Alexandre Rocha, enviado especial
Brasília – O ministro dos Assuntos Estrangeiros da Tunísia, Abdelwahab Abdallah, quer equilibrar a balança comercial de seu país com o Brasil. "É para isto que estamos aqui", disse ele em entrevista exclusiva à ANBA ontem (16), num intervalo entre os diversos compromissos de sua visita de dois dias a Brasília.
No ano passado, as exportações brasileiras para a Tunísia renderam US$ 108,8 milhões, já as importações somaram US$ 58,4 milhões. Abdallah acredita ser possível ampliar as vendas de produtos tunisianos como azeite de oliva, tâmaras, autopeças e, principalmente, fertilizantes. "No Brasil há uma agricultura muito próspera e extensa, então é possível avançar mais neste campo", declarou.
Na quarta-feira ele estará em São Paulo para participar, junto com uma delegação de empresários, de encontros empresariais organizados pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira.
Na seara do turismo, a Tunísia prepara a vinda de uma delegação do setor ao Brasil em busca de negócios. Sem uma ligação aérea direta, os tunisianos querem oferecer pacotes aos brasileiros que forem à Europa. Segundo o ministro, o Brasil goza de grande simpatia em seu país, o que ajuda no desenvolvimento das relações bilaterais em diversas áreas.
Doutor em direito e ciências políticas, Abdallah já foi diretor do jornal tunisiano La Presse, ministro da Informação, embaixador em Londres, porta-voz da Presidência e em agosto do ano passado foi nomeado chanceler. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
ANBA – Qual a importância para a Tunísia do acordo de cooperação universitária que foi assinado pelo senhor e o ministro brasileiro da Educação, Fernando Haddad?
Abdelwahab Abdallah – O importante é a cooperação geral entre o Brasil e a Tunísia. A educação e o ensino superior são muito importantes porque abrem horizontes novos para a juventude, para os pesquisadores e universitários. Permite a aproximação real entre os povos. A idéia é aproveitar as experiências dos dois países nas áreas em que eles dominam.
E quais áreas o senhor considera importante?
Existem muito setores. Há a experiência dos brasileiros na área agrícola. Podemos aproveitar este saber no que diz respeito à plantação de eucaliptos, por exemplo. A Tunísia também pode oferecer ao Brasil sua experiência no mesmo setor, no que diz respeito a oliveiras, árvores frutíferas e cereais, campos nos quais o país tem largo conhecimento.
E quais são os outros setores que o senhor considera importantes para a cooperação?
Temos muitas possibilidades na agricultura e pesquisa agrícola, exploração e transformação de produtos florestais, armazenamento de cereais e matérias-primas, fabricação de rações para o gado, produção agrícola em estufas, busca de fontes alternativas de energia, produção de flores.
E na indústria?
Na indústria temos possibilidades, por exemplo, nos setores têxtil, de couro e autopeças.
Quanto o senhor acha que o comércio entre o Brasil e a Tunísia pode crescer?
Estou mais do que convencido que o intercâmbio comercial entre os dois países está muito abaixo do seu potencial. É por isso que no seminário em São Paulo resolvemos participar com 13 empresários de diferentes setores, da agricultura, indústria, etc. Podemos aumentar nossas exportações de azeite de oliva, de tâmaras e de componentes mecânicos. A Tunísia está bastante avançada neste setor de componentes, exportamos para a Europa e vamos investigar se existem possibilidades no mercado brasileiro. A balança comercial é favorável ao Brasil na base de 60% e esperamos aumentar nossas exportações, particularmente da área de fosfatos e derivados (fertilizantes), já que no Brasil há uma agricultura muito próspera e extensa, então é possível avançar mais neste campo.
O senhor acredita que é possível equilibrar a balança comercial?
Estamos aqui para isso.
E o turismo, o que é possível fazer nesta área?
A Tunísia é um grande destino turístico e uma delegação deste setor deverá vir ao Brasil nos próximos meses. O que estamos planejando é organizar, para os brasileiros que vão à Europa, um pequeno pacote para eles irem à Tunísia. Mas o nosso desejo mesmo é que os brasileiros fossem diretamente ao país. Mas a grande dificuldade é o transporte, já que não há um vôo direto entre os dois países.
Mas não há necessidade de vistos, não é?
Não, e isso facilita mais. Além disso, o Brasil goza de uma simpatia especial na Tunísia e este grande capital de simpatia nos ajuda a desenvolver nossas relações. A Tunísia é também um país estável, seguro e oferece paisagens extraordinárias.
O que as pessoas falam do Brasil na Tunísia?
Falam muito bem.
Mas falam somente do futebol?
Não, mas o futebol é um elemento importante. A Seleção Tunisiana tem dois jogadores de origem brasileira e muitos jogadores e até treinadores brasileiros atuam em clubes do país. É um elemento de aproximação, já que é o primeiro esporte da Tunísia.
Na área de cultura também será firmado um acordo. O que ele prevê?
Ele vai envolver as artes, exposições, patrimônio cultural, troca de documentos e publicações, cooperação em museologia, combate ao tráfico de objetos históricos; a consolidação da cooperação na indústria cultural, no campo de cinema com a organização de jornadas de filmes tunisianos no Brasil e vice-versa, participação em festivais de cinema no Brasil e na Tunísia, como, por exemplo, o Festival de Cartago e o novo festival cinematográfico que vai ocorrer na ilha de Jerba; o intercâmbio na área de música, dança e artes cênicas; intercâmbio de espetáculos como circo e teatro; e intercâmbio na área de direitos autorais. A televisão tunisiana já passou séries televisivas brasileiras dubladas em árabe.
No que o Brasil e a Tunísia podem cooperar na área política?
No que diz respeito às grandes questões internacionais, as posições dos dois países são muito próximas. Apoiamos, por exemplo, a proposta do Brasil no que se refere à reforma do Conselho de Segurança da ONU. Concordamos com o Brasil sobre a necessidade dessa reforma.
O senhor gostaria de deixar uma mensagem aos brasileiros?
Nós gostamos muito do seu país, não temos problemas e dificuldades que nos separam e expressamos nosso desejo que nossos laços se intensifiquem cada vez mais.

