São Paulo – Diante dos mercados mundiais retraídos e da dificuldade do gigante mundial das compras, os Estados Unidos, se levantar da crise, o Brasil vem se mostrando como a grande alternativa para empresas nacionais – e até estrangeiras – manterem seus caixas. Longe de haver show das compras, os pequenos crescimentos apresentados em alguns segmentos no país são quase festa diante do panorama do mercado externo. E a perspectiva é de melhora na demanda doméstica até o final do ano, apontam os economistas.
O principal impulsor das compras no Brasil, nos próximos meses, deve ser a oferta de crédito. “A tendência é que os bancos sejam agora mais agressivos em suas políticas de crédito. O crédito para pessoa física vai melhorar bastante, alavancando a produção”, diz o economista da MCM Consultores, Antônio Madeira. Ele explica que frente ao juro menor, não vale mais a pena para o sistema bancário deixar o dinheiro aplicado em títulos públicos, com rendimento de cerca de 9% ao ano, e sim dar crédito para os clientes.
A oferta de crédito normalmente impulsiona o consumo de bens duráveis, de maior valor, categoria na qual estão inclusos eletrodomésticos e automóveis. As vendas desses produtos, na verdade, já estão em alta em função da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), medida tomada pelo governo brasileiro que tem validade até o final deste mês. O incentivo está, inclusive, causando falta de carros nas concessionárias.
Na demanda por produtos de menor valor, como vestuário e até mesmo alimentos, não deve haver grandes avanços, já que não há perspectiva de aumento de emprego e renda nos próximos meses. O emprego deve ficar estável, segundo o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo. “Pode haver algum crescimento no final do ano”, diz Solimeo. E os programas de distribuição de renda, que também costumam influenciar no desempenho destes segmentos, não terão grandes incrementos.
Mesmo assim, o cenário interno brasileiro é bom diante do internacional, lembram os economistas. “O panorama doméstico é positivo. Lá fora a recuperação, principalmente nos países desenvolvidos, é muito mais lenta, há uma queda generalizada. O Brasil é um dos países onde o mercado interno funciona como um amortecedor para a crise, assim como na China e na Índia”, diz o economista Juan Jensen, da Tendências Consultoria Integrada.
O comércio, no Brasil, deve crescer mais do que o Produto Interno Bruto (PIB). “Se espera que o PIB fique próximo do zero e o consumo das famílias deve crescer 2% em 2009”, afirma Solimeo, da ACSP. O consumo das famílias traduz o desempenho do varejo. Mesmo não havendo muito crescimento neste ano, essa pequena reação já é importante, segundo o economista, para alavancar o crescimento no ano que vem.
O mercado interno é favorável, mas está mais concorrido. “Já antes da crise havia novos entrantes, com a desvalorização do real. E (com a crise), empresas que só exportavam entraram no mercado interno. Existe mais concorrência”, diz Andrea Kohlrausch, gerente comercial da Bibi Calçados, empresa de calçados infantis da cidade gaúcha de Parobé.
Além das exportadoras brasileiras, há também as empresas estrangeiras, que enfrentam dificuldades em outros mercados, e buscam, então, o Brasil. O câmbio, inclusive, favorece a entrada dos produtos importados no mercado brasileiro neste momento. “A importação vai aumentar. Em 2010 a tendência é de aumento ainda”, diz Jensen. Em maio deste ano já houve um crescimento de 8% nas importações brasileiras sobre o mês anterior. Foram US$ 9,3 bilhões importados em maio e US$ 8,6 bilhões em abril.
Investimentos estrangeiros visando produzir e vender no Brasil, porém, não devem vir em grandes volumes neste momento, diz a maioria dos economistas. “Não dá para esperar recuperação nos investimentos porque ainda há muita capacidade ociosa na indústria local”, afirma Jensen. É o caso do setor de carne bovina. A capacidade ociosa atual é de 40%, diz o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Salazar. Mas segundo ele, há espaço para aumento do consumo da carne bovina no Brasil.
De acordo com o economista Antônio Madeira, porém, para as empresas de fora do Brasil que tiverem caixa para investir neste momento, o mercado brasileiro é uma boa opção. A previsão da Tendências Consultoria é que o Investimento Estrangeiro Direto (IED) fique em US$ 25 bilhões neste ano. O valor não é considerado ruim, mas é bem aquém dos US$ 45 bilhões registrados em 2008. A recuperação total não deve vir nem em 2010, ano para o qual são esperados US$ 35 bilhões. “Mas está melhor do que nos outros países”, diz Jensen.
Cai lá, cresce aqui
A Bibi Calçados é uma das empresas brasileiras que sentiu no seu desempenho os reflexos da crise. As exportações da indústria caíram entre 30% e 40% nos primeiros cinco meses do ano, enquanto as vendas no mercado interno cresceram 5% a 6%. “Onde temos enfrentado mais desafios é no mercado externo”, afirma a gerente comercial da empresa. Argentina e Equador, grandes mercados para a marca, colocaram empecilhos nas importações, e a Venezuela, outro grande comprador, reduziu as compras em função da instabilidade.
“O Brasil sempre foi um dos nossos principais mercados e responde por 70% das vendas. A crise afetou muito mais outros países”, afirma Andrea. Apesar de já ter registrado um pequeno crescimento no primeiro semestre, a Bibi Calçados espera um segundo semestre ainda melhor no mercado interno. Normalmente isso ocorre em função das boas datas para venda de calçados infantis, como Dia das Crianças e Natal. O economista Antônio Madeira recomenda que as empresas sigam esse caminho agora: o mercado interno. "Os que puderem se voltar para o mercado interno, é melhor. O quadro externo ainda é muito ruim", diz.

