São Paulo – A crise na Europa deve beneficiar a exportação de manufaturados do Brasil e dos países emergentes em geral, já que estes podem ocupar uma brecha de mercado deixada por produtores europeus em dificuldade. Para ganhar essa fatia, no entanto, é preciso que o Brasil invista na área, disseram especialistas no seminário "A crise dos países desenvolvidos e perspectivas da economia brasileira em 2012", promovido pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), nesta quinta-feira (19), em São Paulo.
Os palestrantes criticaram a dependência do Brasil das exportações de commodities e disseram que o País precisa crescer no mercado internacional com os manufaturados. "Nos últimos cinco anos, o déficit de produtos industriais com maior valor agregado quintuplicou e isso, evidentemente, como tendência é insustentável, porque nós não vamos conseguir pagar essa conta no futuro somente com produtos básicos, que geram pouco valor agregado. O Brasil, pelas suas potencialidades, tem condições de ser muito forte em produtos primários, mas sem abrir mão da industrialização", disse Antônio Correa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e economista-chefe da Siemens.
O aumento das importações de manufaturados foi destacado como gargalo na economia do Brasil. "Ótimo que o Brasil aumente suas importações, mas este fenômeno está sendo predatório", apontou Octavio Barros, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do banco Bradesco. Ele acredita que a concentração na venda de produtos primários está afetando os investimentos na produção industrial do país.
"Em 2011, o Brasil teve um déficit em sua balança comercial de US$ 80 bilhões nos complexos de eletro-eletrônicos, químico-farmaco e de máquinas", lembrou Lacerda. "O Brasil precisa ampliar suas condições de competitividade. Nós precisamos reduzir os juros em nível internacional, acho que estamos caminhando para isso”, afirmou o professor da PUC.
"Precisamos de um câmbio mais competitivo e precisamos melhorar o custo de produção no Brasil de fatores externos às empresas, como carga tributária, custo logístico, da infraestrutura. Isso é que pode gerar, junto com uma promoção comercial dos produtos brasileiros no exterior e uma atuação mais firme das empresas e da própria nação nos fóruns internacionais, a ampliação dos nossos espaços no mercado externo”, disse Lacerda.
O especialista também ressaltou a necessidade de tomar cuidado com as possibilidades que se abrem para o país com o desaquecimento das economias desenvolvidas. "O Brasil tem a oportunidade de contar com sua atratividade natural de mercado para receber novas empresas, mas tem que tomar cuidado para evitar investimentos oportunistas que não geram valor agregado", afirmou.
Investimentos
A crise da Europa também colocou os mercados emergentes, como o Brasil, mais em evidência como destino de investimentos."Os países emergentes seguem se destacando. Hoje, eles absorvem 60% dos investimentos do mundo", apontou Barros. Na opinião do economista, a crise europeia já está arrefecendo. "O cenário global está menos tenso que há quatro meses. A crise na Europa é inexorável, mas nove entre 10 analistas reconhecem que ela será muito mais branda do que se esperava".
Sobre o Brasil, Barros acredita que o Produto Interno Bruto (PIB) do país está subestimado. Na previsão do economista, o país pode ter, nos anos de 2012 a 2020, um crescimento anual de 4,20% a 5,20%. Esta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um relatório em que prevê um crescimento de 3% para o PIB nacional em 2012.
Roberto Van Dijk, diretor-geral da Votorantim Wealth Management, também ressaltou o crescimento das economias emergentes para este ano. "Em 2012, a somatória dos PIBs dos países emergentes vai superar a somatória dos PIBs dos países desenvolvidos", ressaltou.

