Alexandre Rocha
São Paulo – A exemplo de outros setores da indústria, as montadoras brasileiras de veículos começaram a diversificar seus mercados no exterior. Antes praticamente limitadas às vendas no mercado interno e exportações para outros países da América Latina, as companhias do segmento agora embarcam seus carros, caminhões, ônibus e motores também para destinos tão diversos como Rússia, Índia, Estados Unidos, Austrália e países da África, Oriente Médio e Europa.
A maior parte das fábricas de veículos instaladas no Brasil pertence a grandes multinacionais do setor. Daí a estratégia predominante de atender, principalmente, os países latino-americanos, já que os demais mercados são, ou pelo menos eram, abastecidos por outras unidades das empresas.
A busca de novos mercados começou a ocorrer, segundo especialistas ouvidos pela ANBA, por causa de três fatores. Em primeiro lugar as empresas fizeram investimentos na produção em anos recentes, mas, ao mesmo tempo, o mercado interno sofreu uma retração, o que levou à busca por clientes lá fora.
Outro motivo foi a desvalorização do real frente ao dólar e ao euro, o que, aliada a uma grande escala de produção, tornou os preços dos veículos brasileiros mais competitivos no exterior. O terceiro fator, determinante, é que a maioria dos modelos exportados para novos mercados é fabricada exclusivamente no Brasil. Estes veículos são utilizados para complementar a linha de produtos oferecidos pela matriz e outras unidades das empresas.
"Como o custo de produção no Brasil é menor do que em países como a Itália e a Alemanha, por exemplo, as montadoras estão considerando o Brasil uma plataforma de exportação", disse o diretor de relações internacionais do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Maurice Costin.
Na mesma linha, o gerente-executivo de exportações da Volkswagen do Brasil, Leonardo Soloaga, diz que, mesmo com o aumento das vendas no mercado interno e das exportações no ano passado, as fábricas ainda têm capacidade ociosa. No ano passado, as montadoras brasileiras produziram 2,2 milhões de veículos, resultado 20,7% superior ao registrado em 2003, mais ainda aquém da capacidade das empresas. "O setor tem capacidade para produzir 3 milhões de unidades por ano, então ainda há muito espaço para crescer", disse Soloaga.
Os países árabes são um bom exemplo da diversificação de mercados. Segundo informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), em 2004 as exportações de automóveis para a região renderam US$ 78,1 milhões para as companhias, contra US$ 37,3 milhões em 2003. No caso dos ônibus, os embarques somaram US$ 29 milhões em 2004, ante US$ 11,4 milhões em 2003. As vendas de veículos de carga, por sua vez, passaram de US$ 13,4 milhões em 2003 para US$ 43,6 milhões em 2004. Nas três categorias os embarques mais do que dobraram de um ano para o outro.
De acordo com Costin e Soloaga, os produtos brasileiros acabam tendo uma boa aceitação em mercados emergentes, pois, no caso dos automóveis por exemplo, são compactos, econômicos e facilmente adaptáveis a diferentes realidades, ou seja, ideais para mercados em desenvolvimento.
Marcas
A Volks, por exemplo, exporta a família do Gol (o compacto Gol, a perua Parati e a picape Saveiro), o Fox e o Pólo Sedan. "São carros de adaptação fácil e rápida. Para a Rússia, por exemplo, são feitas algumas mudanças no motor para resistir ao frio, já no Marrocos eles recebem um segundo radiador por causa do calor", afirmou Soloaga.
A Volkswagen do Brasil vendeu 8.533 veículos aos países árabes no ano passado, contra 2.059 em 2003, o que superou em muito a previsão feita no início de 2004 de exportar entre 3 mil e 3,5 mil unidades para a região. Os principais destinos foram o Marrocos, Síria, Argélia e Egito. "O mercado foi aberto em 2003 e nós começamos a exportar em maior volume em 2004", disse Soloaga.
Também no ano passado, a matriz da empresa assinou um contrato para a construção de uma linha de montagem em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, a ser abastecida totalmente por veículos semidesmontados produzidos no Brasil. Em abril, o Fox fabricado no Brasil começará a ser vendido na Alemanha. "Continuamos com a estratégia de abrir mercados", declarou Soloaga.
No caso da Fiat, os países árabes já têm até uma participação maior nas exportações. A montadora instalada em Betim, Minas Gerais, embarcou 9.809 unidades para a região em 2004, contra 1.863 em 2003, tendo a Argélia, Marrocos e Tunísia como principais destinos. O mundo árabe respondeu por 12,7% do total das exportações da companhia. De acordo com informações da assessoria de imprensa da empresa, o resultado é devido uma "política mais agressiva" da Fiat brasileira na abertura de mercados nos países do Norte da África.
Algumas montadoras exportaram pela primeira vez para a região. É o caso da Ford, que embarcou 600 unidades da pequena picape Courier para a Síria. Exportou e gostou. "O Oriente Médio é um mercado onde nunca estivemos presentes, assim como a África. As perspectivas são promissoras", disse o diretor de exportações da Ford América do Sul, Dante Marchiori, segundo informou a assessoria de imprensa da empresa.
A exemplo da Volkswagen, a Ford vendeu para a Síria um modelo que é fabricado exclusivamente no Brasil. Para este ano, a empresa pretende vender mais 900 unidades da Courier ao país e estuda a possibilidades de introduzir outros modelos naquele mercado, como jipe EcoSport e o Fiesta.
A DaimlerChrysler do Brasil, por sua vez, ampliou ainda mais seu espaço no mercado árabe. Vendeu para a região 1,7 mil unidades entre caminhões e ônibus no ano passado, contra 1,3 mil em 2003. Os principais destinos foram Egito e Jordânia. "Hoje o mercado do Oriente Médio é o principal comprador de veículos comerciais da DaimlerChrysler do Brasil fora da América Latina e esperamos que essa parceria aumente nos próximos anos", informou a empresa à ANBA.
A Renault e a Volvo, ambas instaladas no Paraná, também exportaram para os árabes. No caso da empresa de origem francesa, foram embarcadas cerca de mil unidades do compacto Clio para a Argélia. Já a subsidiária da multinacional sueca exportou 72 caminhões pesados para a Arábia Saudita.
Outras montadoras instaladas no Brasil também exportam, como é o caso da Honda, Peugeot/Citroën, Nissan, Mitsubishi, Toyota, mas estas ainda não vendem para os árabes. No total, a indústria brasileira faturou US$ 8,3 bilhões com a exportação de veículos, máquinas agrícolas e motores no ano passado, um aumento de 51,8% em comparação com 2003.

