São Paulo – Na manhã de quinta-feira (08), o salão principal da Mesquita Brasil, o principal templo muçulmano de São Paulo, estava lotado. Centenas de homens ouviam as palavras do xeque Abdul Hamid Mitalwali, na celebração do Eid Al-Fitr, data que marca o fim do Ramadã, o mês sagrado do Islamismo. As mulheres assistiam à oração televisionada em um salão separado, no segundo andar da mesquita, ou esperavam com suas crianças em um dos dois enormes salões preparados para um grande café da manhã, com lanches, doces e frutas.
Foi assim que cerca de mil muçulmanos comemoram o fim de um mês marcado pelo jejum, feito do nascer ao pôr do sol, e por uma profunda reflexão espiritual. O Ramadã, nono mês do calendário islâmico, é um período de abstinência e reeducação para os seguidores do Islã. O Eid Al-Fitr (Dia do Desjejum), determina o fim desta fase e é celebrado por muçulmanos em todo o mundo.
“O dia do Eid é um dia de premiação para todo aquele que consegue fazer jejum. Nós manifestamos nosso agradecimento para Deus, que nos deu nossa vida, nossa saúde para fazer o jejum e para completar fazendo a oração na mesquita no dia do Eid. A mensagem que a quebra de jejum traz para o mundo inteiro é uma mensagem de paz, de harmonia, de irmandade, de colaboração, de cada um que tem condição de ajudar ao outro, de amor ao próximo”, explicou Mitalwali, diretor da Mesquita Brasil.
O administrador Mohamad Hauache, 25, lembra que o Ramadã não se resume à não ingestão de alimentos durante algumas horas do dia. “O Ramadã não é só você se privar da comida, é você se privar de falar palavrão, de ter pensamentos ruins, é não ficar nervoso. É um treinamento para o seu corpo físico e para sua alma. É um momento inexplicável. Ele aproxima as pessoas, é um clima diferente”, avaliou.
De família italiana católica, Cecília Guaglioni, 40, se converteu ao Islã em 2010. Para ela, o Eid Al-Fitr é o início de um período de espera por um novo Ramadã. “Essa comemoração de hoje sela, consagra, deixa determinado na minha vida que o Ramadã não vai morrer este mês. Pelos próximos meses, vou agradecer pelo Ramadã que eu tive, pelos ensinamentos que eu tive. Eu tenho que ajudar mais pessoas, tenho que ser caridosa com as pessoas. O Ramadã é um mês muito importante e essa festa é muito importante porque celebra isto em mim e em todos os irmãos muçulmanos”, disse.
O egípcio Mohamed Hassan, 34, passou o Ramadã e o Eid Al-Fitr pela primeira vez no Brasil. “Quando se entra no Ramadã tem que limpar a alma, ficar mais perto dos amigos, da família. No Ramadã, se procura os amigos que estão passando necessidade para ajudá-los, se faz mais orações, se fica mais perto do caminho do bem. Procuramos ficar na mesquita mais tempo para melhorar e limpar nosso coração. O Eid é uma festa que sempre preparamos depois do Ramadã para comemorar o nosso jejum”, contou o comerciante.
“O Ramadã é um mês de purificação e hoje é um dia de encerramento, é a festa que celebra o fim desse mês de sacrifício”, destacou Inas Mouallem Mazloum, 30. Ela conta que celebra com sua família na mesquita, participando da oração e do café da manhã com os outros fiéis. “Em seguida, a gente vai cumprimentar os familiares nas casas e geralmente são servidos doces.”
Apesar de ser um mês de privações e disciplina para os muçulmanos, o xeque Armando Hussein Saleh ressalta que o Ramadã não tem como objetivo sacrificar o dia-a-dia das pessoas, mas que haja um aprendizado durante este período.
“A festa [do Eid Al-Fitr] comemora que o muçulmano conseguiu realizar o jejum no mês do Ramadã. Para Deus não interessa o ser humano passar fome, o que interessa para ele é que [o fiel] aprenda, se eduque, se discipline. Se ele passar fome e sede e não der resultado em sua educação e disciplina, não adiantou nada ele ter jejuado. O ser humano precisa se disciplinar internamente. Na parte espiritual, as dádivas são multiplicadas diversas vezes, de forma que todo mundo procura agir com mais dignidade, ajudar ao seu próximo, aos mais pobres e assim por diante”, completou.
As dádivas deste dia, aliás, deviam estar bem multiplicadas para um certo senhor anônimo que participava da celebração. Com um maço bem grande de dinheiro na mão, ele passava distribuindo notas de R$ 10 para quem cruzasse seu caminho. Em uma data que já era de celebração, ele, com certeza, deixou muita gente ainda mais feliz.


