Marina Sarruf
São Paulo – O Instituto Cultural do Banco Santos abre nesta quarta-feira (7) suas portas para o público ver e conhecer de perto peças que compõem a história da escrita ao longo das civilizações. Entre as 500 peças expostas está um documento do século 19, chamado de Patuá Malê, escrito com sangue, que é vestígio da presença dos escravos muçulmanos no Brasil. Foram eles e não os imigrantes sírio-libaneses, em geral cristãos, que trouxeram a religião islâmica para o país.
De acordo com o curador da mostra, Leandro Karnal, o Patuá Malê é um tipo de amuleto da sorte, em que a pessoa escreve, depois enrola o pedaço de papel e guarda dentro de um saquinho. Esse documento foi encontrado num muro da rua Bueno Aires, na cidade do Rio de Janeiro, em 1983. No papel exposto está escrito um trecho do Alcorão, em árabe, e foi redigido com sangue de um escravo muçulmano, que veio do Malê, região africana.
"Esses negros foram muito importantes na história do Brasil", afirmou Karnal. Os escravos muçulmanos começaram a chegar no país a partir do século 18 e foram enviados para o nordeste brasileiro, principalmente Bahia. Segundo o curador, esses escravos vindos do Malê, conhcecidos como malês, eram muito mais organizados, cultos e urbanos do que os angolanos, que eram analfabetos.
Para Karnal, a importância dos malês no Brasil é que eles eram mais cultos e alfabetizados do que os próprios portugueses, colonizadores da terra brasileira e donos dos escravos, e assim, em 1835, eles se revoltaram contra seus donos. Esse episódio é conhecido como Levante dos Malês. Após a rebelião, uma parte dos negros muçulmanos emigrou para o Rio.
Caligrafia árabe
"Os árabes como civilização são fundamentais, foram uma civilização de tolerância durante a maior parte da Idade Média", disse Karnal. "A escrita árabe deu origem a uma caligrafia refinada e sofisticada que se tornou uma forma de arte".
De acordo com o curador, a escrita que mais desenvolveu a caligrafia foi a dos árabes, porque, de acordo com o Alcorão, eles não podiam desenhar figuras humanas, profetas ou Deuses, então foram obrigados a desenvolver uma escrita que melhor ilustrasse essas imagens, o arabesco.
"O arabesco é a letra que serve para fazer decoração, ela é muito abundante no mundo árabe", explicou o curador. "Ela é tão trabalhada e decorada que faz da escrita uma arte", completou.
Para Karnal, a caligrafia árabe é muito mais refinada do que a ocidental. "Se compararmos uma com a outra, a ocidental é muito mais pobre", disse o curador, apontando para um caderno de exercício de caligrafia de D. Pedro II, que é parte da mostra. O imperador brasileiro visitou os países árabes e entendia um pouco do idioma.
"Ninguém duvida hoje da importância da civilização árabe na escrita", concluiu Karnal.
Mesopotâmia e o Império egípcio
Os mais antigos registros da escrita foram encontrados na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, atual Iraque. Nessa região foi desenvolvida uma escrita baseada em sinais, que eram desenhados com uma cunha, peça de metal ou madeira dura, em forma de prisma agudo em um dos lados, aplicada sobre um pedaço de argila úmida.
Outra civilização que mereceu destaque na exposição é a egípcia. As peças expostas são muito anteriores ao domínio árabe e muçulmano. "O Egito é um dos berços da escrita, foi a segunda escrita a surgir no mundo", explicou Karnal.
Na mostra há uma sala dedicada exclusivamente para as peças do antigo império egípcio, com vasos, estátuas de faraós, um sarcófago de uma mulher da nobreza, pedaços de portas e paredes com hieróglifos, escrita com desenho, peças que foram algumas das primeiras a serem decifradas, no século 19. Numa das peças com hieróglifo, com um homem e uma mulher desenhados, é possível notar um símbolo de coração, "demonstração de afeto", disse o curador.
As outras três regiões que também são consideradas como inventoras da escrita são Vale do Rio Indo, na Índia, a China e a América. "As outras regiões copiaram, adaptaram, simplificaram e criaram a escrita", completou Karnal.
A exposição
"A Escrita da Memória" está dividida em três segmentos: Berços da Civilização, que vai desde os cinco berços até a revolução da imprensa; Arte e Ciência, que mostra memórias da criação de cientistas, escritores e artistas; e Poder Quotidiano, que apresenta documentos e manuscritos de grandes nomes da política.
Para o curador, "o primeiro salto é a invenção da escrita, o segundo é o alfabeto, o terceiro é a imprensa e o quarto, a gente poderia chamar de computador, quando a escrita se torna mais rápida e dinâmica".
Serviço
Instituto Cultural do Banco Santos
Rua Hungria, 1.100 – Jardim Paulistano – SP
Tel. 3818-9591
Horário
De terça-feira e sexta-feira das 10hs às 17:30
Sábados, domingos e feriados das 10hs às 16:30
Mais informações
www.santoscultural.com.br

