São Paulo – O intercâmbio do Brasil com os países árabes na área de educação ainda deixa a desejar. A informação foi dada ontem (15) pelo ministro brasileiro da Educação, Fernando Haddad, durante entrevista para correspondentes estrangeiros em São Paulo. “Nossa presença no Oriente Médio e no Leste Europeu deixa a desejar, embora com o Oriente Médio comece a haver uma cooperação um pouco maior, até pelos laços que nós temos”, disse Haddad.
Como “laços”, o ministro quis dizer a forte presença árabe no Brasil, de imigrantes e descendentes estimados em cerca de 12 milhões de pessoas atualmente. Ele mesmo é um exemplo dessa ligação, pois é filho de pai libanês e neto de libaneses por parte de mãe.
Haddad esteve no Líbano e na Síria em 2006 para discutir cooperação. Ele reconheceu, no entanto, que o intercâmbio na área de educação leva tempo para se tornar realidade, embora algumas idéias lançadas durante a visita já tenham sido implementadas, como a criação de um curso de português na Universidade de Damasco, a realização de um seminário de professores brasileiros e libaneses, em Brasília no ano passado, e abertura de seleção para docentes brasileiros para atuar no Líbano.
“O que torna essas relações concretas não são os acordos ‘guarda-chuva’ em si, mas convênios temáticos feitos por estados, municípios e universidade”, afirmou o ministro. Ele ressaltou que hoje existem no Brasil mais universidades que ensinam o árabe do que instituições que ensinam português e cultura brasileira no mundo árabe. “Mas há interesse nessa cooperação lá também. Isso é essencial para criar um ambiente mais propício ao intercâmbio cultural”, acrescentou.
Integração regional
Haddad destacou, no entanto, que as prioridades da política externa do governo na área de educação estão mais focadas na integração dos países latino-americanos, especialmente da América do Sul, e no relacionamento com outras nações de língua portuguesa, principalmente as da África.
Nesse sentido, ele citou a lei já aprovada que obriga a oferta de cursos de espanhol onde haja demanda no Brasil e a criação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), projeto que, segundo o ministro, deverá ser aprovado até o final do ano pelo Congresso Nacional.
A idéia é que a universidade seja instalada em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde o Brasil faz fronteira com a Argentina e Paraguai, e que comece a funcionar no segundo semestre do próximo ano. O objetivo, de acordo com Haddad, é a instituição seja bilíngüe com reserva de vagas para estudantes estrangeiros de língua espanhola.
“Parte da carga horária terá foco na integração regional, independentemente do curso, pois há potencial para formação de um núcleo intelectual que pense esse tema de forma integradora”, disse o ministro.
Português
Haddad falou também da importância da adoção do acordo ortográfico por todas as nações que compõem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP): Brasil, Portugal, Timor Leste, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau. Com ele, o idioma será unificado em sua forma escrita.
“O acordo é um estatuto para que o português possa recuperar seu espaço, inclusive para ser adotado por organismos internacionais, o que é impossível sem a uniformização ortográfica”, declarou Haddad.
Na mesma seara, ele lembrou outro projeto de universidade em discussão, o da Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab), a ser instalada em Redenção, no Ceará, e que terá 50% das vagas asseguradas a estudantes de origem africana. A idéia é que esses alunos façam o último ano da faculdade em seus países de origem, sob forma de tutoria. “Para colaborar com o desenvolvimento do seu país”, disse o ministro.
Pré-sal
Haddad falou ainda da intenção do governo brasileiro de usar receitas da extração de petróleo da camada pré-sal para financiar a educação no Brasil. O Planalto ainda estuda de que forma serão exploradas as reservas descobertas recentemente na Bacia de Santos, no litoral sul do país, e como serão utilizados os recursos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já elegeu como prioridades e educação e o combate à pobreza.
Segundo o ministro, no sábado (13) Lula pediu a formação de uma comissão do Ministério da Educação (MEC) para elaborar um relatório até o final do ano sobre onde devem ser aplicadas as receitas do pré-sal. “Ele quer dar início ao debate desse tema com a sociedade no começo do próximo ano”, afirmou Haddad.
O ministro adiantou algumas áreas prioritárias, como o reforço ao atual Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que estabelece metas até 2011; o aumento da oferta de vagas na educação infantil, incluindo a universalização da pré-escola e elevação do patamar de atendimento de crianças de zero a três anos; a abertura de 1,5 milhão de vagas em universidades, com 40% a 50% oferecidas por instituições públicas; a oportunidade para todo jovem poder obter aprendizado técnico no ensino médio, assim como tornar o colegial obrigatório, assim como já ocorre com o ensino fundamental; e remuneração e formação adequadas aos professores.
Questionado sobre a porcentagem das receitas do pré-sal que a área da educação gostaria de receber, ele respondeu: “Cem por cento.” De acordo com Haddad, hoje o Brasil investe 4% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, fatia que pode chegar a 4,5% no ano que vem. No passado, segundo ele, mesmo em períodos de grande crescimento econômico, os aportes não ultrapassavam os 2%. Haddad disse que o total atual ainda é pouco, o ideal seriam investimentos de 6% a 7% do PIB.
O PDE atual, de acordo com o ministro, tem 40 ações que contemplam desde as creches até a pós-graduação, o que ele chamou de “visão sistêmica da educação”.

