São Paulo – A crise financeira internacional acendeu o sinal amarelo para a indústria automobilística brasileira, afinal o setor é bastante globalizado. Isso não quer dizer, porém, que as empresas estão pessimistas com o mercado nacional. Pelo contrário, com um discurso praticamente idêntico, as diversas montadoras instaladas do país garantem que seus cronogramas de investimentos e lançamentos de modelos serão mantidos.
“O ideograma chinês para a palavra ‘crise’, representa também ‘oportunidade’”, resumiu o vice-presidente da General Motors do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto, em entrevista coletiva realizada ontem (27), no Pavilhão de Exposições do Anhembi, para apresentar o estande da companhia no 25° Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, que abre para o público no dia 30.
Ao todo, 12 fabricantes de automóveis anunciaram ontem suas novidades para o Salão e suas perspectivas para o mercado. “A gente pode enxergar a crise de duas formas: vendo o copo meio vazio ou meio cheio”, disse o presidente da GM do Brasil e Mercosul, Jaime Andila. “O Brasil vai sofrer impacto, mas ele será pequeno, pois o país está muito mais preparado para enfrentar os desafios e tem empresas comprometidas com o seu futuro e com o futuro da indústria automobilística”, acrescentou, em discurso repetido quase em uníssono pelos executivos do setor.
No caso da GM, os diretores acreditam que, após uma produção recorde de cerca de 3 milhões de veículos em 2008 (de todas as montadoras), o mercado ainda terá bons resultados em 2009 e vai crescer de maneira sustentável no longo prazo. A indústria nacional está hoje entre a sétima e a sexta posição entre as maiores do mundo e, para a General Motors, o Brasil é o terceiro maior mercado. Considerada apenas a marca Chevrolet, o país é o segundo mais importante.
Hoje, segundo Andila, o maior problema é o crédito. O mercado de automóveis vinha trabalhando com baixas taxas de juros e longos prazos de pagamento. Agora os financiamentos estão mais seletivos, mais curtos e mais caros. Ele disse, no entanto, que a situação está dentro dos parâmetros considerados normais em comparação com outros países e deverá se normalizar dentro de dois ou três meses. A GM do Brasil prevê crescer pelo menos 5% no próximo ano.
“Há hoje uma histeria completamente vazia de sentido”, destacou Pinheiro Neto. A opinião é semelhante à do presidente da Citroën do Brasil, Jean Louis Orphelin, para quem a crise é mais de confiança do que de crédito propriamente dito.
Os executivos do ramo foram também quase unânimes em aplaudir as medidas que vêm sendo adotadas pelo governo brasileiro nas últimas semanas para garantir liquidez aos bancos e acalmar o mercado financeiro, entre elas a que autoriza o Banco do Brasil a atuar no ramo de financiamento de veículos até por meio da compra de financeiras que eventualmente estejam em dificuldades.
Na Ford o sentimento não é diferente. Segundo seu presidente para o Mercosul, Marcos Oliveira, a companhia mantém o plano de lançar 23 modelos de 2009 a 2013, entre reestilizações de carros atuais e automóveis completamente novos. “Já houve um impacto da crise na economia e este é um momento de análise, para pensar nossa estratégia para o futuro. Mas continuamos a apostar no futuro do mercado brasileiro, no crescimento do país e da América do Sul”, declarou.
Na avaliação do diretor, o lançamento de novos modelos dá maior competitividade à empresa, avaliação semelhante às de outras companhias. Além disso, de acordo com a maioria dos executivos que falaram ontem, as montadoras brasileiras fizeram a lição de casa para enfrentar turbulências, reduzindo custos e investindo em tecnologias para otimizar a produção.
Assim como na GM, a Ford tem no Brasil seu terceiro maior mercado, atrás apenas dos Estados Unidos e Reino Unido. “Olhamos a crise como oportunidade para melhorar nossos negócios, procurar novas soluções, e temos grande fé na economia brasileira”, afirmou o vice-presidente da Ford para o Canadá, México e América do Sul, David Schoch. “Planejamos continuar a investir e acreditamos na tendência de crescimento do país. Temos uma visão de longo prazo para o Brasil e América do Sul”, acrescentou.
A Toyota também garantiu que manterá os planos de construção de uma nova fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo. A Hyundai é outra que garante a manutenção dos planos, com um segundo modelo, o Tucson, passando a ser produzido em sua planta de Goiás em 2009.
No quesito dever de casa, a Renault diz ter feito o seu. Já lançou cinco dos seis modelos novos previstos de 2006 a 2009, cumpriu a meta de dobrar o volume de vendas nesse período e reduziu custos aumentando sua rentabilidade, de acordo com o presidente da empresa no Brasil, Jérôme Stoll.
A Citroën acredita na continuidade do crescimento das vendas, embora não nos mesmos patamares de 67% que apresentou de janeiro e setembro deste ano. A companhia prevê que sua participação no mercado brasileiro vai passar de 2,6% hoje para 3% em 2009.
Espaço
O que leva as fábricas a ter fé é o potencial do mercado nacional. Segundo dados da Fiat, no Brasil existe hoje um carro para cada oito habitantes, enquanto que na Europa a proporção é de um para dois. Ou seja, são 25 milhões de veículos para quase 200 milhões de pessoas. Para se alcançar o patamar europeu seriam necessários mais 75 milhões de automóveis, o que indica um grande horizonte de crescimento.
Assim como as outras empresas, a Fiat garante que manterá seus planos. Ele prevê investimentos de R$ 5 bilhões no país no período de 2008 a 2010 para aumentar sua capacidade de produção de 700 mil veículos por ano para 800 mil.
A Honda olha também para o potencial latente do mercado. “Independentemente de fatores conjunturais, acreditamos no potencial do mercado”, disse o vice-presidente da companhia, Kazuo Nozawa. No curto prazo, porém, ele acredita que as vendas devem permanecer nos patamares atuais e cita a escassez de crédito como principal problema a ser enfrentado.
Na seara das motos, a montadora japonesa chegou a interromper a produção da fábrica em Manaus e dar férias coletivas aos funcionários, mas no segmento de automóveis não há previsão de medidas semelhantes para a planta de Sumaré, no interior de São Paulo.
Nozawa afirmou, porém, que a valorização do dólar terá impacto no custo de insumos importados, o que poderá atingir a rentabilidade da empresa. A oscilação do câmbio gera um problema adicional: a dificuldade de formação de preços. A companhia lança no Salão o novo Honda Fit, monovolume que faz muito sucesso no Brasil. Como o carro tem cerca de 30% de componentes importados, a empresa ainda não divulgou qual será o preço da nova versão, sendo que ela começará a ser vendida ainda este mês.
O caso do novo Fit revela um pouco do quadro atual da indústria. Apesar de perspectivas otimistas no longo prazo, as empresas têm evitado fazer grandes previsões para o cenário de curto prazo. A idéia é esperar a poeira da crise baixar, ou deixar como está para ver como é que fica, como diz o ditado.
O fato é que o mercado brasileiro cresceu muito nos últimos anos. A previsão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) para 2008 era de um aumento de 24%. Mesmo com certo arrefecimento no quarto trimestre, por conta da crise, o desempenho ficará acima dos 20%. No ano passado, o crescimento foi de 29%. Mesmo sem as turbulências, não se esperava a manutenção desses patamares por muitos anos.

