São Paulo – O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, disse nesta segunda-feira (08) que existem “oportunidades espetaculares” no mundo árabe nas áreas de comércio e investimentos. Em entrevista exclusiva à ANBA, ele contou que há um grande número de empresários interessados em participar da missão comercial que será realizada pelo ministério em abril.
"São cerca de 100 empresários. Nós abrimos as inscrições na quarta-feira da semana passada e eu soube que já tinha quase lotado", afirmou ele, após almoço com a diretoria da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, na sede da entidade, em São Paulo.
Para ele, o Brasil tem todas as condições para atrair investimentos do mundo árabe. "Quando você tem uma das maiores populações de descendentes árabes do mundo em seu país, quando você tem uma aproximação política importante do governo com os países árabes, você tem todas as oportunidades de transformar o país num receptor de investimentos", declarou, acrescentando que grandes investidores internacionais olham o Brasil como um dos principais pólos de atração de recursos.
Jorge disse ainda que pretende realizar outras missões ao mundo árabe este ano e antecipou que, em reunião marcada para amanhã, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) do governo brasileiro deverá derrubar o Imposto de Importação sobre o etanol, hoje em 20%. Segue a entrevista:
ANBA – O que nós podemos esperar da missão ao Oriente Médio, que será realizada em abril, ao Egito, Líbano e Irã?
Miguel Jorge – Acho que nós podemos esperar bons contatos, boas oportunidades de negócios. Nós vamos levar um grupo grande de empresários.
Quantas pessoas?
São cerca de 100 empresários. Nós abrimos as inscrições na semana passada, na quarta-feira, e eu soube que já tinha quase lotado. Depois a gente tem que fazer uma seleção, mas houve uma adesão muito grande. Como, aliás, tem sido nas [nossas] missões. É a segunda missão nossa aos países árabes, pois estivemos nos países do Maghreb em janeiro do ano passado. Nós deveríamos ter voltado antes, mas [2009] foi um ano difícil.
Tendo já a experiência do ano passado e essa procura agora para segunda missão, como o senhor avalia os países árabes em comparação com outros mercados que o Brasil tem explorado?
Eu acho que nós temos oportunidades espetaculares nos países da Liga Árabe. Esse ano [de 2009], por exemplo, um ano de crise, os países árabes aumentaram sua participação nas exportações brasileiras, já são o quinto mercado para os produtos brasileiros. Já estamos, arredondando, com US$ 10 bilhões em exportações, é um número impressionante. De 2002 para cá nós aumentamos em 280% os negócios. É sintomático ter conseguido isso num ano de crise, é sintomático porque mostra uma região realmente de grandes possibilidades para as empresas brasileiras. Nós temos muito do que os países árabes precisam: alimentação, produtos agrícolas, tecnologia, produtos industrializados. Nós temos interesse também em produtos dos países árabes, como commodities.
Houve uma aproximação do ponto de vista comercial, aumentou bastante o comércio. Mas na questão da atração de investimentos? Como é possível viabilizar uma atração maior de capital do mundo árabe?
Nós falamos sobre isso aqui [na Câmara Árabe] hoje. Eu acho que a entidade tem um papel fundamental para ajudar o país nessa questão. [Discutimos] como a entidade poderia ajudar nesse processo de atração de investimentos de países da Liga Árabe. Uma das coisas é uma aproximação que já foi feita entre a Câmara e a Apex, a Agência de Promoção de Exportações e Investimentos, para acompanhar melhor esse processo de atração de investimentos árabes ao Brasil. Em segundo lugar, no próprio ministério, e os resultados são muito rápidos. Eu me lembro que, no ano passado, nessa missão de janeiro, nós estivemos na Líbia e o vice-primeiro-ministro falava da intenção de investir no Brasil. Quatro meses depois ele estava aqui no Brasil e anunciou o investimento de US$ 500 milhões na área agrícola, em projetos importantes lá no Nordeste com uma grande empresa brasileira.
Esse investimento já foi realizado?
Uma parte dele foi. Não eram US$ 500 milhões de uma vez, era um projeto longo, na agricultura, portanto de médio prazo. Outra [ação importante] é acompanhar, também juntamente com o ministério, esse processo de atração de investimentos. Uma questão importante é que, nos países árabes, mesmo com o preço do petróleo não tão alto, há muito dinheiro para investir, e esses países passaram por um processo de perda de dinheiro com investimentos no ano passado, no ano de crise, com a quebra, os ativos reduziram brutalmente na Europa, nos Estados Unidos, praticamente em todo o mundo. Você tem muitos poucos países onde o investimento é seguro, certamente um desses poucos países é o Brasil. Esses grandes grupos, grandes fundos árabes, fundos soberanos e outros, fundos de governo, agências de investimento, eles têm especialistas, eles sabem disso. Hoje mesmo no [jornal O] Estado [de S. Paulo] tem uma entrevista de um grande investidor americano (Sam Zell, magnata do ramo imobiliário) dizendo que o melhor lugar do mundo hoje para investir é o Brasil. Ele disse que já tem US$ 500 milhões [investidos no país] e vai colocar muito mais. Então você tem uma oportunidade real para o país. Já ocorreram grandes investimentos árabes no Brasil, mas há muito tempo. A gente esteve afastado como destino desses investimentos, acho que agora é hora de retomar. Quando você tem uma das maiores populações de descendentes de árabes do mundo em seu país, quando você tem uma aproximação política importante do governo com os países árabes, estabelecida a partir do governo do presidente Lula, se colocando à disposição para o que for necessário, para construir a paz no Oriente, você tem todas as oportunidades de transformar o país num receptor de investimentos. Eles precisam escolher os lugares onde investir.
Nós ouvimos falar bastante do interesse deles na área agrícola. Agora, e outros setores, como a indústria, existe alguma movimentação nesse sentido?
Pelo que eu conheço dos investimentos árabes, na indústria eles são normalmente investidores minoritários, que é uma posição conservadora. É mais difícil ter o controle e o retorno é em longo prazo. A produção agrícola é outra questão, é uma questão estratégica para os países árabes. Alguns príncipes da Arábia Saudita, com quem nós estivemos no ano passado, deixaram claro isso, disseram isso ao presidente [Lula], que não é investir em agricultura no Brasil para vender produto na feira no Brasil, eles querem ter fontes de abastecimento de alimentos. Eles precisam de alimentos. Portanto, seria muito mais efetivo ter investimentos em agricultura no Brasil para ser fornecedor direto desses países.
Como é que o governo brasileiro vê a questão da venda de terras para estrangeiros
Não é proibido o estrangeiro comprar terras no Brasil. Só há uma limitação, que é a de compra de terras na região de fronteira, todas as fronteiras brasileiras, onde há proibição expressa. Outra coisa sobre a qual nós sempre fomos perguntados também é a questão de remessa de dividendos, e as pessoas até se surpreendem quando nós dizemos que a remessa de dinheiro no Brasil é totalmente livre.
E a área do petróleo, com o pré-sal, o senhor tem notícias de investidores árabes interessados nesta área?
Nesse momento, o que eu tenho percebido é que há um movimento muito grande basicamente de fornecedores mundiais de equipamentos para prospecção e exploração do petróleo, produtores de plataforma, navios sondas e outros equipamentos especializados para petróleo e gás. Agora, as grandes empresas do mundo que estão [operando] lá, serão certamente as empresas que estarão aqui. Talvez pelo fato de a Petrobras ser a empresa mãe, digamos assim, da questão do pré-sal, tenha havido interesse do Catar em ser sócio da Petrobras.
O senhor pretende promover algum outro tipo de ação com relação ao Oriente Médio este ano ainda?
Sim, nós estamos avaliando outras missões, menores e mais específicas a vários países do Oriente Médio. E não só o ministro, mas o presidente [Lula] está indo ao Oriente Médio. A primeira viagem vai ser agora, ele tem uma relação especial com os países do Oriente Médio, com os árabes.
Há a negociação de um acordo de livre comércio com os países do Golfo, e o que nos consta é que ela tinha emperrado na questão da petroquímica. O setor, aqui no Brasil, era meio refratário a essa idéia porque abriria o mercado brasileiro para a competição dos países do Golfo, que são fortes nessa área. Agora houve uma concentração ainda maior do setor, com a compra da Qattor. O senhor tem notícias sobre em que pé anda essa negociação?
Não mudou nada. A questão desses acordos, como com a União Européia, com outros países, é que o Brasil, e eu acho que corretamente, privilegiou a Rodada Doha, para ter um acordo amplo, e ainda, ao que tudo indica, o Ministério das Relações Exteriores ainda parece que acredita na possibilidade de que saia alguma coisa. Acho que só depois que tiver o epitáfio escrito e a lápide enfiada lá é que nós vamos pensar em acordos desse tipo, acordos bilaterais.
Sobre as ações de estímulo à economia tomadas pelo governo no ano passado. Agora nós vemos outro cenário, hoje os jornais dizem que o aumento do dólar começa a encarecer insumos, a pressionar a inflação. Existe alguma política nova em estudo, ou a manutenção das que já existem, de estímulo à produção este ano?
Não, de estímulo à produção não. A questão do dólar, que está hoje aí próximo dos R$ 2,00, é aquela questão do fogo e da água. Antes os jornais diziam que as exportações eram impossíveis com o dólar naquele patamar [de desvalorização], agora já começam a dizer que a produção interna está tendo problemas [por causa da valorização da moeda norte-americana]. É evidente que uma diferença nessa no dólar não vai criar problema nem para cima, nem para baixo. Nós não estamos falando de desvalorização de 30% ou valorização de 30% do dia para noite. É um movimento natural numa política de flutuação do dólar, e dólar flutuante flutua, não tem como não flutuar, então não temos nenhuma medida. Se por um lado o dólar a R$ 1,70 cria problema para o exportador, por outro lado cria uma vantagem para a produção interna, os insumos estão sendo importados, teve um Natal que para muita gente foi melhor, porque o bacalhau foi mais barato, as nozes foram mais baratas. Agora, com esse dólar [de hoje], nós temos uma melhoria na possibilidade de exportação de vários produtos. Então, é um momento que tem que haver calma, ainda não é possível dizer que um dólar nesse patamar vai criar problema para a produção interna, vai aumentar a inflação. O que pode aumentar a inflação é uma demanda excessiva frente a uma oferta reduzida, coisa que não vai acontecer porque nós temos uma capacidade de produção ainda bastante importante. Há uma folga para produzir e para atender a demanda, que também não acredito que vá continuar tão aquecida como esteve no período em que houve incentivos fiscais. O incentivo para os automóveis acaba e eu acho que as vendas voltam ao patamar normal. No caso da linha branca também.
O governo vem aplicando alguns incentivos para importação de insumos…
Nós temos como política, o governo sempre teve, não só este governo, mas os anteriores, que, para determinados equipamentos, bens de capital, etc., você aplica o processo de ex-tarifário, isenta do imposto de importação os produtos, especialmente os que não são fabricados no Brasil. O que está sendo discutido em termos de isenção do Imposto de Importação, que pode ter uma repercussão maior, é no caso do etanol, que vai ter uma discussão na Camex amanhã e que deve ser aprovado. Eu, por exemplo, sou a favor, acho que até para dar uma demonstração de que nós não tememos competir em condições de igualdade com outros países produtores de etanol. Mas não há nenhuma iniciativa na Camex, por exemplo, para isentar insumos, outros tipos de insumos.

