Riad – O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse neste domingo (17), ao final de sua visita de dois dias à Arábia Saudita, que propôs ao rei Abdullah Bin Abdulaziz Al Saud que os dois países busquem conjuntamente oportunidades de investimentos recíprocos. “Fizemos essa viagem num momento importante, sobretudo por causa da crise”, disse ele, em entrevista coletiva realizada na residência do embaixador brasileiro, Sérgio Canaes.
Lula se reuniu com o rei na noite de sábado e, segundo relato do presidente, conversaram durante duas horas. “Minha proposta ao rei é que descubramos oportunidades de investimentos”, afirmou. Em sua avaliação, sua visita e viagens de autoridades sauditas que devem ocorrer futuramente, criam a possibilidade de se “recuperar o tempo perdido na relação”, entre as duas nações.
Embora tenha ressaltado o forte aumento no comércio bilateral nos últimos anos, Lula declarou que “pelo potencial econômico dos dois países existem muito mais possibilidades”. Como exemplo, ele citou programa de desenvolvimento saudita que prevê investimentos de US$ 800 bilhões até 2020 em áreas como a indústria, infraestrutura, serviços, educação e a construção de quatro “cidades econômicas”.
Para Lula, os projetos sauditas representam oportunidades de comércio e investimentos para empresas brasileiras em diferentes áreas, como construção civil, petroquímica, indústria pesada, educação e ciência e tecnologia.
Ele destacou o ramo petroquímico, que pode ser alvo de futuras parcerias. A Arábia Saudita tem 25% das reservas mundiais de petróleo e o Brasil deverá ampliar consideravelmente sua produção da commodity com a entrada em operação, nos próximos anos, de poços descobertos recentemente em águas ultra profundas, na chamada camada pré-sal, no litoral sudeste do país.
Na opinião do presidente, empresas brasileiras e sauditas podem se unir para tocar empreendimentos de grande porte no setor em ambos os países, já que detêm a matéria-prima e o conhecimento para a produção de petroquímicos. “Hoje esse mercado é dominado por Estados Unidos, Europa e Japão”, afirmou, acrescentando que “se concretizarmos negócios”, projetos binacionais entre Brasil e Arábia Saudita podem surgir como uma nova potencia no ramo.
“O Brasil não deseja ser exportador de petróleo, deve construir grandes refinarias e exportar derivados com maior valor agregado”, disse o presidente. “A Arábia Saudita não quer exportar só petróleo, quer investir em ciência e tecnologia para exportar produtos com maior valor agregado”, afirmou ele antes, em discurso durante almoço na Câmara de Comércio e Indústria de Riad.
Questionado por um jornalista saudita sobre o eventual interesse do Brasil na exploração de jazidas minerais existentes na Arábia Saudita, o presidente disse que a Companhia Vale do Rio Doce, segunda maior mineradora do mundo, e uma empresa privada, “tem todas as condições” de explorar minérios no país. Além do petróleo, o subsolo saudita tem reservas de ouro, minério de ferro, cobre, fosfatos, prata, urânio, bauxita, carvão, tungstênio e zinco.
Na mesma linha, Lula lembrou que o Brasil tem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prevê investimentos de US$ 300 bilhões em infraestrutura. Além da petroquímica, o presidente afirmou que as empresas sauditas podem investir no Brasil em setores como o agronegócio e a construção civil.
Para viabilizar investimentos no setor produtivo ele sugeriu que se países como Brasil e Arábia Saudita, ao invés de aplicarem suas reservas monetárias em títulos do Tesouro norte-americano, construírem fábricas, investirem em ciência e tecnologia, universidades e na produção de alimentos “certamente em 20 ou 30 anos serão infinitamente melhores do que hoje”.
“O mundo não protegerá quem não tiver coragem de ousar”, disse ele na Câmara de Riad. “É importante tomar iniciativas para superar a crise a sair dela mais fortalecido”, declarou. Durante a entrevista coletiva, o presidente acrescentou que num momento de crise os países precisam de novos investimentos para fazer a economia rodar.
No mesmo sentido, ele afirmou que a ampliação do comércio internacional na crise “será uma grande política anticíclica”, e que conta com a Arábia Saudita como nova aliada para a conclusão da Rodada Doha na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Palestina
No encontro com o rei, Lula ainda reiterou o apoio do Brasil à proposta saudita para a paz entre Israel e a Palestina, encampada pela Liga Árabe em 2002. Pela iniciativa seriam criados dois estados independentes com base nas fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Ele voltou também a colocar o Brasil à disposição para auxiliar na resolução do conflito e afirmou que o novo presidente norte-americano, Barack Obama, poderá influir positivamente na questão, pois tem “a cabeça arejada e disposição para fazer coisas novas”. Lula lembrou, porém, que Obama assumiu a Presidência há pouco e que é preciso certo tempo “entre tomar posse e tomar conta da máquina”. “Cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”, disse.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, acrescentou que o Brasil mantém boas relações com as partes envolvidas no conflito e que “pode exercer uma influência positiva”. Prova disso, segundo ele, é que o novo chanceler de Israel, Avigdor Lieberman, já pediu para visitar o país.

