Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje (30) a entrada da Síria na Organização Mundial do Comércio (OMC). “Defendemos o fim dos entraves que impedem a acessão da Síria à OMC”, afirmou Lula, durante almoço oferecido ao seu colega sírio, Bashar Al Assad, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Assad está em visita oficial ao Brasil.
Recentemente o governo dos Estados Unidos levantou o veto que mantinha à entrada do país árabe na organização. A Síria se candidatou a membro do órgão em 2001. Apesar do fim do veto, os EUA ainda mantêm sanções comerciais unilaterais contra Damasco.
As sanções foram impostas durante o governo do ex-presidente norte-americano George W. Bush e atingem diretamente uma das principais políticas de reformas do governo de Damasco, que é o processo de abertura econômica implementado nos últimos 10 anos.
Lula destacou que “a capacidade de transpor barreiras e compartilhar experiências é o impulso maior do nosso relacionamento”. Ele ressaltou que a viagem de Assad sela uma parceria lançada em 2003, quando o presidente brasileiro visitou Damasco.
“Temos uma aliança assentada em números sólidos. O comércio quadruplicou e hoje alcança US$ 300 milhões”, afirmou. “Essa tendência é de crescimento com um sistema multilateral de comércio mais representativo dos anseios do mundo em desenvolvimento”, acrescentou. Daí a defesa do ingresso da Síria na OMC.
Lula disse ainda que a criação do Conselho Empresarial Brasil-Síria “abre oportunidades para multiplicar o comércio e estimular os investimentos”. O conselho, que está em formação, é presidido, pelo lado brasileiro, pelo presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin.
Assad, por sua vez, disse que, na reunião fechada que teve com Lula, propôs estudar a possibilidade de um acordo de livre comércio entre seu país e o Mercosul. O bloco sul-americano já negocia tratados do gênero com vários países árabes, sendo que as negociações mais avançadas são as com o Egito.
“Esse foi um dos pontos que eu levantei com o presidente Lula e creio que isso pode ajudar a ampliar as relações bilaterais e [da Síria] com a América Latina [em geral]”, declarou o presidente sírio. Hoje os dois governos firmaram acordos nas áreas jurídica, agrícola, de saúde e de cooperação técnica.
Mediação
Assad aproveitou para agradecer as posições do Brasil sobre os conflitos no Oriente Médio, contra a guerra no Iraque, a favor da criação do estado palestino, na negociação de um acordo sobre o programa nuclear do Irã e no apoio à devolução das Colinas do Golã à Síria. O território foi ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Sobre o acordo negociado por Brasil e Turquia com o Irã, em maio, Assad disse que se trata de “um ponto principal” para solucionar o problema do programa nuclear do Irã pela via da negociação, sem guerra. “[O acordo] abriu o caminho para uma solução pacífica”, destacou. O tratado não impediu, porém, a adoção de novas sanções contra o Irã pelo Conselho de Segurança da ONU.
O presidente sírio acrescentou que seu país fez esforços para alcançar a paz com Israel e resolver o impasse do Golã, sendo que a última tentativa foi feita por intermédio da Turquia no final de 2008. “Mas Israel sempre põe algum empecilho”, disse.
O assessor especial de Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse, em entrevista, que os dois presidentes falaram sobre a questão do Golã na reunião. Ele acredita que o Brasil pode ter participação nessa negociação, pois apóia a proposta síria de troca de territórios por paz, ou seja, a devolução da área levaria à normalização das relações com Israel.
“Temos confiança de que essa proposta é perfeitamente aceitável para o governo de Israel”, declarou Garcia. Ele acrescentou que o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, deve vir ao Brasil em agosto e que “esta será uma boa ocasião para levar adiante este diálogo”.
Aos jornalistas, Lula disse apenas que a reunião com o presidente sírio “foi extraordinária”. “Eu acho que tem muita coisa para acontecer no mundo e nós queremos participar”, destacou.
Antes, no almoço, Lula reiterou que o Brasil quer “ser parceiro” do processo de paz no Oriente Médio. Nesse sentido, ele destacou que a Síria é “indispensável na busca da pacificação”. De acordo com Garcia, os dois presidentes concordaram que é preciso haver união entre os palestinos para que haja paz com Israel. A Síria, em sua avaliação, tem influência sobre grupos palestinos e pode ajudar as facções rivais, Fattah e Hamas, a chegar a um acordo.
Garcia disse também que há a expectativa de que o Brasil continue a atuar como incentivador de negociações no Oriente Médio. Assad defendeu ainda um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

