzir em terras de água escassa. E agora o país está levando também para outros países a sua experiência em manejar a água rara para plantar e colher.
Neste ano, a Empresa Brasilera de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vai ensinar aos moçambicanos, na África, a tecnologia da barragem subterrânea. A solução é simples. "Você faz uma valeta, coloca nela um material impermeabilizante", explica a pesquisadora de Recursos Hídricos da unidade Semi-árido da Embrapa, Luiza Teixeira de Lima Brito. A vala é vertical. O material impermeabilizante, que pode ser uma lona, é firmado na terra por argamassa. Depois o buraco todo é coberto com cimento. A obra, semelhante a um muro subterrâneo, deve ser feita ao lado da lavoura e vai reter a água da chuva por mais tempo na área de plantio.
De acordo com levantamento feito na Embrapa, existem ao redor de 200 barragens subterrâneas nos estados da Paraíba, Pernambuco e Bahia. Uma delas está no interior de Afrânio, na propriedade do produtor José dos Santos. "Ela mantém a água na área de plantação", explica Santos. A barragem, de 160 metros de largura, beneficia uma área de cerca de dois hectares. Ali, o agricultor e pecuarista de Afrânio planta capim para as suas criações de bovinos, ovinos e caprinos, arroz, maracujá, melancia, macaxeira, banana, goiaba e manga. A lavoura de milho, que não fica na área imediatamente próxima à barragem, também foi favorecida pela tecnologia. "O milho deu melhor", diz Santos.
Em Moçambique, os profissionais da Embrapa também vão falar sobre as cisternas, sistema pelo qual é feita a captação da água da chuva para uso doméstico em zonas rurais. A água cai do telhado da casa para um reservatório, de onde, mais tarde, é tirado pela família com bomba manual. Em alguns casos, essa água é usada também para matar a sede dos rebanhos.
A chuva, no semi-árido, é concentrada em poucos dias, e tanto as barragens subterrâneas quanto as cisternas permitem que ela seja armazenada para uso em um período mais extenso. Se não for guardada ela se perde, já que o solo, na região, é raso até alcançar a rocha e a água escoa e vai embora. As tecnologias, explica Luiza, não são novas, mas foram adaptadas e difundidas por instituições como a Embrapa.
A Embrapa, aliás, levou estas técnicas de conservação de água em regiões de seca para o Haiti, no ano passado, e em anos anteriores em países como Guatemala, Peru, Honduras e Panamá. Os repasses de informações a outras regiões do mundo normalmente são feitos por meio de convênios entre os governos do Brasil e do país parceiro. "A Embrapa é destaque na agricultura tropical e muito deste conhecimento está sendo apropriado por outros países. O manejo de água, na Embrapa Semi-Árido, é uma das áreas que mais desperta interesse internacional", diz o chefe geral da unidade, Pedro Carlos Gama da Silva, doutor em Economia Aplicada.
O uso das barragens subterrâneas devem ser difundir no semi-árido brasileiro nos próximos anos. A organização Articulação no Semi-Árido (ASA) começou a executar, há três meses, um projeto piloto chamado Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), para expandir o uso de tecnologias de retenção de água para produção em regiões de seca no Brasil. Ele é um complemento de um outro programa, o Um Milhão de Cisternas (P1MC), que começou a ser levado adiante em 2003 e ajudou na construção de 195,441 mil cisternas no semi-árido, Maranhão e Espírito Santo. No P1+2 também deve ser difundido o uso de barreiros de salvação, pequenas represas para retenção de água de chuva, e uso posterior na lavoura.
Irrigação
A irrigação também vem sendo usada no semi-árido brasileiro, principalmente em áreas de fruticultura. Ela, porém, não é, segundo pesquisadores, a solução mais adequada para as regiões de seca. "É o caminho mais curto para resolver o problema da produção no semi-árido, mas tem suas limitações, uma delas a disponibilidade de água. E nem todos os solos são irrigáveis. Quando combinados estes dois fatores, as áreas próprias para irrigação são muito pequenas", diz Gama.
O custo da irrigação, no caso de algumas culturas, como feijão e milho, não compensa, segundo o chefe da Embrapa Semi-Árido. Tanto que normalmente as áreas irrigadas do semi-árido são de fruticultura de mesa, produto que tem um valor agregado maior do que as frutas comuns. É o caso da região do Vale do Rio São Francisco, onde há uma grande produção de uva.
O semi-árido está presente em oito estados do Nordeste brasileiro, que são Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, além do norte do estado de Minas Gerais e uma parte do Espírito Santo. A região é formada por 100 milhões de hectares e tem o seu centro geográfico nos municípios de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia. Vivem no semi-árido brasileiro ao redor de 30 milhões de pessoas.

