Parauapebas, Curionópolis e Marabá, Pará – A mineração é tida como uma atividade que agride o meio ambiente. E de fato é. Mas, dependendo do local e da empresa exploradora, ela pode impedir uma devastação maior ainda. É o caso da Serra dos Carajás, no Pará, onde a Vale opera a maior mina de minério de ferro do mundo.
O empreendimento fica dentro da Floresta Nacional de Carajás (Flona), uma reserva de 412 mil hectares, no município de Parauapebas, no sudeste do estado, protegida pela própria empresa em parceria com o Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Ao olhar a mina, uma ferida aberta na montanha onde máquinas gigantescas trabalham incessantemente, pode parecer que a devastação é total, mas, na realidade, ela representa apenas 2,5% da área do parque, segundo o gerente geral de mineração das minas de Carajás, Fernando Carneiro. Uma foto de satélite disponível no mirante da mina, mostra que ela é como um pequeno ponto dentro de um mar verde.
Do lado de fora da Flona, no entanto, a história é outra. Ao percorrer as estradas do sudeste do Pará, pouca mata se vê. A maior parte do cenário é formada por fazendas de gado ou áreas de pastagem degradadas. Nada indica que a reserva não teria o mesmo destino, caso a mineradora não estivesse presente.
Paralelamente ao seu negócio principal, a empresa emprega vários profissionais e recursos para minimizar o impacto da mina e devolver para o meio ambiente, e à comunidade local, parte do que foi degradado. Nesse sentido, ela investe em reflorestamento e na preservação de espécies locais.
A Flona é monitorada e pesquisas são feitas no sentido de devolver a cobertura vegetal em áreas já mineradas. As minas de minério de ferro de Carajás são escavadas a partir da “canga”, um afloramento de rocha no topo da montanha que contém o elemento metálico. Lá há uma vegetação rasteira parecida com a do cerrado, ou a savana.
De acordo com o agrônomo Alexandre Castilho, responsável pelo trabalho de reflorestamento, cerca de 300 espécies de plantas foram mapeadas. Esse tipo de ecossistema é conhecido como “campo rupestre” ou “savana metalófila”. Ele mostrou uma área da “canga” ainda virgem, que pode vir a ser explorada futuramente, e outra já minerada e recuperada. São semelhantes a olho nu.
A companhia atua também, em parceria com outras entidades, na proteção de espécies em perigo, como o gavião real, ou harpia, e mantém um parque zoobotânico próximo à mina, que reúne espécies nativas como onças, suçuaranas, diversas espécies de macacos, aves, porcos do mato, antas, entre outros. Segundo o biólogo Eduardo Perin, analista de meio ambiente sênior, o local pode ser visitado pela população e a entrada é gratuita. Ele acrescentou que o parque vai passar por uma reforma orçada em R$ 30 milhões, que serão consumidos em cinco anos.
Há também preocupação com a água. A Vale desenvolveu um sistema de peneiramento do minério, que faz parte do processo industrial de tratamento da rocha, que dispensa o uso de água. O engenheiro de processos José Anselmo Campos, responsável pela usina de Carajás, disse que das 17 linhas de peneiramento, hoje oito operam a seco.
Segundo a empresa, essa tecnologia permitiu reduzir a utilização de água em 19,7 milhões de metros cúbicos por ano, o suficiente para abastecer uma cidade de 430 mil habitantes. Os efluentes do que ainda é utilizado são tratados. A companhia investiu, em 2009, US$ 166 milhões nessas e em outras ações ambientais e sociais somente no Pará.
Conflitos
O estado está repleto de riquezas acima e abaixo da terra. De povoamento relativamente recente, incentivado especialmente durante o regime militar, nos anos 70, foi alvo de uma ocupação desordenada e até hoje é palco de diversos conflitos pela posse do solo.
O mais visível deles envolve os fazendeiros, de um lado, e, de outro, os que lutam pela reforma agrária. Na beira das estradas da região sudeste, além das grandes fazendas, é possível ver vários acampamentos de sem terra.
Tais conflitos, muitas vezes, descambam para a violência armada, sendo que o mais famoso ocorreu em Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 manifestantes sem terra foram mortos pela polícia durante um confronto na rodovia PA-150. No local, a “Curva do S”, há hoje um monumento em memória às vítimas.
Mas este não é o único conflito. Em Serra Pelada, próxima a Carajás, remanescentes do famoso garimpo dos anos 80 e suas famílias ainda vivem na pequena vila que servia de base aos garimpeiros. São pessoas pobres, que não encontraram o sonhado ouro, e hoje vivem da esperança de ainda ganhar alguma coisa.
É nesse cenário que atua a empresa canadense Colossus, por meio de uma joint-venture com a Coomigasp. A companhia começou recentemente a escavar uma mina moderna, nas proximidades do antigo garimpo, para retirar o ouro que ainda existe e não pode ser extraído de forma artesanal.
“O garimpeiro vai na frente, os geólogos vão depois. Os garimpeiros encontram o ouro de superfície, depois fica o metal difícil de ser retirado”, disse o diretor do empreendimento, Luiz Carlos Celaro.
Para levar o projeto adiante, a Colossus tem que lidar com uma parte da comunidade que vê com desconfiança o acordo feito com a cooperativa e acha que está sendo lesada.
A produção deve começar somente no final do ano que vem, mas a empresa vem promovendo uma série de ações para se aproximar dos ex-garimpeiros e seus familiares. Elas vão de atendimento médico – a vila tem altos índices de hanseníase e AIDS -, reforma de escolas, treinamento profissional e até a coleta de lixo, que antes não existia. Os dejetos eram jogados na rua.
Os funcionários da Colossus dizem que, se o projeto der certo economicamente e socialmente, ele pode servir de modelo para resolver problemas semelhantes em outras regiões do Brasil.
Protestos
Mesmo com as medidas socioambientais e com a geração de empregos para a população local, movimentos sociais no Pará vêem esses empreendimentos empresariais de modo negativo.
A Vale é alvo dos sem terra, por exemplo, que acham que a mineração vai ocupar áreas que poderiam ser utilizadas para agricultura familiar, que o trem da Estrada de Ferro Carajás oferece risco à população que mora próxima aos trilhos, que os empregos vão para profissionais trazidos de fora, não para os locais, e que a siderurgia vai contribuir para o aumento da poluição. A empresa começa a construir em Marabá, maior cidade da região, a Aços Laminados do Pará (Alpa), na beira da BR-230, a Transamazônica.
*O jornalista integra a Jornada E.torQ Amazônia, viagem de carro de São Paulo ao Pará patrocinada pela FPT, fábrica de motores da Fiat

