Isaura Daniel
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São Paulo – O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, afirma que os países árabes são um grande mercado para o agronegócio nacional. Ele defende, porém, também o desenvolvimento de parcerias com a região. Uma delas para importação de adubos e defensivos, que alguns países produzem.
Em entrevista exclusiva à ANBA, o ministro disse que num mercado mundial de demanda por alimentos aquecida, o Brasil continuará fornecendo para os países árabes, já que eles são compradores históricos. O ministro acredita que, em função da preocupação global com uma crise de alimentos, os países não-agrícolas vão procurar criar mais laços com os grandes produtores do setor, como o Brasil.
O ministério promoverá, em junho, uma missão ao Egito e Argélia, nações árabes, além do Irã. A iniciativa tem apoio da Câmara Árabe. Ontem, Stephanes, acompanhado do secretário de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério, Célio Porto, se encontrou, em São Paulo, com o presidente da entidade, Antonio Sarkis Jr., o vice-presidente de Marketing, Rubens Hannun, e o secretário-geral, Michel Alaby, para tratar do assunto. Leia abaixo a entrevista do ministro à ANBA.
ANBA – No começo deste ano representantes do Ministério da Agricultura estiveram em missão nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Agora, no mês de junho, será realizada uma nova missão, promovida também pelo Ministério, mas desta vez maior, para Egito e Argélia. Isso significa um interesse maior do agronegócio brasileiro no mundo árabe? Por que essas missões estão sendo realizadas agora?
Reinhold Stephanes – É uma região onde temos hoje um grande mercado e, além disso, onde podemos ter grandes parceiros. A vocação brasileira, de produção agrícola, que não é nova, é antiga, se acentua pela necessidade que o mundo tem de alimentos. O Brasil é um dos poucos países que tem condições de alimentar toda a sua população, ser auto-suficiente e ainda ter um crescimento líder em produção de excedente no mundo.
Nós devemos ter uma reunião nos próximos dias, certamente com a presença do presidente (Luiz Inácio Lula da Silva), para estudar como o Brasil pode participar de um aumento de oferta de produtos no mercado mundial. Até para diminuir este desequilíbrio entre oferta e demanda, e evitar uma explosão de preços, o que traz prejuízos para todos, inclusive para o próprio Brasil porque acaba pressionando a nossa inflação interna. O Brasil, evidentemente, quer se colocar nesta posição, já que é privilegiado pelo fato de ter um clima adequado, de ter terras adequadas, ter desenvolvido uma tecnologia extraordinária, ser líder mundial em tecnologia de agricultura tropical, e ter pessoas, uma estrutura de produção muito boa.
Há outros países que teriam basicamente as condições brasileiras, mas que não têm nem a tecnologia adequada e nem a estrutura de produção. Poderão ter, mas levará algum tempo. Por outro lado, o Brasil tem uma necessidade grande, é um país altamente dependente de adubos e defensivos e alguns países árabes são ricos em jazidas ou têm capacidade de produção nesta área, principalmente de produtos que provêm da indústria petroquímica. Aí talvez a gente possa não só pensar em exportação (para o mercado árabe), mas também em parceria, também em importar.
E nesta próxima missão um dos focos deve ser parceria?
Sim, nós vamos estudar essa possibilidade de formar parcerias. E aí a Câmara de Comércio Árabe Brasileira tem um papel fundamental, de organizar empresários brasileiros que estejam interessados em importar e colocá-los em contato com empresários e instituições árabes que possam proporcionar estes negócios.
No contexto internacional atual, de demanda aquecida por alimentos, o agronegócio brasileiro terá condições de continuar atendendo o mercado árabe?
Eu acho que aqueles parceiros que já têm comércio consolidado com o Brasil têm que ter preferência. Uma das questões pelas quais temos que zelar é pelo cumprimento de contratos, manutenção de compromissos e reconhecimento dos parceiros históricos. Temos que reconhecer quem são os nossos parceiros históricos e os árabes são. Eles sempre estiveram entre quinto, quarto e até em alguns momentos terceiro lugar como nossos importadores. E dessa forma têm que ser respeitados.
No ano passado, o Brasil chegou a exportar um pouco de etanol para os Emirados. De que forma o senhor acredita que o país pode trabalhar com os países árabes na área de etanol? Os árabes são grandes produtores de petróleo, mas algumas regiões têm demonstrado interesse em energias limpas. É o caso de Abu Dhabi que está construindo uma cidade para ter emissão zero de carbono. Há alguma chance de parceria nessa área com os árabes?
O Brasil tem sido totalmente aberto em colocar sua tecnologia à disposição do mundo. No caso árabe, eles são produtores de petróleo e não têm condições de produzir essa energia limpa, têm que importar. Se os árabes quiserem produzir essa energia limpa em outros países, o Brasil está à disposição e tem tecnologia para isso. Até porque o Brasil acredita que só vamos ter um mercado mundial de etanol quando muitos países começarem a produzir e a consumir. Senão o país fica como único país produtor, com excedente.
O Brasil tem consciência de que tem que participar deste processo mundial de energia limpa. E aí nós estamos falando como um país que também é auto-suficiente em petróleo, mas que há 30 anos produz energia limpa. Na composição da matriz energética brasileira, 47% é energia limpa. Isso é uma tendência no Brasil, ela é histórica e não surgiu em função do aquecimento global. Surgiu por outras razões, o clima ajudou, a matéria-prima (cana-de-açúcar) que desenvolvemos também foi muito favorável. O Brasil teve esse privilégio e é muito aberto a exportar essa tecnologia a qualquer país que tenha condições de usá-la.
Evidentemente também temos interesse em parcerias em termos de fornecimento. Mas o Brasil tem muito claro que o país que quiser importar álcool tem que ter segurança e contratos de longo prazo. E também preços relativamente estáveis. É um entendimento que há hoje. Como também alguns países estão instalando suas unidades de produção aqui no Brasil e fora daqui para exportar para os seus países. Se os árabes quisessem fazer isso, também é uma possibilidade.
No nosso comércio com os árabes, há algum setor que é mais propício a crescer, algum tipo de produtos específico que podemos exportar ainda mais para eles?
A nossa produção de frangos tem uma capacidade enorme de crescer e a demanda mundial também está crescendo. Em ovos também há um interesse muito grande nos países árabes. E nesta área de ovos poderia haver alguma associação, uma parceria, para eles investirem e produzirem aqui.
No começo deste ano, nós também exportamos US$ 60 milhões em trigo para os árabes. O Brasil tem condições de ser um fornecedor de trigo para a região?
Não. Mas nós não adotamos a política de restrição às exportações, nós procuramos dar liberdade ao mercado, exportarmos e importarmos. No entanto, nós somos deficitários na produção de trigo porque adotamos uma política, que foi interessante para o Brasil por muito tempo, de importar trigo já que era mais barato. Até porque o trigo por muitos anos era subsidiado no mercado internacional. E como era uma cultura de relativo risco no nosso inverno, era melhor importar. O Brasil já foi auto-suficiente em trigo. Mas mesmo assim, hoje é como ocorre com o arroz, nós importamos e exportamos. Mas não vamos nos tornar um fornecedor dos árabes nesta área porque não somos auto-suficientes.
No final deste ano também vai ser inaugurada uma usina de açúcar, na Síria, em parceria de uma empresa brasileira, a Crystalsev. Esse tipo de iniciativa, empresas brasileiras produzindo nos países árabes, deve crescer?
Isso é uma tendência e de uns anos para cá está ocorrendo em um processo extremamente rápido. O Brasil acabou adquirindo plantas fora do país ou instalando plantas fora. Nós instalamos ou adquirimos plantas na Argentina, na Austrália, Estados Unidos, na Rússia. Na Rússia a Sadia acabou de instalar. Eu acho que isso, de ir para o exterior, é uma tendência.
E os árabe investem ou devem começar a investir no nosso agronegócio?
Eu não tenho sido procurado pelos árabes. Sou procurado pelos japoneses, pelos ingleses, por várias empresas interessadas, algumas já iniciaram seus procedimentos, outras ainda estão em entendimento, mas não recebi nenhuma missão árabe nessa linha. Embora se houver interesse, estamos abertos. Eu acredito que todos os países que estão preocupados com alimentos, que estão antevendo uma crise, um desequilíbrio entre oferta e demanda no mundo, estes países estão preocupados em estabelecer ou manter laços mais fortes com países que tenham capacidade de produzir e fornecer alimentos. Dentro destes países, as possibilidades estão muito mais na África, no Brasil e na Argentina. Na Argentina em proporção menor, mas há possibilidades. Eu diria que são as três regiões que têm condições para isso. Mas há uma certa preferência ao Brasil porque a África, por exemplo, ainda tem um caminho muito grande de estruturação.
Neste ano, as exportações do agronegócio em geral e para os países árabes devem crescer quanto por cento?
Nós estamos crescendo 16% nos últimos sete anos, o que é um crescimento extraordinário. E eu acho que a tendência é manter isso neste ano e também nos próximos anos. Para os árabes esse percentual deve ser maior ainda.

