Alexandre Rocha
São Paulo – O ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação do Marrocos, Mohamed Benaïssa, reuniu-se ontem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. De acordo com o embaixador Pedro Motta, chefe do Departamento da África do Itamaraty, a conversa girou em torno do aumento da cooperação entre os países em desenvolvimento, falou-se inclusive da possibilidade de assinatura de um acordo de livre comércio entre o Marrocos e o Mercosul.
"Trata-se de uma tentativa de estabelecer um novo tipo de relacionamento, elevá-lo a um novo patamar", disse Motta, segundo quem o diálogo deve evoluir para "negociações" entre o Mercosul e o país do Norte da África.
Dentro desse contexto, de acordo com Motta, Benaïssa, que entregou a Lula uma mensagem do rei marroquino Mohammed VI, disse que o governo de seu país tem "idéias absolutamente coincidentes" com as das autoridades brasileiras sobre a realização da reunião de cúpula entre os países árabes e da América do Sul, programada para ocorrer em dezembro no Brasil.
Segundo o embaixador, o ministro marroquino disse que seu governo achou uma "ótima idéia" a iniciativa de Lula em organizar o encontro e ressaltou que é "necessário trabalhar um processo preparatório adequado". "Ele disse que o Brasil pode contar com o Marrocos no processo preparatório e na conferência em si", destacou Motta.
De acordo com o diplomata, Lula ressaltou a importância da "solidariedade" entre os países em desenvolvimento. "A solidariedade entre os países em desenvolvimento é uma das questões da cooperação sul-sul que é preciso enfatizar. Os países pobres devem se apoiar mutuamente e buscar as possibilidades de comércio entre si", disse Motta. "O presidente falou muito em mudar a geografia comercial do mundo", acrescentou.
Recentemente o governo brasileiro enviou mais de uma tonelada de medicamentos para o tratamento dos feridos no terremoto que atingiu a região norte do Marrocos no final de fevereiro.
Motta acrescentou que o ministro marroquino reiterou que seu governo apóia os pleitos do Brasil no âmbito do G-20, grupo de países em desenvolvimento que lutam na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra barreiras, impostas pelos países ricos, às importações de produtos agrícolas.
Além disso, sempre segundo Motta, Benaïssa disse que seu país apóia também as idéias defendidas pelo governo brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU), principalmente no Conselho de Segurança, além das propostas de projetos de combate à fome e à miséria feitas pelo presidente Lula junto ao órgão.
Ele acrescentou que foi discutida também a possibilidade de cooperação bilateral na área da habitação popular. A idéia é passar para os marroquinos o know-how adquirido pela Caixa Econômica Federal em vários anos financiando a casa própria do brasileiro. Tal projeto pode até, segundo o embaixador, envolver investimentos brasileiros no Marrocos no futuro.
Lula e Benaïssa conversaram também sobre cooperação na área da reforma agrária. De acordo com Motta, o Ministério do Desenvolvimento Agrário já vem fazendo parcerias com outros países africanos.
Nem todos os assuntos foram discutidos, mas Motta acredita ser possível uma maior aproximação dos dois países no turismo também. De acordo com ele, o Brasil e o Marrocos são "complementares" no setor. Ele acredita na possibilidade de reabertura de uma linha aérea direta unindo as duas nações, como já existiu no passado pela Air Marroc.
Na área cultural, o embaixador enfatizou que o Brasil "faz questão de aprofundar as relações". Tanto isso é verdade que, à tarde, Benaïssa teve uma reunião com o ministro da Cultura, Gilberto Gil.
Ele teve ainda um encontro com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, e seria recebido ainda pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que ofereceria um jantar em homenagem ao colega marroquino, para o qual foi convidado o secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), Michel Alaby.
De acordo com a assessoria de imprensa do Itamaraty, os governos dos dois países estão empenhados em aprofundar as relações bilaterais e multilaterais. Prova disso foram as visitas feitas recentemente ao Brasil por outras autoridades do país árabe, como o ministro do Meio Ambiente, Mohamed El Yazghi, e o ministro da Habitação e Urbanismo, Ahmed Taofiq Hejira. Na outra ponta, o embaixador Álvaro Gurgel de Alencar esteve no Marrocos, como enviado do presidente Lula, para convidar o rei a participar da cúpula entre árabes e sul-americanos.
Monarquia parlamentarista
O Marrocos está localizado no noroeste da África, faz fronteira com a Argélia a oeste, com a Mauritânia ao sul e está separado da Europa pelo estreito de Gibraltar. A maioria da população, de 30,5 milhões de pessoas, é composta por árabes (70%), e o restante (30%) são berberes.
Trata-se de uma monarquia parlamentarista, tendo o rei Mohammed VI como chefe de estado e o primeiro-ministro Driss Jettou como chefe de governo. O Produto Interno Bruto (PIB) do país é de US$ 47,8 bilhões (2003). As principais indústrias são a de produtos minerais, alimentícios e têxteis.
No ano passado o Brasil exportou o equivalente a US$ 226,5 milhões para o país do Norte da África, sendo que açúcar, soja e milho foram os principais itens da pauta. As importações, por sua vez, somaram US$ 202 milhões, sendo fertilizantes e naftas os principais produtos.
Este ano novos produtos entraram na pauta. O Brasil exportou em janeiro e fevereiro quase US$ 65 milhões para o Marrocos, sendo que o trigo foi o principal item enviado (US$ 23, milhões), produto que o Brasil só começou a exportar no final de 2003.
As importações em janeiro e fevereiro foram bem menores, US$ 8,48 milhões. Mas as sardinhas marroquinas congeladas passaram a figurar em terceiro lugar na pauta (US$ 1,2 milhões).
O último compromisso oficial de Benaïssa no Brasil será um encontro hoje pela manhã com o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha. Ele segue depois para o Chile e para a Argentina.

