Isaura Daniel e Cláudia Abreu
São Paulo – No dia 11 deste mês as roupas feitas pelo estilista Alexandre Herchcovitch vão estar nas passarelas da Semana da Moda de Nova York, ao lado das criações de gigantes têxteis mundiais como Calvin Klein e Donna Karan. Outro brasileiro, o estilista Carlos Miele, que também participa do desfile, mantém há dois anos uma loja própria no badalado bairro nova-iorquino de Meatpacking. O reconhecimento internacional do trabalho de Herchcovitch e Miele, assim como dos brasileiros Fause Haten, Ocimar Versolato, Icarius de Menezes e Amir Slama, entre outros, é um exemplo de onde a moda brasileira chegou.
O mundo já colocou para dentro das suas lojas de grife a moda Brasil. Grande parte dos estilistas considerados tops no país está exportando e conquistando simpatia no exterior. O estilista Amir Slama, por exemplo, foi um dos responsáveis por inserir o Brasil no top na moda praia mundial, com a romântica e ousada Rosa Chá. "O Brasil é copiado na moda praia", diz o presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário do Estado de São Paulo (Sindivest) e Sindicato da Indústria de Roupas Masculinas do Estado de São Paulo (Sindiroupas), Marcel Zelazny.
Fora dos ateliês de roupas exclusivas, há ainda um universo maior formado por pequenas, médias e grandes confecções que têm suas peças vendidas em redes de varejo e até nas caixas de ofertas das lojinhas do mundo. As indústrias brasileiras faturaram, nos sete primeiros meses deste ano, US$ 1,1 bilhão com exportações de produtos têxteis. O aumento sobre as vendas do mesmo período de 2004 foi de 5,36%. No ano passado, o desempenho foi ainda melhor:o setor faturou US$ 2 bilhões, 25,6% mais do que no ano anterior.
Na lista de clientes estrangeiros estão mais de 150 países. As roupas fabricadas por brasileiros chegam desde os tradicionais mercados mundiais, como Estados Unidos, Alemanha e França, até o território da concorrente China, e de nações pouco conhecidas como a africana Gâmbia e a européia Liechtenstein.
Os países árabes também estão entre os compradores. "As roupas assinadas por estilistas brasileiros estão fazendo muito sucesso entre os árabes", diz o presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), Antonio Sarkis Jr. Entre os dias 12 a 15 de setembro empresas e designers brasileiros participam, juntamente com a CCAB, da Motexha, feira de moda de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Brasil criador
Por trás dessa disseminação internacional da moda brasileira está um processo que começou a se desenvolver há cerca de dez anos. "Já existia moda no Brasil, mas de dez anos para cá as indústrias começaram a se internacionalizar de forma mais estruturada", diz o superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel. "Antes éramos conhecidos apenas como produtores, como mão-de-obra, hoje como criadores", complementa Zelazny.
De acordo com o presidente do Sindivest, o São Paulo Fashion Week, semana de moda brasileira, ajudou a dar impulso a esse processo de internacionalização. "Os jornalistas estrangeiros começaram a vir para o Brasil", diz Zelazny. O São Paulo Fashion Week, cujos desfiles começaram em 1995, já faz parte do calendário mundial da moda. Tanto que alguns estilistas, como Fause Haten, deixaram de mostrar suas coleções em desfiles internacionais por acreditar que a semana nacional já lhes dá exposição externa suficiente.
País da praia
Moda praia, roupas esportivas, lingeries e jeans são, de acordo com especialistas, os segmentos da confecção brasileira que mais encontram receptividade fora do Brasil. A coordenadora do Núcleo de Pós-Graduação em Moda da Universidade Anhembi Morumbi, Carol Garcia, afirma que o design é o grande diferencial da moda brasileira. "É um design baseado no modo de viver e de consumir do brasileiro. A roupa brasileira é sexy, é muito próxima do corpo e isso exige uma modelagem muito boa", afirma.
Isso, de acordo com Carol, explica o sucesso dos biquínis, calças jeans e peças fitness brasileiras fora do país. Esse tipo de roupa normalmente é usada justa. A criatividade é outro ponto a favor dos brasileiros. "A gente faz roupas alegres", diz o presidente do Sindivest. "A moda leva nossa brasilidade, a cultura, a etnia", complementa o superintendente da ABIT.
As escolas de moda colaboram para os brasileiros acertarem no design, nos últimos anos surgiram várias delas voltadas para a criação e o estilo. De acordo com o presidente da ABIT, há mais de 60 cursos técnicos e de graduação de moda no país.
Somado a isso o Brasil ainda tem uma cadeia têxtil completa, desde a produção do algodão, das malhas e dos tecidos sintéticos até o acabamento. Carol Garcia lembra do bom trabalho feito pelas lavanderias brasileiras de jeans, responsáveis por dar a aparência final às peças, e as empresas que trabalham com textura, aplicando desenhos ou jatos de areia sobre a roupa.
De acordo com Carol, também a indústria de tecidos está em um processo de evolução, com investimento em máquinas e parcerias para desenvolver tecidos exclusivos para os designers.
Do RS ao Ceará
A indústria da confecção está espalhada pelos quatro cantos do Brasil. Há pólos têxteis em estados como São Paulo, Goiás, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, Paraná e Santa Catarina.
Em alguns as empresas têm características semelhantes, como é o caso do Paraná, onde os municípios de Cianorte, Londrina e Maringá são fortes produtores de jeans, e de Fortaleza, onde as confecções costumam produzir roupas bordadas. Também há um grande número de malharias em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
A indústria têxtil brasileira faturou R$ 25 bilhões em 2004. Deste total, 8% vem das exportações. O Brasil participa atualmente com 1,5% do comércio mundial do setor, que no ano passado teve uma receita de US$ 400 bilhões.

