Alexandre Rocha, enviado especial
Cuiabá, Rondonópolis e Alto Araguaia (MT) – Até 2012 os produtores rurais de Mato Grosso pretendem chegar à marca de 44,7 milhões de toneladas de grão e fibras colhidas anualmente. Número que, se confirmado, vai representar um aumento de mais de 100% em relação à safra deste ano, que foi de 22 milhões de toneladas de soja, milho, arroz, sorgo e algodão.
A área plantada, por sua vez, deverá aumentar dos atuais 7,3 milhões de hectares para 12,5 milhões de hectares. Isso significa que cada vez mais o estado precisará ampliar sua infra-estrutura de transportes que, mesmo com os investimentos feitos recentemente em ferrovias, hidrovias e rodovias, ainda é deficitária.
A previsão de aumento da produção pode parecer ambiciosa, mas está longe de ser impossível, quando se observa o crescimento ocorrido no passado recente. Basta verificar que em 1985 foram colhidas 2,6 milhões de toneladas, o que significa que em menos de 20 anos o tamanho da safra aumentou oito vezes. Hoje o Mato Grosso é o maior produtor brasileiro de soja e algodão e o segundo em arroz, atrás apenas do Rio Grande do Sul.
Tal crescimento foi capitaneado pela abertura de novas fronteiras de cultivo, de soja principalmente, e pelo aumento da produtividade. Só para se ter uma idéia, em 10 anos a produtividade no estado passou de 2 mil quilos de soja por hectare para 3 mil quilos. A soja domina a agricultura no estado. Na última safra foram colhidas 15 milhões de toneladas. Para 2012, a previsão é de uma safra de 36,4 milhões de toneladas da oleaginosa.
E para sustentar tal aumento é preciso investir na produção. De acordo com o secretário estadual de Desenvolvimento Rural e presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato), Homero Alves Pereira, a demanda por investimentos privados no setor do agronegócio no estado gira em torno de R$ 3 bilhões por ano, para a construção de armazéns, compra de máquinas e equipamentos, isso sem contar o custeio da safra (compra de sementes, insumos, preparo do solo, etc.). Mas o volume de dinheiro aplicado tem ficado aquém do necessário, cerca de R$ 2 bilhões por ano nos últimos dois anos.
Já para 2005, os agricultores de Mato Grosso estimam colher cerca de 25 milhões de toneladas. "Com o aumento da produtividade e a incorporação de novas áreas de cultivo não será difícil chegar a 25 milhões de toneladas em 2005", disse Pereira. O valor do custeio da safra é avaliado em R$ 10 bilhões.
Economia
Localizado no centro-oeste do país, o Mato Grosso tem uma área total de 90 milhões de hectares, o que representa mais de 10% do território brasileiro. Estima-se que o estado tenha 30 milhões de hectares agriculturáveis. "Nós incorporamos entre 800 mil a um milhão de hectares por ano. Vai demorar de 20 a 25 anos para atingirmos um patamar ótimo de exploração", disse Pereira.
Outros 22 milhões de hectares são ocupados com pastagem para o gado. Além de ser o maior produtor de soja e algodão, o Mato Grosso tem também o maior rebanho bovino do país, com 24,7 milhões de cabeças. Existem muito mais bois e vacas no estado do que gente, já que a população é de 2,7 milhões de pessoas.
Pereira acredita que 30% da área de pastagem pode ser aproveitada para a agricultura. "São quase 7 milhões de hectares que podem ser incorporados sem impacto ambiental e sem pressão sobre a floresta", afirmou. "O Mato Grosso tem um terço das áreas que podem ser abertas para a agricultura no Brasil", acrescentou.
O estado tem um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 17,5 bilhões (estimativa de 2003) e cresce na base de 8% ao ano, muito mais do que a média nacional. A previsão de crescimento do PIB brasileiro para este ano é de 4%.
O agronegócio é o setor mais representativo na composição do PIB do Mato Grosso, respondendo direta ou indiretamente por 70% do total. Além dos grãos, fibras e bovinos, o Mato Grosso também é grande produtor de cana-de-açúcar, suínos e aves. "Não há nada que ocorra em Mato Grosso que não tenha alguma vinculação com o agronegócio", disse o secretário estadual de Projetos Estratégicos, Cloves Vetoratto.
Comércio exterior
No ano passado, as exportações do estado somaram US$ 2,1 bilhões, segundo a Famato, e a expectativa para este ano é de que as receitas cheguem a US$ 2,4 bilhões. Só para se ter uma idéia, a soja foi responsável por receitas de exportações de US$ 1,7 bilhão em 2003. Já os embarques do segundo produto mais exportado, a madeira, somaram US$ 155,5 milhões.
O agronegócio exerce também o maior peso na pauta de importações do estado. Em 2003, o Mato Grosso comprou o equivalente a US$ 276,6 milhões do exterior, sendo que os adubos e fertilizantes foram de longe os principais itens da pauta. De janeiro a julho deste ano, o estado já importou US$ 212,7 milhões, sendo que os insumos agrícolas continuam a dominar a pauta.
E não é só de fertilizantes e adubos que vivem as importações locais. No mês de maio, por exemplo, 60 colheitadeiras de algodão da marca John Deere compradas dos Estados Unidos foram entregues a vários produtores do estado, numa megaoperação de logística para transportar as máquinas desde o porto de Santos, em São Paulo, até o Mato Grosso. No final de julho, outras 15 colheitadeiras da marca Case foram entregues no estado. Cada uma dessas máquinas custa entre US$ 200 mil e US$ 250 mil.
Reflexos
A agricultura é tão importante para a economia local que em qualquer lugar que se vá é possível sentir sua presença. Mesmo nos grandes centros urbanos como Cuiabá, a capital que tem 482,5 mil habitantes, é possível encontrar com facilidade concessionárias de máquinas agrícolas e lojas de insumos. No horário nobre da televisão são exibidos com freqüência anúncios de fertilizantes e sementes.
A importância econômica do setor também tem reflexos na política. Além de o governador Blairo Maggi ser o maior produtor individual de soja do mundo, agricultores, pecuaristas e produtores rurais em geral estão em primeiro lugar na lista de profissionais que são candidatos às eleições municipais de 3 de outubro.
Segundo levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 389 candidatos a prefeito no Mato Grosso, 32 se declararam "agricultores", 27 "pecuaristas" e 16 "produtores agropecuários", num total de 75 candidatos. A segunda categoria mais representada são os comerciantes, com 44 postulantes.
No caso das eleições para as câmaras municipais, dos 7.109 candidatos, 812 se declararam "agricultores", 228 "pecuaristas" e 102 "produtores agropecuários", num total de 1.142. Mais uma vez, a segunda categoria mais representada são os comerciantes com 818 postulantes.
Pesquisa
Além do aumento da área plantada, a pesquisa científica e o desenvolvimento de novas variedades de sementes vêm contribuindo muito para o aumento da produção. A partir da década de 1970, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) começou a desenvolver pesquisas para a ocupação agrícola do cerrado – região antes considerada imprópria para o cultivo.
Há 10 anos, 23 produtores de sementes de Mato Grosso criaram, em Rondonópolis, a Fundação Mato Grosso, entidade que atua, principalmente, na pesquisa para o melhoramento genético da soja.
A utilização racional do solo é uma questão crítica no Mato Grosso. A ocupação do estado é recente e ainda está muito aquém do seu potencial, mas o equilíbrio ambiental é delicado, uma vez que, além do cerrado, existem outros três tipos de ecossistemas na região: a Amazônia, o Pantanal e áreas de transição entre a Amazônia e o cerrado. Além disso, 17% do território é ocupado por áreas indígenas.
Segundo Dario Hiromoto, diretor superintendente da Fundação MT, a entidade continua a trabalhar para aumentar a produtividade. "Nossa meta é chegar em oito anos a uma produtividade de 4 mil quilos de soja por hectare", afirmou. A organização atua no desenvolvimento de sementes resistentes a uma séria de pragas que atingem as lavouras.
E isso é essencial, uma vez que não são poucas as doenças que ameaçam as plantações, como a ferrugem asiática que este ano prejudicou a agricultura brasileira. Só no Mato Grosso, fatores ambientais e biológicos causaram uma redução de 16% na produtividade da última safra em comparação com a anterior.
Hoje, de acordo com Hiromoto, a fundação conta com um corpo de 28 pesquisadores, todos engenheiros agrônomos com grau de mestrado ou doutorado, e um total de 241 funcionários. Ela fatura US$ 8 milhões por ano, principalmente com os royalties sobre as vendas das sementes que desenvolve.
Leia amanhã (21) na ANBA a teceira reportagem da série sobre a infra-estrutura de transportes e o agronegócio no Mato Grosso, que vai falar sobre o impacto econômico da chegada da estrada de ferro a Alto Araguaia, no sudeste do estado.

