Riad – A missão comercial que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) promove ao Oriente Médio rende negócios a empresas do Brasil. É o caso do grupo JBS, multinacional brasileira do ramo de alimentos. “A missão está sendo boa para fechar a estratégia para 2011”, disse Glauber Pires Ferreira, da divisão de carnes da companhia, durante encontro empresarial realizado neste sábado (04), em Riad.
Ele acredita que os contatos feitos até agora na Síria, Kuwait, Catar e Arábia Saudita podem render, no mínimo, US$ 100 milhões em exportações no próximo ano. “Estamos reforçando os contatos que já temos e procurando novos negócios”, afirmou. O JBS, dono da marca Friboi, é mais conhecido pela produção de carne, mas nos últimos anos adquiriu várias empresas e passou a atuar em outros segmentos.
Na missão, a empresa está mostrando produtos como margarina, maionese e sucos Vigor e vegetais em conserva Swift, duas marcas compradas pelo grupo. Como o preço da carne brasileira está alto, uma ampla oferta de itens ajuda a manter os negócios da companhia no exterior. Ferreira declarou, porém, que a competitividade da carne brasileira deve ser retomada a partir de janeiro.
Prospectar novos clientes e apresentar novas marcas é também o trabalho de Hideyuki Kamimura, da Bauducco, fabricante de biscoitos, bolos e panetones. A empresa vende para a toda a região, mas quer ampliar ainda mais sua rede, além de introduzir a marca Visconti. “É um mercado promissor, interessante para nós”, afirmou Kamimura. “A aceitação é boa, principalmente dos waffers e cookies”, acrescentou.
Já Marlucia Martire, da ALM Brazil, trading que cuida das vendas ao Oriente Médio da Ducoco, destacou que está com um contrato quase fechado para exportar água de coco e coco ralado para um importador de Damasco, na Síria. Ela tem também uma encomenda de gordura de coco para fevereiro, feita por uma indústria saudita de chocolates.
Ela, que já esteve na Arábia Saudita em 2009, afirmou que os importadores locais já reconhecem a qualidade dos produtos brasileiros e não reclamam mais do preço do frete. “Eles sabem que o produto brasileiro é bem aceito [pelos consumidores]”, ressaltou.
Empreendedoras
As mulheres que integram a delegação disseram não ter tido problema em negociar com os empresários sauditas. O país segue uma linha islâmica extremamente conservadora do ponto de vista dos costumes, que desencoraja a interação entre homens e mulheres que não são parentes.
O tratamento dispensado às brasileiras mostra que hoje há certo grau de abertura na sociedade saudita, assim como a presença de empresárias do país árabe nas rodadas de negócios realizadas no hotel Al Faisaliah, em Riad. Veteranos dos negócios com os sauditas comentaram que isso era uma coisa que não se via no passado.
A gerente de exportação da Ruette Spices, de Campinas, Cristina Guerreiro, comentou, após atender uma empresária local, que ela tinha amplo conhecimento do mercado e dos concorrentes da companhia brasileira, que exporta principalmente pimenta do reino a granel. O uso da abaya, robe negro que cobre todo o corpo, e de véu na cabeça, no entanto, continua a ser exigido.
Abastecimento
Leonardo Bonaparte, da Tangará, exportadora de leite em pó e café verde, disse que há uma grande demanda em por alimentos na região. “Eles sabem que o Brasil é um grande celeiro, especialmente aqui na Arábia Saudita”, afirmou.
O preço do leite está muito alto no Brasil e os exportadores não têm conseguido manter a competitividade no mercado internacional, mas Bonaparte destacou a necessidade de manter o diálogo com os importadores para voltar a vender quando o preço baixar. “A demanda é altíssima, e precisamos fazer um mapeamento para quando o Brasil voltar a ser competitivo”, declarou.
Há grande preocupação na Arábia Saudita e nos países árabes em geral com a segurança alimentar, desde que os preços no mercado internacional subiram rapidamente no início de 2008. “Foi alarmante para muitos países o aumento dos preços em 2008”, disse o vice-ministro das Finanças da Arábia Saudita, Hamad Al Bazai, em reunião com o ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que lidera a missão.
A crise mundial de alimentos turbinou o problema para os sauditas, que um ano antes tinham lançado um plano de investimentos agrícolas no exterior. Desértico, o país decidiu deixar de desenvolver a agricultura local para economizar água para consumo humano e passou a promover culturas no exterior, especialmente na África. “Daí em diante, nós passamos a pensar em segurança alimentar de uma maneira diferente”, ressaltou Bazai.
Jorge retrucou que o Brasil “está pronto para auxiliar nos esforços” da Arábia Saudita para garantir o abastecimento de alimentos. “Podemos cooperar fortemente nessa área”, acrescentou. Integram a delegação brasileira empresas do ramo agropecuário que buscam investidores para novos projetos, além de representantes do Ministério da Agricultura.
O presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin, lembrou que o Brasil “é um país amigo dos árabes”. “Provavelmente nós bateremos o recorde de exportações ao mundo árabe este ano”, disse ele, acrescentando que a Arábia Saudita é o principal destino das mercadorias brasileiras na região.
Jorge teve também uma reunião com o ministro saudita da Agricultura, Fahd Bin Abdulrahman Balghunaim, que visitou o Brasil em outubro. Segundo o diretor do Departamento de Promoção Internacional do Ministério da Agricultura brasileiro, Eduardo Sampaio Marques, que participou do encontro, foi discutida a assinatura de um memorando de entendimentos entre os dois países para nortear eventuais investimentos saudita na área agrícola.
Alegria
Na abertura das rodadas de negócios, Jorge lembrou que na sexta-feira (03) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu oficialmente o Estado Palestino, em um dos últimos atos de política internacional de seu segundo mandato, que termina em menos de um mês.
Nesse sentido, o ministro destacou a importância dada às relações com o mundo árabe nos oito anos de governo Lula. “Para nós é uma alegria estar aqui, nessa última missão, justamente no mundo árabe”, afirmou Jorge. A viagem da delegação termina neste domingo, em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

