São Paulo – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza nos dias 16 a 17 a primeira visita de um chefe de estado brasileiro à Arábia Saudita, maior economia do mundo árabe. Com o rei Abdullah Bin Abdulaziz Al Saud, em Riad, Lula vai discutir temas de interesse global, como a crise financeira, a reforma de instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o conflito entre Israel e Palestina.
Segundo o chefe do Departamento do Oriente Médio II no Itamaraty, Roberto Abdalla, há interesse dos dois governos em trocar idéias sobre a crise e a reformulação de instituições financeiras internacionais, uma vez que ambos os países fazem parte do G-20, grupo das 20 maiores economias do mundo, desenvolvidas e emergentes, que está no centro da tomada de decisões multilaterais sobre a retomada do crescimento econômico.
As duas nações também, de acordo com Abdalla, são favoráveis a mudanças no Conselho de Segurança da ONU com a criação de assentos permanentes para países em desenvolvimento. Hoje os únicos membros cativos são os Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Rússia e China. A Arábia Saudita, no entanto, não deu apoio explícito à pretensão do Brasil de ocupar uma das eventuais novas cadeiras.
Na questão da Palestina, o Brasil vem procurando já há alguns anos uma maior participação como mediador e apóia a Iniciativa de Paz Árabe, proposta saudita para a resolução do conflito adotada na Cúpula Árabe de Beirute, no Líbano, realizada em 2002, que prevê a existência lado a lado de Israel e um Estado Palestino, com as fronteiras como eram antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Todos os países sul-americanos endossaram esse plano na 2ª Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), realizada em 31 de março, em Doha, no Catar.
Outro tema que deve ser tratado com as autoridades sauditas e com o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), Abdulrahman Al-Attiyah, é o destravamento das negociações entre o bloco árabe e o Mercosul para um acordo de livre comércio. O processo foi iniciado em 2005, na 1ª Cúpula Aspa, mas emperrou na resistência da indústria petroquímica brasileira, que teme a concorrência das empresas do Golfo. “O presidente deverá fazer gestões para destravar o acordo”, disse Abdalla. O GCC é formado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã.
Na 2ª Cúpula Aspa, em Doha, as duas partes divulgaram um comunicado se comprometendo a fazer o processo avançar com maior rapidez e a buscar “soluções criativas” para os impasses. Segundo Abdalla, uma das possíveis soluções poderia ser deixar de lado agora a questão dos petroquímicos e avançar nas áreas em que há maior facilidade de negociação, retomando o tema mais espinhoso num segundo momento. “O acordo não pode ficar quatro anos parado por causa de um ponto de discórdia”, afirmou.
Na seara bilateral, os dois governos deverão assinar pelo menos seis atos, entre eles uma revisão ampliada do acordo geral de cooperação técnica firmado originalmente em 1976, e outros nas áreas de consultas políticas, cooperação entre academias diplomáticas, educação superior, cooperação cultural e esportes. O número de acordos e os temas de interesse, porém, ainda não estão fechados e podem ser ampliados.
Lula vai acompanhado de uma delegação empresarial que, paralelamente aos encontros oficiais, vai participar de rodadas de negócios com empresários sauditas e visitar instituições locais como a Sagia, a agência de promoção de investimentos, e o Conselho de Câmaras de Comércio e Indústria da Arábia Saudita, que vai promover um almoço com a presença do presidente brasileiro.
O presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin, o vice-presidente de Relações Internacionais da entidade, professor Helmi Nasr, e o secretário-geral, Michel Alaby, vão participar da missão.
Perfil
A Arábia Saudita é o principal parceiro econômico do Brasil no mundo árabe. As exportações brasileiras para lá renderam US$ 2,56 bilhões no ano passado, um aumento de 73,4% sobre 2007. Os principais itens embarcados foram carnes, minérios, açúcar, aeronaves e semimanufaturados de ferro e aço.
Vale ressaltar que as importações totais da Arábia Saudita no ano passado foram de US$ 191 bilhões, sendo que o país é grande comprador de alimentos no mercado internacional, uma vez que a produção local não é suficiente para abastecer a população de cerca de 25 milhões de habitantes.
Na outra mão, as importações brasileiras de produtos sauditas somaram US$ 2,91 bilhões, um crescimento de 70,4% em comparação com 2007. Petróleo e combustíveis responderam por 93% da pauta, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior compilados pela Câmara Árabe.
O Produto Interno Bruto da Arábia Saudita ficou em US$ 469 bilhões em 2008, segundo estimativa da Economist Intelligence Unit (EIU), serviço de informações econômicas do grupo que edita a revista britânica The Economist. O país é o maior produtor e exportador de petróleo do mundo e tem as maiores reservas da commodity, avaliadas em 25% do total mundial.

