São Paulo – No município de Cafelândia, no interior do Paraná, um mesmo motor é responsável por fazer andar de 70% a 80% da economia local. Não se trata de uma grande multinacional instalada ali, mas da Cooperativa Agroindustrial Consolata, a Copacol. "A Copacol é responsável por aproximadamente 70% dos empregos da comunidade", diz Antoninho Skura, secretário de Administração e Planejamento da Prefeitura. "Se não existisse a cooperativa, Cafelândia ainda seria distrito de Cascavel", afirma Skura.
Cafelândia produz e escoa pela cooperativa frango, milho, soja, trigo, e assim como ali, em milhares de outros municípios do Brasil também é o sistema cooperativista que impulsiona a renda e o desenvolvimento local. Em Cafelândia, o crescimento da cooperativa significou a autonomia de Cascavel, cidade da qual ela era distrito até 1982. Com mais de 4,7 mil associados, a receita da Copacol chegou a R$ 1,27 bilhão em 2011, R$ 15 milhões distribuídos entre os associados. O Produto Interno Bruto de Cafelândia – R$ 822 milhões – nem chega ao faturamento da cooperativa, que tem unidades em outras cidades também.
Consciente da importância destas estruturas para a vida das populações, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou 2012 como o Ano Internacional das Cooperativas. O fato ganha um peso especial no Brasil dado à força que as cooperativas agropecuárias têm nos pequenos municípios e nas suas populações, que as utilizam para vender sua soja, seu milho, sua carne de porco, sua carne de frango e têm nelas um local de confiança.
A força do cooperativismo agrícola está justamente na comercialização conjunta dos produtos, em volumes maiores, com canais de distribuição já estruturados. No sistema cooperativista os rendimentos são reinvestidos no empreendimento e parte deles vão para os cooperados. Atualmente, existem no Brasil 1.548 cooperativas agropecuárias. Entre os que dependem dela como associados, são 943.054 produtores.
O Paraná é o estado no qual o cooperativismo agrícola é mais forte no Brasil, com 240 cooperativas no total, 82 do ramo agropecuário. "O modelo agroindustrial do Paraná está calcado nas cooperativas. Elas são responsáveis por 55% da produção e 60% da infraestrutura disponível no estado", diz José Roberto Ricken, superintendente da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). O valor bruto da produção agrícola do Paraná é de R$ 44,1 bilhões.
O professor de Economia Rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eugênio Stefanello, destaca os serviços que a cooperativa oferece aos associados. "Para o pequeno e médio produtor cooperado, ela é um mecanismo fundamental para a compra de insumos de melhor qualidade e um maior preço de venda porque ele tem poder de barganha. Ele também passa a ter acesso a serviços, como armazenagem, limpeza e transportes", aponta.
Nos últimos trinta anos, as cooperativas também vêm tentando levar mais renda para o agricultor e pecuarista. Elas industrializam os produtos do campo e os colocam no mercado por um preço maior. "Elas estão agregando valor nos complexos soja, café, leite, sucroalcooleiro, frutas e algodão. A renda do produtor fica muito maior e aumenta seu potencial de investimento na produção e também em tecnologia, o que um produtor individual não conseguiria", explica o professor Stefanello.
As cooperativas agropecuárias também oferecem o auxílio de profissionais especializados para ajudarem os agricultores em seus trabalhos. "Toda cooperativa tem um quadro técnico formado por agrônomos, técnicos agrícolas e veterinários que oferecem assistência ao produtor. Além disso, estes profissionais também atuam como um elo na transferência da tecnologia gerada nos institutos de pesquisa para a aplicação no campo", diz Renato Nobile, superintendente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Gigante
Em 2010, o setor cooperativista no Brasil faturou R$ 97 bilhões. Segundo dados da OCB, o faturamento do setor representa cerca de 6% do PIB nacional. As exportações das cooperativas também têm seu peso na balança comercial do País, respondendo por 2,4% das vendas externas. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior indicam que as cooperativas faturaram US$ 6,1 bilhões no ano passado com comércio exterior, com crescimento de 39,8% sobre 2010.
De acordo com especialistas, porém, este número não reflete a realidade do setor. "As cooperativas passaram a exportar dos anos 90 para cá e mais fortemente dos anos 2000 para cá. Antes, o foco era no mercado interno. Uma boa parcela dos produtos das cooperativas era exportada por meio de tradings e não diretamente. Quando isso acontece, os produtos não ficam registrados como oriundos de cooperativas", explica Stefanello.
No entanto, este cenário parece estar mudando. "Empresas da China e Oriente Médio estão vindo diretamente para as cooperativas, sem passar por tradings. Isto está muito evidente nas missões comerciais que tem ocorrido", diz o professor. As vendas externas das cooperativas são principalmente do complexo sucroalcooleiro, complexo soja, café e carne de frango.
Segundo a OCB, o Brasil tem 133 cooperativas exportadoras. "Muitas delas têm marca e a marca cooperativa é muito forte", conta Marco Olívio Morato, analista de Ramos e Mercados da OCB. "O termo ‘cooperativa’ tem uma aceitação muito forte nos países europeus. Já nos países em desenvolvimento, como os do Norte da África, Oriente Médio e Ásia, eles buscam a qualidade destes produtos", diz Morato. As cooperativas brasileiras exportaram US$ 1,034 bilhão em mercadorias aos países do Oriente Médio e Norte da África em 2011.
Movimentando economias
E esses números, de faturamento e exportação, estão espalhados por aí, em forma de renda, nos pequenos e médios municípios do País. Na cidade de Coruripe, em Alagoas, se localiza a maior cooperativa agroindustrial do Nordeste, a Pindorama. Atualmente ela possui 1.160 cooperados, gera 2.242 empregos, dos quais 900 fixos e os demais temporários na moagem da cana. A Pindorama reúne produtores de frutas, como maracujá, acerola e caju, além de produzir alimentos manufaturados como sucos, leite de coco e coco ralado e fabricar etanol.
Em 2011, seu faturamento ficou em R$ 153 milhões. Esse dinheiro, além de beneficiar os produtores, também serve para manter iniciativas como o centro de treinamento, que capacita cooperados e jovens da região. Um dos cursos oferecidos prepara os filhos de associados, desde a adolescência, para internalizar a ideia de cooperativismo, com o objetivo de substituir seus pais ou assumirem cargos administrativos. "Há alunos que hoje já são funcionários”, conta Abel Guimarães, assistente da diretoria da Pindorama.
As mulheres dos cooperados também se tornam economicamente ativas, com um grupo de costura que produz os uniformes que os produtores usam no campo. Além de envolver homens, mulheres e jovens, a presença da cooperativa trouxe desenvolvimento para a região. "Mudou totalmente a qualidade de vida das pessoas. Anteriormente, as condições eram precárias, nem luz elétrica chegava aqui. Em função da cooperativa, outros negócios foram criados, como padaria, farmácia, loja de móveis, banco. A comunidade aos poucos foi crescendo em função da cooperativa", revela Guimarães.
O Paraná também tem bons exemplos da força das cooperativas nas pequenas cidades. A Cooperativa Agropecuária Capanema (Coagro) conta com 5,7 mil associados e em 2011 seu faturamento foi de R$ 103,57 milhões. "A Coagro distribuiu R$ 2,9 milhões em bonificações durante 2011", conta Sebaldo Vaclawovsky, presidente da cooperativa. "Isso deu um bom volume para o produtor. Teve associado que recebeu mais de R$ 10 mil de resultado extra", afirma Vaclawovsky.
Segundo o prefeito de Capanema, Milton Kaser, a Coagro é formadora de preços na região. Como ela vende em conjunto, acaba conseguindo preços melhores para a produção local. "Não só a cidade, mas também a região tem tido um retorno muito grande com a Coagro", completa o prefeito. A Coagro dá aos produtores também outros benefícios como treinamento para lidar com novas tecnologias, assistência técnica para cuidar das lavouras e dias de campo, nos quais agricultores recebem instruções de empresas de sementes e defensivos.

