Alexandre Rocha
São Paulo – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou o aumento da relações comerciais com os países árabes como um exemplo de que a política externa de seu governo está no caminho certo e reafirmou o compromisso de continuar a intensificar os contatos com as nações em desenvolvimento.
"Muita gente não entendia porque nós fomos ao mundo árabe. Pois bem, nós viajamos ao mundo árabe, e hoje eu posso dizer para vocês que a relação comercial do Brasil com todos os países árabes cresceu, e a que cresceu menos cresceu 50% do ano passa para este ano", disse Lula sexta-feira (30), durante visita à Feira Internacional de Tecnologia Agrícola (Agrishow) em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.
Ele referiu-se às visitas que fez ao Líbano, Síria, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbia em dezembro de 2003 e respondeu aos críticos da série de viagens que incluiu outros países emergentes, como a África do Sul e a Índia.
"Eu resolvi que era preciso fazer com que o Brasil passasse a ser mais respeitado em lugares que a gente tinha pouco acesso", declarou o presidente.
De acordo com ele, durante a viagem ao mundo árabe sua comitiva mostrou que o Brasil "existe", que produz, que tem tecnologia e potencial turístico e que os árabes podem "fazer parcerias com os nossos empresários".
As exportações do Brasil para a região somaram US$ 892,2 milhões no primeiro trimestre de 2004, contra US$ 571 milhões no mesmo período do ano passado, o que significa um aumento de mais de 56%. No setor do agronegócio somente, as receitas dos embarques chegaram a US$ 647,7 milhões, ante US$ 331,8 milhões registrados nos primeiros três meses de 2003, um crescimento de mais de 95%.
Na avaliação do presidente da Câmara de Comércio Árabe- Brasileira, Paulo Sérgio Atallah, que acompanhou o presidente em sua viagem ao Oriente Médio e Norte da África, as exportações brasileiras para a região podem chegar a US$ 3,6 bilhões este ano, número que, se confirmado, representará um aumento de 30,5% em relação as receitas de 2003.
Compromisso
Lula garantiu que seu governo continuará trabalhando para impulsionar ainda mais as relações com os árabes, ao falar da reunião de cúpula entre os chefes de estado destas nações e da América do Sul, programada para ocorrer no final do ano no Brasil.
"Em dezembro vamos fazer uma coisa que nunca aconteceu no Brasil. Nós vamos fazer uma reunião entre todos os presidentes, reis, príncipes, xeques, e o que mais existir do mundo árabe aqui, no Brasil, para que a gente possa consolidar uma parceria entre o mundo árabe e o Brasil", declarou Lula.
Na opinião de Atallah, o presidente preocupou-se em fazer uma avaliação pragmática, sobre qual foi o resultado prático das ações de seu governo até agora. "E, mais do que isso, ele colocou o governo brasileiro em um processo que vai seguir adiante. Ele não dá o proceso como encerrado. Ele enfatizou que vem por aí a reunião de cúpula, dentro dessa determinação de continuidade e de crescimento das relações", disse.
"Vejo com muita alegria essa posição do governo, que é bem fundamentada e realmente de aproximação", acrescentou.
Alternativas
Na avaliação de Lula, o Brasil "tem um problema", que é o fato de as relações com seus principais parceiros comerciais (Estados Unidos e União Européia) estarem "mais ou menos no limite", e por isso precisa buscar alternativas.
"Quando nós tomamos posse, no ano passado, tivemos a primeira grande decisão, que era tentar fazer uma política externa mais agressiva, tentar juntar os pedaços que existiam de países ou conjunto de nações, que poderiam ter uma relação mais forte conosco e que estavam mais distantes", disse o presidente.
Nesse sentido, além dos esforços de aproximação com os árabes, Lula enfatizou o trabalho de integração da América do Sul, de revitalização do Mercosul e a "parceria estratégica" feita com a Índia e com a América do Sul.
Ele ressaltou também que no final do mês fará uma viagem à China, acompanhado de uma delegação de ministros e empresários e ressaltou que seu objetivo não é apenas fazer com que o Brasil venda mais no exterior, mas ampliar a corrente comercial como um todo.
"Numa relação comercial boa, a gente tem que vender e comprar, porque senão ninguém agüenta só comprar de nós", afirmou.
O presidente acrescentou que, "pela primeira vez", os países emergentes, e incluiu a Rússia nesse bloco também, estão vendo as relações do Brasil como estratégicas.
"Não é apenas uma simples relação comercial, eles estão descobrindo que a nossa briga com o mundo desenvolvido, a União Européia e os Estados Unidos, é uma briga de gigantes e muitas vezes demora anos para a gente ganhar uma coisinha na Organização Mundial do Comércio (OMC)", afirmou.
Entre as prioridades da política externa do governo está o apoio ao G-20, grupo de países em desenvolvimento que luta, na OMC, contra os subsíudios agrícolas das nações mais ricas.
"Então, eles (países em desenvolvimento) resolveram que se juntarem alguns países importantes com o Brasil, a gente passa a ter uma força extraordinária. E eu disse, lá nos países árabes, que nós corremos o gostoso risco de mudar a geografia comercial do mundo, de não ficar apenas dependendo dos produtos subsidiados por europeus ou americanos. Mas que a gente possa, entre nós, estabelecer uma relação tão forte que, aí sim, quando tivermos força eles (países desenvolvidos) virão nos procurar e dizer: vamos discutir a questão do subsídio porque nós precisamos ter uma boa relação com vocês", ressaltou Lula.
Continuidade
Atallah acredita que o governo está indo na direção correta. "Não tem outra saída, você pode gostar ou não gostar, mas a saída que o Brasil tem são países como a China, a Índia, a Rússia e os países árabes", afirmou.
Para ele, "finalmente" os esforços para aumentar as relações com os demais países em desenvolvimento passou a fazer parte da agenda "diária" do governo e estão apresentando resultados.
"Falta muito ainda, mas é com alegria que a gente vê o presidente liderando esse processo", declarou Atallah. Mas ele acrescentou que a "estrutura de apoio" para esse trabalho precisa crescer, o orçamento para o Itamaraty, por exemplo, precisa aumentar, pois o país ainda tem pouca experiência e pouca gente atuando na área.
"Mas é preciso botar energia, e quando você vê que o presidente está comprometido com isso é que o governo vai agir", acrescentou. Pois, em sua avaliação, o que o presidente fez em seu discursos foi assumir o "compromisso de chegar lá". "A coisa está caminhando e vai continuar a caminhar. Não é perfumaria, ele quer chegar lá mesmo, é comprometimento", concluiu.

